Canetti e as três realidades

Por José Castello
A LITERATURA NA POLTRONA

Apaixonados pelo cinema, pela TV e pela internet, grande parte dos jovens escritores de dedica, hoje, a construir uma espécie de “novo realismo”. Imitam, assim, os grandes autores realistas do século 19, uma época em que este já era um projeto impossível. Pois hoje ele é mais impossível ainda. Hoje? Já em 1965, o escritor Elias Canetti, em um delicado ensaio de meia-dúzia de páginas, pontava o fracasso da opção realista.

Lá se vão quase meio século! E, no entanto, sufocados pela hiperrealidade virtual, hipnotizados por uma realidade que se parece com uma prisão, os jovens escritores insistem em buscar o impossível. Já em 1965, dizia Canetti _ leio seu ensaio em “A consciência das palavras”, em edição da Companhia das Letras _, era preciso considerar que existem pelo menos três, e não apenas uma, realidade.

Fala Canetti da “realidade crescente”, da “realidade mais exata” e da “realidade do devir”. Sim, a realidade é uma construção (uma ficção) e suas possibilidades são infindáveis. Vivemos, na verdade, no interior dessas três realidades por ele propostas.

Realidade crescente: existem hoje (e ele vivia nos anos 1960!) muito mais pessoas, e também infinitamente mais coisas, do que nos tempos estáveis e fixos de Gustave Flaubert e de sua Bovary. Diz Canetti a respeito: “A ampliação de nossa realidade, sua realidade crescente, a uma aceleração para a qual não se pode antever meta alguma, é também a causa de sua confusão”. Isso, eu insisto, há cinquenta anos. E hoje?!

Realidade mais exata: vivemos hoje em uma realidade muito mais controlada pela ciência do que imaginaram autores “da objetividade” como Balzac, ou Zola. Para este, por exemplo, o romance experimental devia se apoiar em modelos fisiológicos! “A exatidão se reflete também na propensão à completude”, diz Canetti. Outra vez: na obsessão pelo Todo, obsessão guardada na raiz de toda estética realista. Desde o século 19, o realismo quer “tudo mostrar”. Hoje, se temos nossas vida devassadas pela web, esse desejo parece não só mais avassalador, como também mais perigoso.

Realidade do devir: o mundo está tão acelerado que o futuro parece grudado a nossos pés. Nós tropeçamos no futuro, já não o miramos mais. Diz Canetti a esse respeito: “O devia apresenta-se aqui de forma diferente da do passado: ele se aproxima mais despressa e é produzido de modo consciente”. Comenta, ainda, que a realidade do devir foi cindida: de um lado a aniquilação, de outro o bem-estar. Esse duplo devir é uma espécie de destino fatal a nos oprimir. “Não há ninguém que possa ignorá-lo”, Canetti escreve. Cada vez que avançamos para o progresso, avançamos também para a destruição. São as duas pernas de um mesmo monstro que, para se mover e andar, precisa de ambas, ou cai e se imobiliza. “Cada pessoa vê, ao mesmo tempo, o claro e o escuro aproximando-se numa velocidade angustiante. Pode-se afastar de um deles para observar o outro, mas ambos estão sempre aí, constantemente presentes”.

A ficção de nossos dias, portanto, se deseja ainda ser “realista”, não pode se   limitar aos grandes painéis do contemporâneo, ou aos enredos de ação e objetividade. Precisa meter as mãos nesse grande fosso escuro, e em grande parte inviolável, no qual realidade se triparte. Ou mais ainda: em que ela, hoje, cinquenta anos depois do ensaio de Canneti, ela se fragmenta. A época dos retratistas terminou. Mesmo os mais avançados equipamentos digitais não podem dar conta do mundo em que estamos metidos.

O fracasso do realismo procede de um impasse: nenhuma imagem fixa corresponde mais à realidade em que vivemos. Para dela se aproximar, somos obrigados a manipular destroços, fragmentos, precárias simulações. A realidade não cabe mais dentro de nossa idéia de realidade. Em consequência, é bem mais prudente esquecer da idéia de realidade e pensar em outra coisa. Pessoalmente, acho mais útil pensar na idéia de ficção. Ou dizendo ainda melhor: de ficções.

O século 21 exige, portanto, outra idéia de literatura. É reconfortante e belo reler os realistas do século 19, mas suas narrativas, nos dias de hoje, se assemelham aos contos de fadas. Continuamos a amá-los, eles continuam a ser apaixonantes _ mas já não nos servem como espelhos, já não dão conta do mundo em que somos obrigados a viver. Podemos pensar, no máximo, em uma grande malha de realidades (ficções), que lutam por novas posições, que se combatem, que se misturam, e nessa grande (mas rica) confusão levam nosso século a andar.

Comments

There is 1 comment for this article
  1. José de Paiva 14 de Janeiro de 2012 9:37

    ‎”Quem você pensa que é? Sou forte, fraca, generosa, egoísta, angustiada, perigosa, infantil ,astuta, aflita, serena, indecorosa, inconstante, persistente, sensata e corajosa, como é toda mulher.” (Martha Medeiros)

    Levando em consideração que essa figura é uma das que mais vendem livro hoje, será esse o realismo que o povo procura?

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP