A canção e a escansão

Por José Miguel Wisnik
O GLOBO

Meu presente de Natal é ‘(o vento lá fora)’, filme de Marcio Debellian

Não sou muito ligado em presentes, mas já tenho o meu presente de Natal, feito de ar e de sonhos, como explicarei mais adiante. Trata-se de “(o vento lá fora)”, filme de Marcio Debellian em que Cleonice Berardinelli e Maria Bethânia dizem poemas de Fernando Pessoa. As duas já tinham feito isso numa sessão da Flip em 2013, e se reuniram de novo para a filmagem, pouco tempo depois, num estúdio com pequeno público. Durante quase todo o tempo não vemos mais do que elas duas, uma mesa, folhas de papel, uma taça e um copo d’água. Maria Bethânia é Maria Bethânia, e isso é como se já soubéssemos. Cleonice Berardinelli é uma senhora de cintilantes quase cem anos, professora de literatura e especialista em Camões e Pessoa, até então só conhecida dos conhecedores.

Mas o que acontece, afinal, nessa hora e pouco de filme? Acontece aquilo que, segundo o próprio Pessoa, só se dá quando oferecemos em troca nossa simpatia, nossa intuição, nossa inteligência, nossa compreensão e a mão do anjo da guarda: a poesia. É com essa disposição total que as duas leitoras se entregam aos poemas, enquanto o olhar que as filma não o faz por menos, convidando-nos a participar dessa troca de dons com equivalente abertura de alma (se não quisermos, como diz o poeta, que os poemas sejam mortos para nós, e nós, mortos para os poemas).

Sem se afastar do seu propósito essencial, o roteiro é cheio de surpresas. Bethânia começa executando, com inesperada propriedade, a introdução de “Le Lac de Como” num sonoro piano Steinway de concerto. A peça era o maior hit entre alunas de conservatório nos anos 1960. Quando pensamos que a cantora vai enveredar por um deslocado devaneio instrumental, revela-se que o número é a deixa para que Cleonice diga o poema do heterônimo Alberto Caeiro: “Aquela senhora tem um piano / Que é agradável mas não é o correr dos rios / Nem o murmúrio que as árvores fazem… // Para que é preciso ter um piano? / O melhor é ter ouvidos / E amar a Natureza”.

Mudanças de foco, como essa, em que uma coisa se revela outra, em consonância com o pensamento de Pessoa, acontecem muitas vezes. Volta e meia elas fazem duetos em que alternam suas dicções, desvelando versos e reversos dos poemas, com as respectivas músicas da voz. Da gravação ao vivo salta-se de repente para o estúdio de áudio em que as intérpretes já estão ouvindo e avaliando o que gravaram, seja com comentários críticos e amorosos, com os rostos iluminados, com mãos e lábios em plena declamação muda. A certa altura, Cleonice dá uma aula de escansão do verso. Risadas, gargalhadas, notas de rodapé intercaladas pela especialista ao longo das leituras, correções de ritmo e repetições fazem com que a poesia, atiçada pelo jogo teatral e humorado entre as personagens da cantora e da professora, respire inteiramente livre e desengomada de convenções.

Mas aqui chego ao cerne do meu presente de Natal: a extraordinária transparência das leituras, livres também dos cacoetes expressivos com que atores costumam soterrar os poemas quando pensam realçar-lhes os conteúdos. Maria Bethânia foi se aproximando cada vez mais, ao longo da carreira, dessa depuração, o que torna ainda mais significativo e luminoso o seu encontro com Cleonice Berardinelli. Cleonice tem uma dicção cristalina, em que cada palavra esplende perfeita, com a intuição certeira da pausa em movimento, do milissegundo que fala, própria de quem sabe e sente que toda poesia se diz sobre um fundo imenso de silêncio. A intensidade das inflexões, o peso certo das sílabas e das palavras, o grão da voz, o timbre expressivo no essencial (como na extraordinária leitura do poema de “Mensagem” que fala do “mostrengo”), fazem com que a poesia surja inteligível e límpida como a água da fonte, ou como a da taça que vemos na tela, à sua frente.

Gaston Bachelard define a fala poética, no livro “O ar e os sonhos”, como “uma economia dirigida dos sopros, uma administração feliz do ar falante”. “Tais são”, diz ele, “as poesias que respiram bem”, e que atingem, com isso, a sua “verdade aérea” de palavra respirante. É só essa fluência íntima que permite ao silêncio e aos sentidos aflorar à tona da música das palavras, caso contrário eles submergem, por mais eloquente que seja o leitor. Antonio Cicero é outro que dispõe desse dom raro (como se pode ver, aliás, no DVD “Vida e verso de Carlos Drummond de Andrade”, lançado pelo IMS).

O humano, diz Bachelard, “tem necessidade de provar e de cantar para si mesmo o seu próprio devir”, e “tal é a função voluntária da poesia”. O filme “(o vento lá fora)” vai conjugando de maneira sutil e comovente o devir em Pessoa (o tempo, a lembrança, o perpétuo ser outro) com a visão das faces que vão soprando o tempo e o vento, a infância e a maturidade, o fulgor de vida dessas duas divas. A última palavra de Cleonice é quase música. E a de Bethânia é música — a canção divina de Sueli Costa sobre uma ode de Ricardo Reis. Como diz outro poeta, a poesia é um chamado, e a música, uma chama.

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