Caminhos

matrixO SIMBOLISMO NOS CAMINHOS

“…O caminho agonizava, morria sozinho… Eu vi… Porque são os passos que fazem os caminhos!”
Mario Quintana

A primeira obra escrita é sobre travessia. Mesmo à época em que os seres humanos ainda não dominavam a linguagem escrita, já se guiavam pelo simbolismo dos caminhos. Da “Epopéia de Gilgamesh” à saga de “Matrix”, tudo é viagem. Seja material ou espiritual, o ser humano tem uma necessidade intrínseca de passagens.

Não é à toa que o caminho de Santiago, na Espanha, vem atraindo peregrinos há séculos. Quem já o caminhou fala de descobertas espirituais em uma senda mística e bela. Tiago era um pescador que virou apóstolo e depois santo, porque morreu defendendo a causa cristã. Seus restos mortais foram levados à Espanha e o caminho que leva hoje a seu túmulo, desenhado pelas peregrinações, tem cerca de oitocentos quilômetros.
Para se chegar a qualquer conhecimento, há que se atravessar algum caminho. Guimarães Rosa eternizou a travessia na literatura brasileira, com as veredas do Grande Sertão. Sua travessia do liso do Sussuarão tem, no dizer dos entendidos, vasta simbologia mística e literária, que desemboca numa epifania.

A lenda celta-cristã do Graal é centrada na procura de “Parsifal”, cavaleiro do ciclo arturiano, de algo para salvar o rei-pescador, com uma ferida incurável. A inocência do herói é, nesse mito, fundamental para a conquista do símbolo e a cura do rei.

São João da Cruz, o santo de palavras mais lindas que já existiu, fala também de um atravessar pela “Noite Escura da Alma” e de um subir espiritual rumo a Deus. “A Subida do Monte Carmelo” é um caminho de despojamento que leva ao tudo. Essas duas obras, a noite escura e a subida se completam. Os poemas que as compõem são muito semelhantes ao “caminho do meio” do budismo, aquele que leva à iluminação.
A saga da trilogia “Matrix” é imersa em símbolos, utiliza-se das idéias cristãs, gnósticas e budistas. No momento em uma só simbologia me deterei: a simbologia da jornada. Se você quer saber, se você quer descobrir, então siga. Vá. O que é a Matrix? A verdade está no caminho. O protagonista Neo empreende uma odisséia entre sonho e realidade para conhecer e vencer a Matrix. Sua nave chama-se Logos. Logos é a razão para os gregos. Mas seu significado primitivo é verbo – palavra. A razão se ergue da palavra. Para os gregos ele tem significado de conceito. Para a teologia cristã, logos é o verbo e, portanto, é Deus. Na mitologia da Grécia, a palavra das musas cantantes deu origem a tudo mais, inclusive aos deuses – os próprios criadores de tudo.

Se logos é o conhecimento através do conceito ou da palavra, voltamos à passagem, voltamos ao caminho. E o caminho é precisamente a palavra. É assim a poesia. Não estou certa se a poesia é a realidade, ou se ela é uma imensa Matrix – Maya – a ilusão. Mas sei que é o lugar onde as travessias se fazem pelas palavras: caminhos inóspitos, às vezes desesperadores que nos levam ao conhecer de nós mesmos. Nós que também somos, talvez, só Maya, ilusão.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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