“Canção de um tempo triste”, de José de Castro

(Dedico a Ângela Varela, a Junior Dalberto, a Joiran Medeiros, a Arievaldo
Viana, a Aldir Blanc e a tantos outros e outras que foram levados
pela Covid-19)

I
Nessa tarde há um silêncio doído
lá fora aonde não me arrisco.
Proibidas estão as ruas e as praças.
E também os abraços, os afagos, os encontros.
O meu café, sorvo-o sozinho.
Há um medo no ar.
Notícias tristes nos assombram.
Assombrações.
O invisível pode nos atacar a qualquer momento.
Aquele amigo, aquela amiga,
de que você tanto gostava, onde estão?
Precoces partiram.
E você nem pôde se despedir.
Melancólicos os dias que nos atravessam.
Mas a poesia, a leitura, a escrita
são companheiras de fé.
Acredito na palavra e na sua força.
Triunfaremos.

II
Não tenho a vacina que o governo negou.
Mas tenho-te, palavra mágica.  
Vacino-me em ti que
nos imunizas da ignorância e da servidão
a falsos mitos.
Enquanto poetas existirem
a vida, mesmo frágil, agredida,
zombada, tripudiada, não terá sido em vão.

III
Choro os mortos desse Brasil,
e à sua memória lanço ao vento este canto.
Saúda-os, palavra amiga e diga-lhes que
não serão esquecidos.
A poesia não sucumbirá a este tempo de trevas.
E cobrará, na hora certa,
a fatura de tanta ignomínia.
Voa, poema, leve em suas asas
a mensagem da esperança.
Voa leve, e abrace-os, 
aqueles que duramente partiram.
E diga-lhes: não se calará a voz da poesia.

Ilustração: Calum Heath

Jornalista, escritor e poeta. [ Ver todos os artigos ]

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