Cantares das coisas tenras

Todo mundo sabe que a felicidade não é coisa de durar para sempre. Mesmo assim, mesmo sabendo disso, tem gente que costuma se apossar da felicidade, sem considerar sua natureza de esvair-se quando bem quer. Apossar-se é possuir, mas não é ser dono. Não é ter. Você até pode se apossar de alguém ou de alguma coisa, mas ter alguma coisa ou ter alguém é bem diferente. Da coisa, inerte, você pode até ser dono. Já ser dono da pessoa, esqueça. Uma pessoa nunca é de outra pessoa, a menos que ela o queira. Para uma pessoa pertencer a outra tem de haver um ato de entrega, não de posse. Que o diga o Vinícius, no “Testamento”: dono e senhor do material?

E a felicidade não é coisa, nem pessoa, mas costuma se entranhar nas coisas e pessoas. Não é raro confundir-se a felicidade com algo palpável, mas ela não é. Dono e senhor da felicidade? Ora, nem pense nessa estultice. Viva-a (a felicidade) com pudor, sem escândalo. Isto vale para qualquer tipo de alegria: não ande com ela às escâncaras. Ela merece a reverência de um segredo.

E ainda tem o fato de que a felicidade junto de você pode ser um acinte para os outros, para os que não estiveram suficientemente receptivos quando ela eventualmente lhes quis abençoar. Porque há os que recusam a felicidade, por medo, por preconceito, por covardia. Mas não se conformam quando ela vai buscar outro pouso. A felicidade nunca ofende a quem ela mesma não quis abençoar, aos que a esperam sem defesas, mas pode ferir de morte os que recusaram um dia a sua benção. Os que se recusam a serem felizes costumam ficar ressentidos quando vislumbram a felicidade nos outros.

Não se exponha, você não tem a menor necessidade disso. E também a dor, quando houver, deve ser vivida em silêncio e, na medida do possível, solidão. Compartilhar é uma palavra que tem imensa capacidade de aconchego, mas carece de certos cuidados. A vida toda, aliás, faz bem que seja discreta. Não se deve exibir as coisas tenras, e a vida, a vida mesma, é tenra e vulnerável, frágil como um cristal. A vida está sempre em estado de nudez, e é de uma insuspeita delicadeza.

Compartilhar a sua felicidade com os outros pode significar fazê-los felizes ou infelizes e nem sempre você vai saber quando acontece uma ou outra coisa. As pessoas são muito estranhas mesmo, por isso, é preciso cuidado e intuição. Não se sabe em que medida o incômodo dos outros com o seu bem-estar pode lhe causar mal, mas, pelo sim, pelo não, é melhor resguardar-se.

Mas há as pessoas em quem se pode confiar, claro que as há. São como as bruxas, existem. Há as pessoas a quem nos podemos entregar sem medo, entregar as nossas fragilidades, sejam elas feitas de alegria ou de dor. Nesse sentido, há as pessoas a quem podemos pertencer, mas somente quem pertence pode enunciar isso. Só quem é de alguém pode dizer que o é. Pois só quem pertence a outra pessoa sabe o porquê de pertencer, só quem se doou sabe o que e o quanto de si foram doados.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo