Campos de Concentração no Ceará (1932)

Em seu primeiro romance, O Quinze, a escritora cearense Rachel de Queiroz relata a seca que assolou o estado do Ceará em 1915.

Ano em que havia ossos de animais espalhados na terra cinzenta do sertão e aves agourentas sobrevoando carniças. Ano em que retirantes anêmicos, com trouxas nas cabeças, acompanhados de crianças esquálidas com olhares desolados, caminhavam em estradas de barro esturricadas pelo sol escaldante, à procura de se estabelecer perto de açudes que ainda tivessem água.

Partiam em direção às estações de trem, na esperança de receber passagens do governo e migrarem para outros estados mais promissores.

Chegavam à capital cearense, cadavéricos e maltrapilhos, e acomodavam-se embaixo das árvores, numa situação de mendicância. Para resolver essa catástrofe que assolava Fortaleza, as entidades governamentais, apoiadas por comerciantes e grupos da elite, construíram um campo de concentração no bairro Alagadiço, onde abrigaram os retirantes da seca do Nordeste. Nesse local insalubre, cercado por arames farpados e vigiados por soldados do exército, centenas de sertanejos morreram de fome e de epidemias.

Em 1932, dezessete anos depois, surge outra seca avassaladora, dizimando um grande número de sertanejos. Assim, mais uma vez, na tentativa de sanar a fome, saíram à procura de alimento.

Repetia-se a catástrofe de 1915. O sertão cearense novamente despovoava-se. Onde estavam os programas sociais e as políticas públicas para ajudar a sanar a fome e as mazelas dos sertanejos?

Sete depósitos de cassacos

Fortaleza encontrava-se em crescente desenvolvimento e vivia o apogeu da modernidade e da belle époque, em que as elites ostentavam suas belas roupas.

Os retirantes esfarrapados e sujos que chegavam à capital contrastavam com esse cenário de deslumbre, gerando incômodo aos habitantes da metrópole cearense.

Assim, a fim de minimizar as tensões sociais foram instalados sete campos de concentração no estado do Ceará. Dois desses fixaram-se em Fortaleza, nos bairros de Pirambu e Otávio Bonfim e, os outros cinco ficaram espalhados pelo interior do estado, em pontos estratégicos, beneficiados pela estrada de ferro, próximos às cidades do Crato (Buriti), Ipu, Quixeramobim, São Miguel (Cariús) e Senador Pompeu (Patu).

Os retirantes, alcunhados de cassacos, não tinham liberdade para sair dos campos de concentração sem autorização dos inspetores, a fim de não contaminar com doenças infecciosas o restante da população.

Por essa razão, havia conflitos entre os guardas armados e os encurralados nos Currais do Governo, expressão utilizada pelos retirantes para denominar os campos de concentração, pois eles se viam desumanizados, presos como bois em currais.

A depressão chegou para aqueles que estavam acostumados a acordar cedo, cuidar do seu roçado e de suas criações e, naquele momento, viam-se confinados sem trabalho, sem atendimento médico, esmolando por comida e dormindo em barracos de tronco de madeira cobertos com folhas secas de árvores.

Segundo registros oficiais, estima-se que mais de 73.000 flagelados tenham passado por esses sete campos de concentração no Ceará, no ano de 1932.

Em Senador Pompeu, no sertão central do Ceará, cerca de 280 km da capital, mais de 16.000 retirantes ocuparam o campo de concentração da barragem do Patu.

Faltavam remédios, alimentos e o bem mais precioso: a água. Os banhos e as lavagens de roupa ficaram escassos, permitindo que os famigerados piolhos invadissem as cabeças de crianças e adultos.

Porém, o desespero ocorreu quando a cólera – doença infecciosa transmitida por meio de alimento e água contaminada – espalhou-se, provocando diarreia, dores abdominais, vômitos e febre.

Campos de Concentração no Ceará e as valas comuns


Segundo registros oficiais, estima-se que mais de 73.000 flagelados tenham passado por esses sete campos de concentração no Ceará.

Devido à superpopulação e às condições subumanas para conter a proliferação, ocorreu a morte de quase 2.000 pessoas, que foram enterradas em valas comuns, cavadas pelos próprios flagelados no campo de concentração em Senador Pompeu em 1932.

Nasci nessa pequena cidade, em 1952. Passei a infância e adolescência escutando o apito do trem avisando a sua chegada para recolher fardos de algodão e levá-los à capital. Mas chegou o inseto bicudo e acabou com o período do ouro branco.

A estação do trem ficou inoperante. O colégio das freiras da congregação de Santa Tereza extinguiu-se. A estrada asfaltada desviou-se.

Porém, os casarões de alvenaria construídos por engenheiros ingleses, no início do século XX, para dar suporte à construção da infindável barragem do Patu e que abrigaram os flagelados na seca de 1932, ainda resistem ao tempo e ao sol escaldante.

Em Senador Pompeu, a tradicional Caminhada da Seca, encabeçada pelo padre italiano Albino Donati iniciou em 1982, ao som de cantos, rezas e louvores.

Essa procissão ocorre anualmente no segundo domingo de novembro, fazendo um percurso de quatro quilômetros, que inicia na igreja matriz Nossa Senhora das Dores e finda na cruz do Cemitério da barragem do Patu, reconhecido como um lugar sagrado.

A cidade mantém os mitos milagrosos de graças alcançadas por interferências das almas sofredoras. Os peregrinos, a maioria vestidos de branco e com os pés descalços, levam, como oferendas, garrafas de água, velas e lágrimas para homenagear os sertanejos, que padeceram por negligência no campo de concentração da barragem do Patu, no sertão central do Ceará, na seca de 1932.

Comments

There are 3 comments for this article
  1. Jack d'Emilia 29 de Abril de 2019 18:13

    Parabéns pelo relevante artigo sobre esse fato histórico pouco divulgado

  2. Tereza Custódio 29 de Abril de 2019 22:44

    Grata Jack d’Emilia

  3. Eva Potiguar 2 de Maio de 2019 5:34

    Cada paragrafe foi um tormento
    para mim. Saber de forma explicita, tanto descaso e abandono social, me faz perceber com mais clareza, como ainda temos que lutar por direitos básicos de cidadania. Até pequenas ações de políticas públicas poderiam amenizar tanta dor e flagelo humano. Mas estamos num contexto histórico de muito descaso aos interesses e necessidades reais do povo. Uma história entre tantas que não foram contadas, nos assusta, mas também nos atenta para rever as consequências delas ainda hoje. Gratidão por esse texto tão precioso. Não imaginava tamanha dívida social e histórica na vida do nordestino brasileiro. Imagine o que temos ainda de oculto e obscuro que não surgiu quem tivesse coragem de escrever? Obrigada por essa aula difícil, mas necessária para minha carreira como poetisa e formadora de professores.

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