Cangaço e Nazismo

Caro Lívio,

Considero a aproximação entre nazismo e cangaço uma tremenda forçada, apesar da boa lembrança do documentário de Peter Cohen. No filme alemão, fica clara a a subordinação da estética à ideologia nazista. Tudo se articulava na construção de um plano político que se projetava no plano simbólico. Sem falar que o nazismo era um projeto de Estado.

Nada disso pode ser observado no cangaço (e olha que não estou nem próximo do que se possa considerar um estudioso sobre o assunto, que pouco me interessa). O nosso breve banditismo, mesmo que acobertado aqui e ali por pessoas de poder, era um ‘movimento’ que ia contra o Estado estabelecido, pois solapava sua autoridade. Além disso, era integrado por pessoas pobres e com pouquíssima ou nenhuma educação formal, incapazes portanto de criar – ao menos conscientemente – um sistema de bens simbólicos, uma corrente de pensamento que embasasse um movimento social – o que também não constituíam.

O que não impediu, obviamente, que se construísse uma identidade entre aqueles que fizeram o cangaço. Essa identidade surgiu na forma de organização dos grupos, num certo discurso de combate ao poder e vingança contra injustiças e, principalmente, num código bastante peculiar de indumentária.

Mas, enquanto a maioria dos estudos sobre cangaço se debruçam sobre minúcias históricas, como ‘quem fazia parte de tal bando no dia do ataque a tal cidade’ e coisas do tipo, é natural que chame a atenção um estudo que pareceria óbvio se não fosse inédito, este de Frederico Pernambucano sobre a estética do cangaço. Por sinal, um apanhado riquíssimo sobre todos os elementos que compunham a figura do cangaceiro. Além de um livro bonito pra dedéu.

O crime sempre fascinou o homem e instilou rebeldias. De onde viria o interesse pelo ciclo dos gangsteres norte-americanos, pelos cowboys fora-da-lei do Far-West, por Robin Hood e, por que não?, por Lampião e sua trupe? Tem até quem curta o maluco do Charles Mason.

Até hoje fala-se bastante do nazismo. Nesse caso, é tolerância histórica? Obviamente que não. Então, o que diabos uma coisa teria a ver com a outra? Desconfio que o poeta escorregou nos princípios da Lei do Godwin.

Jornalista, com passagem por várias redações de Natal. Atualmente trabalha na UFPB, como editor de publicações. Também é pesquisador de HQs e participa da editora Marca de Fantasia, especializada em livros sobre o tema. Publicou os livros “Moacy Cirne: Paixão e Sedução nos Quadrinhos” (Sebo Vermelho) e “Moacy Cirne: O gênio criativo dos quadrinhos” (Marsupial – reedição revista e ampliada), além de várias antologias de artigos científicos e contos literários. É pai de Helena e Ulisses. [ Ver todos os artigos ]

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