Camões e a Astrologia

Até o séc. XVI, a Astronomia e Astrologia estavam bem próximas. A astronomia é uma ciência que se desenvolveu enormemente. Hoje, uma de suas buscas é tentar encontrar vidas em outros sistemas planetários. Guardando as devidas proporções, é como a grande aventura portuguesa nos séculos XV-XVI desbravando mares a procura de outros lugares, povos e costumes. A astrologia não é uma ciência, mas no século de Camões ela ainda está muito presente nas vidas das pessoas e preocupações do poeta. As observações astronômicas conduzem aos prognósticos dos tempos (astrologia natural) e dos destinos (astrologia judiciária). Foi através da obra Introductorium in astronomia[m] , versão latina impressa in Augsburg , e reimpressa em Veneza em 1956, de autoria do árabe Alkumansar ( 776 -885), que os povos latinos iniciaram a Astronomia Judiciária.

Em Portugal, o dramaturgo Gil Vicente (1470 – 1536) ironiza a astrologia e os astrólogos em seus autos, principalmente na Farsa dos Físicos. Na obra Os Lusíadas, apesar do rigor com que o poeta descreve o sistema de Ptolomeu, ainda há muito de crenças no poder da astrologia. Da vida de Camões sabemos pouco e são pouquíssimas as pistas deixadas dessa atribulada existência. A data mais provável de seu nascimento e 1524. Camões pensa e escreve conforme os quadros mentais da sua época. Palavras como, seu planeta, sua estrela, benigna estrela, são utilizadas por ele com conotações astrológicas. Diz o poeta em poema autobiográfico;

Quando vim da materna sepultura
De novo ao mundo logo me fizeram
Estrelas infelices obrigado…
Garcia de Resende, autor do famoso Cancioneiro que leva seu nome, escreve ironizando àqueles que prognosticavam que o mundo ia se acabar por essa época:
E vimos a Astrologia / mentir toda em todo mundo: / que em 24 havia /
De haver dilúvio segundo; / E seco vimos o ano…
Os eclipses solares estavam associados com catástrofes ou acontecimentos ruins. No famoso Almanach Perpétuo de Abraão Zacuto, consta um eclipse do Sol em 23 de janeiro de 1525. Camões refere-se ao eclipse que estava para acontecer próximo à data de seu nascimento;
O dia em que eu nasci morra e pereça / Não queira jamais o tempo dar; /
Não torne mais ao mundo, e se tornar / Eclipse nesse “passo” o sol padeça.
Ainda Camões, referindo-se à fortuna e a “sua estrela”, que lhe roubou a alegria.
Chamo dura e cruel a dura Estrela / que me aparta de vós minha alegria
Fortuna* minha foi cruel e dura / aquela que causou meu padecimento / com a qual ninguém pode ter cautela… *Fortuna era nesse caso, o planeta regente do horóscopo de nascimento.
Garcia de Resende continua descrevendo o aparecimento de “monstros” que estavam associados com os desígnios do céu; E vimos monstros na Terra / e no céu grandes sinais /coisas sobrenaturais.Esses monstros da Terra aparecem com frequência na literatura folclórica, e pode ser qualquer anomalia da natureza, ou um saber imenso. Em Portugal nascera, por essa ocasião, o conhecido monstro de português, o menino de Évora que falava latim. Cervantes chamava seu rival e grande dramaturgo espanhol Lope de Vega, de monstro da natureza. Na Alemanha tinha o célebre Vitulomonaco, bezerro com figura de monge. Gustavo Barroso em Som da Viola (1949), fala do Menino Gigante que teria nascido na Vila de Vicência, em Pernambuco, por ocasião do aparecimento do cometa – tema aproveitado pelos rapsodos populares;
Todo mundo já conhece / o cometa de Biela, / que abalou a terra toda /E exterminava com ela, / se no seu giro passasse / Mais aproximado dela.
O astro passou bem longe, / No mundo ninguém morreu; / porem na sua passagem, / uma mulher concebeu / a um menino fenômeno / Que na terra apareceu.
No estado de Pernambuco, / Lá na vila de Vicência, /O tal menino Gigante / A luz teve da existência, / nasceu em mil novecentos. / cheio de viço e potencia…

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