Clube de leitura Candeeiro: Souvenirs et Considérations

Um paradis perdu toujours, quand on veut,

um paradis reconquis

Ernest Renan

Souvenirs

O Candeeiro surgiu após um encontro, na virada do ano de 2018, entre cinco escritores: eu, Andreia Braz, Conrado Carlos, José de Castro e Tereza Custódio. O assunto da noite foi predominantemente literatura e em algum momento lembro de ter mencionado meu desejo de formar um clube de leitura com amigos.

Uma semana depois, contatei os quatro com a proposta. Eles toparam na hora. Criei o grupo no Whats app e iniciamos os diálogos que estruturariam o modus operandi dessa sociedade, com raízes literárias fincadas predominantemente em solo potiguar.

Passamos alguns dias animados com as ideias que surgiam. Cada uma mais interessante do que a outra. Escolhemos o nome, após cada um fazer uma lista de cinco. O mais votado, “Candeeiro”, foi o meu esposo quem sugeriu (sempre que menciono o grupo, ele lembra com orgulho de ter sido o “padrinho” do nome). Adoramos o vocábulo, porque é muito fácil relacioná-lo a luz, a iluminação e é claro, ao nordeste sertanejo, tão profícuo em fabulações.

A primeira obra escolhida foi sugestão do Conrado Carlos: Província Submersa, do macaibense Octacílio Alecrim. Livro de caráter memorialístico com narrativas magistrais, que transformam pessoas em personalidades metafisicas, tempestades em sagas, comidas típicas em banquetes celestes e divagações sobre o cotidiano em magnificas análises filosóficas de um tempo perdido (à moda de Proust).

Perfeito para marcar o início dos trabalhos de leitura. Província Submersa e Octacílio Alecrim nortearam o rumo das escolhas futuras, colocando-as em um patamar que homenageia a verdadeira literatura, aquela que arrebata o leitor, que promove desdobramentos íntimos, projeta imagens, reflexões e novas ideias.

            Voltando aos souvenirs

Candeeiro acende

Candeeiro já discutiu “Província Submersa”, de Octacílio Alecrim, e se prepara para comentar “Navegos”, de Zila Mamede.

Realizamos duas reuniões preparatórias no aconchegante apartamento da querida Tereza Custódio (onde ela, atualmente, dá os últimos arremates em seu livro “O baú de Filomena”). Nas duas ocasiões havia uma mesa farta das nossas delícias, por isso demorávamos a iniciar os trabalhos.

A poetiza e (descobri há pouco tempo) ótima contista, Gilvânia Machado, já havia sido indicada pelo poeta José de Castro e participou da segunda reunião. Na ocasião, o Zé (aquele da Marreca de Rebeca, da Cozinha da Maria Farinha, do Poemares, dos Poemas Brincantes…) sugeriu o meu nome para coordenar o grupo e o da Andreia Braz, talentosa cronista da nossa capital, revisora de textos e estudante de biblioteconomia, para nos secretariar.

A Andreia organizaria os documentos produzidos a partir das experiências compartilhadas no Clube, de forma que ficassem como memória do grupo, disponíveis para nós e para o público que desejasse ter acesso a eles.

Aceitei a missão com alegria e uma certa insegurança, tendo em vista nunca ter feito nada parecido. A Andreia também aceitou prontamente. Foi quando surgiram novos nomes para compor o grupo. Escritores incríveis, apaixonados pela palavra escrita e fortemente motivados a participar do projeto.

Foram eles: Araceli Sobreira (O espelho de Eloisa, histórias de mulheres sábias), Ceiça Fraga, Ivaíta Souza (Relembranças), Juscely Confessor, Carla Alves, Jeanne Araújo (Monte de Vênus e Corpo Vadio) e Aluízio Mathias, este último tendo realizado sua entrada, após termos decidido encerrar as inscrições.

Aluísio foi o único, até agora, a obter sua inclusão após nos encantar com um poema de sua autoria. Isso é paradigmático para ilustrar o poder que a poesia tem de sensibilizar a sociedade e mudar o status quo. Foi impossível não aprová-lo após ouvirmos a leitura de:

RESISTÊNCIA POÉTICA

O âmago da nossa existência

O ânimo da nossa

insistência

Resulta numa caminhada

de sonhos, percalços

pés descalços

Numa longa estrada,

Novo voo, nova revoada

Solar Ferreiro Torto, em Macaíba. Fotografia: Rafael Luiz.

Submersão macaibense

À essa altura, já havíamos combinado que o integrante que sugerisse a obra seria uma espécie de “guardião dela, sendo responsável por fazer uma pequena apresentação que contemplasse a biografia do autor.

No caso de Octacílio, o Conrado não pôde comparecer e eu assumi a nobre, trabalhosa e apaixonante missão de investigar a vida desse grande pensador. Entre emocionada e orgulhosa, fiz a leitura de partes de duas entrevistas concedidas à Tribuna do Norte, por dois outros expoentes das nossas letras, contemporâneos e amigos de Alecrim.

São eles: Américo de Oliveira Costa e Ivan Maciel de Andrade, que narraram momentos ímpares da vida do nosso maior especialista em Proust.

A última a entrar no grupo foi a professora Ana Catarina Fernandes, que pesquisou a obra de Zila Mamede em seu mestrado. Pensei na Ana logo após definirmos o segundo livro: Navegos, escolhido por sua grandeza, por ter sido escrito por uma mulher e por ser composto exclusivamente de poemas, o que contemplou a necessidade de alternar as estruturas textuais, a fim de experienciar a diversidade da literatura.

A nossa quarta reunião já está marcada e será a Carla Alves, professora, produtora cultural e poeta de sensibilidade aguçada para a temática feminina, a guardiã de Navegos e de Zila Mamede. Ela sugeriu o livro, portanto, ela nos guiará nessa viagem à obra da grande dama da poesia potiguar.

Considerátions

Para quem se dirige um clube de leitura? É correto afirmar que um grupo como esse, tem um fim em si mesmo. Ou seja, ele nasce para atender às expectativas dos seus integrantes, de vivenciarem novas maneiras de ler.  

A ideia é maravilhosa: convidam-se amigos, escolhe-se o nome do clube, o local e periodicidade dos encontros, combina-se o cardápio, define-se o livro, etc. Tudo muito lúdico, como um passatempo dos tempos de criança, menos suscetível aos efeitos do capitalismo, que nega o acesso a várias modalidades de lazer.

Mas um clube de leitura formado por professores e escritores naturalmente tem uma finalidade mais ampla. Naturalmente tem ambições maiores, que envolvem outras pessoas. Então, formar novos leitores foi desde sempre um objetivo deste grupo. Apoiar os professores na formação de clubes de leitura nas escolas, foi outro.

De que forma faremos isso? Através da nossa própria experiência e da elaboração de documentos que embasem essas ações. Diários contendo relatos e reflexões que os interessados podem adaptar, conforme a realidade da sua escola, comunidade, igreja (sim, igrejas também podem ter seu clube de leitura. A minha tem e funciona a todo vapor!).

Um clube de leitura tem semelhanças com outras agremiações. Existe similaridade nos perfis dos participantes: No Candeeiro há interesses em comum (literatura), faixas etárias parecidas (adultos), hábitos partilhados (leitura e escrita), formações concentradas na área humanística (história, letras, pedagogia, jornalismo, psicologia e biblioteconomia) e profissões preponderantes (onze dos catorzes integrantes exerceram ou exercem o magistério e todos escrevem).

Mas existem também diferenças. Estas, ao meu ver, são o grande trunfo das associações: os diferentes momentos de vida por que passam os integrantes, as subjetividades nas apreensões de mundo, os temperamentos, as necessidades individuais; mais do que as semelhanças, são fontes de enriquecimento para o grupo. Alimentam e ventilam os discursos, produzem amadurecimento, solidariedade e inclusão.


“Um paraíso perdido é sempre, quando você quer, um paraíso reconquistado”.

Essas diferenças que geram eventualmente discordâncias e até mesmo alguma animosidade são a matéria prima que o diálogo utiliza para produzir acordos de boa convivência. Os colóquios acolhem as diferenças, mas beneficiam menos a individualidade e mais a coletividade, conseguindo ainda assim, produzir satisfação, prazer e mudança.

Nessa perspectiva, grupos como o Candeeiro, que nos propusemos, em nome do amor à literatura criar, tem a missão de ser cânone, principalmente para as novas gerações de leitores, carentes de exemplos de conduta norteados pela interlocução, altruísmo e generosidade.

Sendo assim e tentando elaborar um primeiro rascunho das nossas pretensões, proponho abaixo os objetivos do Clube de Leitura Candeeiro:

  1. Desfrutar da paixão pela literatura dentro de um clube de leitura;
  2. Realizar diálogos que acolham a subjetividade ao mesmo tempo em que contribuam com a coletividade;
  3. Servir como modelo para a criação de outros clubes de leitura, produzindo documentos, promovendo encontros e conectando pessoas;
  4. Formar novos leitores, de várias gerações e em diferentes espaços;
  5. Promover livros e escritores, em especial os do Rio Grande do Norte.

Finalizo com a tradução da epígrafe que peguei emprestada para abrir este texto e que se encontra-transcrita na primeira página do livro Província Submersa. É uma frase do escritor francês Joseph Ernest Renan contida em seu Souvenirs d’enfance et de jeunesse.

“Um paraíso perdido é sempre, quando você quer, um paraíso reconquistado”.

Se há algo a se reconquistar para os profissionais da educação que serão beneficiados com as ações do Candeeiro e para as novas gerações de leitores, algo como o amor pela poesia, ou pelas histórias da nossa terra, ou considerar um livro como objeto de tributo; é isso o que perseguiremos, servindo como companheiros de jornada, apoiadores, lampiões, candeeiros, a iluminar as terras potiguares com a literatura vivenciada em um clube literário.

Boas leituras e ótimos encontros!

Comments

There are 2 comments for this article
  1. José de Castro 15 de Abril de 2019 13:00

    Quem senão a nossa “coordenadora”, que é além de psicóloga, é autora de romances, contos e de literatura infantil e infantojuvenil, além de ser totalmente apaixonada pela leitura e pela escrita, quem senão ela, poderia trazer um panorama tão abrangente do Clube Candeeiro de Leitura? Por tudo isso, ela nos representa nessa nobre missão de ser exemplo de autores dedicados ao nosso ofício, e que temos o desejo de que essa mesma paixão que temos seja estendida a muitos segmentos que queiram também honrar essa bandeira da leitura significativa, prazerosa que nos leva a dialogar com tantos autores de talento. Nossos momentos de vivência no Candeeiro sempre são banhados nessa luz que queremos fazer brilhar cada vez mais, instantes plenos de trocas, interlocuções, visões de mundo que se entrecruzam, diálogos fecundos, enfim, momentos de pura magia do encontro com autores e com a literatura local, nacional e com aquela que canta as diferentes aldeias do mundo. Que o Candeeiro seja essa luz que nos guia nesse caminho tão árduo de tentar fazer deste um país de leitores. Viva o livro! A biblioteca! Viva a leitura!

  2. Aluísio Azevedo Júnior 15 de Abril de 2019 14:00

    Parabéns, companheiros! Persistentes avoantes, em seus novos-voos. Que anunciem revoadas.

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