Cangaceiros: sentimentos

Amigos e amigas:

Tenho acompanhado escritos de Lívio e outros companheiros do SP sobre cangaceiros – destaque para Lampião.
Lembro de meu pai falando do personagem, quando eu era menino. Lampião aparecia como um herói vingador, corajoso, desafiando a polícia e outras autoridades. Os olhos de meu pai brilhavam nessas lembranças, era como se Lampião fosse tudo que ele podia ter sido.

Depois, quando fiz graduação em História, li Hobsbawn (Rebeldes primitivos, Bandidos) e Maria Isaura Pereira de Queiroz (Les bandits d’honneur au Brésil – não sei se foi traduzido para o português).
Tanto nas lembranças de meu pai quanto nesses eruditos estudos, quero destacar a capacidade que Lampião e outros cangaceiros tiveram de despertar uma empatia entre largos setores da população pobre. E esse sentimento se dava em nome de uma prática de Justiça que apelava para a violência reativa. Pensar que cangaceiros eram violentos e que donos de terra mais polícia eram santas criaturas não passa de um desatino!
Lívio (poeta de grande talento, que eu prezo muito nos planos pessoal e intelectual) equipara Lampião a Hitler. Compreendo seu ato como rejeição da violência, que tanto nos faz mal. Penso, todavia, que ele precisa fazer radical abstração dos personagens para chegar à equiparação.
Hitler foi um chefe de estado que liderou matança em escala industrial. Lampião foi um chefe de bando que passou a vida fugindo da polícia e, derrotado, teve a cabeça decepada pelos vencedores e exposta em museu, junto com as cabeças de seus companheiros de bando. O governo brasileiro prometeu-lhe a patente de capitão para que perseguisse a Coluna Prestes/Costa. A promessa não foi cumprida – nem sei se teria condições legais para ser.
Os cangaceiros são personagens épicos de Glauber Rocha, José Lins do Rego, Jô de Oliveira – talvez tenham sido uma das referências indiretas para a comitiva de Diadorim e Riobaldo, em Guimarães Rosa, apesar do caráter fidalgo que esta última assumiu.
Sou contra qualquer violência, claro. Chamo a atenção dos amigos para diferentes faces da violência. Existe violência discreta e sutil – ser obrigado a tomar ônibus ou trem lotado todo dia, usar bolsa Vuitton de dois mil dólares no convívio com empregadas domésticas que trabalham mais de seis meses para terem direito àquela importância e destiná-la a todas as despesas do semestre, desprezar pessoas que nunca visitaram o Britsh Museum e tratá-las como sub-raça por esse motivo. Lembro de ter visto, junto com minha ex-mulher, um faxineiro, num shopping, olhando, fascinado e assustado, para uma vitrine de tênis importados: cada par custava muito mais que seu salário mensal e era de uma beleza provocativa mas deprimente para quem não podia tê-la a seus pés.
Fernando considera burrice os cangaceiros usarem enfeites na roupa (moedas, espelhos, vidros coloridos) que rebrilhavam no sol da caatinga e serviam de alvos perfeitos para a polícia. Pois é: cangaceiros não estudaram camuflagem nem estratégia, até parece que estavam numa guerra-magia na qual ninguém matava, ninguém morria (mas matavam e morriam e quem perdeu a cabeça para os vencedores foi o bando de Lampião: decepar a cabeça de mortos é violência ao menos desde os “Desastres de guerra”!). Dá a impressão de uma revolta sem futuro – e não teve mesmo, exceto no imaginário de quem continua a admirar aquelas criaturas como heróis tortos. E dá a impressão de uma beleza sem razão utilitária, universo do rito que se aproxima desvairadamente da poesia.
Todos nós, neste SP, somos inteligentes e cultos, alguns de nós chegam a ser brilhantes. Será que isso equivale a tratar os diferentes de nós como burros e animalescos? Será que não existem diferentes diferenças em relação ao que somos? Será que nós não somos diferentes de Lampião, por uns motivos, e diferentes de Hitler, por outros?
Fico especialmente triste com a aproximação entre Lampião e Hitler. Lampião jamais chegou ao requinte nem ao apoio (família Krupp, filósofo Heidegger, dizem até que o grande psicólogo Jung)  recebido pelo arquiteto da destruição.
Resolvi escrever estas linhas porque gosto muito de Lívio e de todos que se manifestaram sobre o assunto. Discordar de vocês não é perder os laços que me unem ao grupo. E pode ser que eu esteja errado em relação ao que vocês falam.
Abraços carinhosos.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Marcos Cavalcanti 26 de novembro de 2010 10:22

    Como é bom lê-lo Marcos. Você é crítico que pondera, reflete, relativiza e nos apresenta com muita honestidade intelectual as mais de duas faces de uma mesma moeda. Como aprendo. Na palestra do Frederico, cujo modo de falar encantou-me, afirmou ele que embora tivessem os cangaceiros que bater em retirada pelas veredas do sertão ou de se entocar para não serem achados, os seus trajes não tinham ( e conscientemente) o propósito da camuflagem, ao contrário, era uma afirmação de sua presença, impondo respeito, medo e até pavor. Impossível não dintinguir um cangaceiro de um vaqueiro, por exemplo. Com seus bornais, chapeus e outros penduricalhos, criaram uma estética inconfundível, marcante, como marcante eram as vestimentas dos samurais.
    Quanto a inteligencia em técnica de camuflagem lembraria o fato de calçarem suas sandálias ao contrário para fazer parecer que iam noutra direção. Ademais, por quantos anos não conseguiram os seus intentos, despistando a polícia e grupos armados com sagacidade os os enfrentando na base da coragem. Um abraço, meu professor.

  2. Lívio Oliveira 26 de novembro de 2010 9:46

    Caríssimo Marcossilva,

    Você é um dos poucos que congregam seriedade intelectual, bom humor pessoal, elegância verbal, inteligência e arejamento de ideias.

    Tudo o que escreve levo em conta.

    Obrigado pela análise (apesar de minhas ponderações em contrário).

    Abraço.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo