O caos e a lucidez de Jorge Mautner

Uma visita despretensiosa e meio distraída que fiz ao FLIN (Festival Literário de Natal), onde estive perambulando na primeira e também na sua terceira e última noite, a do sábado, até então lúgubre (juro que ouvi esta palavra por lá), trouxe-me algumas alegrias, encontros, cantos, reencantos, tudo ao molho das artes literária e musical. E me trouxe a satisfação de ver e ouvir, em cena de espetáculo bem engendrado, Jorge Mautner e Ben Gil – após uma excelente e exemplar palestra de Mário Magalhães (muitíssimo bem conduzida por Vicente Serejo) sobre a biografia de Carlos Marighella. O show foi organizadamente caótico e deliciosamente sonoro, profundo sem ser cansativo como outras paragens dacolá. Ou seja: um paradoxo natural que me empolgou a alma e me fez reflexivo, de cabeça inchada.

Histórias e estórias numa confusão fantástica, com “neurônios saltitantes/pululantes” e uma plateia que foi se animando e se tomando de perplexidade em meio ao turbilhão de ideias lançadas, tanto nas falas pra lá de curiosas de Mautner, transbordantes de caldo cultural, quanto na rememoração de petardos musicais que compõem o cancioneiro do artista plural. Sem o saudoso Nelson Jacobina, Mautner se mostra sentimental e romântico e lúdico e lúcido, prevendo o passado e rememorando o futuro a toda hora, com Ben Gil bem ali, ao alcance do arco do violino.

O violão competente de Ben Gil colaborou com um show de alta voltagem e qualidade. A voz de Mautner estava ótima e ele caprichou nas modulações melodiosas, teve tiradas de altíssimo bom humor e paradas estratégicas para a contemplação melancólica, inserindo o público no seu mundo interior e na sua navegação fantástica por entre entes psíquicos e realísticos, filosofias, pensamento vário e livre.

De Jesus Cristo de Nazaré a Einstein; de Marx a Cartola; do Cururu ao Vampiro; de Caetano a Chico Science e ao Papa Francisco 1º; da Europa friorenta da perseguição e holocausto nazistas aos sertões baianos de Antônio Conselheiro e de Glauber, tudo cabia e tudo coube sob a tenda branquinha da Praça Augusto Severo, lá onde o público privilegiado, o exigente e o exigível, pôde dispor de uma cena generosa que, por quase duas horas, transformou a realidade em volta, subvertendo a ordem racionalista e mostrando que há, sim, uma ou muitas maneiras de se pensar, agir, falar, fora de uma lógica maquiada, borrifada por perfumes sem graça e sem força espiritual e animadora.

A palavra de Mautner tem força e poder. A palavra falada e a palavra cantada e emoldurada pelos acordes do seu violino/rabeca e do violão fluente e leve de Ben Gil. A noite se tornou mágica, a magia sem limites e sem cabrestos. Olhar para o palco e ver Mautner aos pra-lá-de-setentanos cultivando os olhos europeus, as pernas e braços digeridos por índios brasileiríssimos antropófagos, a africanidade dos dentes que se abrem brancos para deixar passar a língua portuguesa multicor e ornada de sentidos vários, faz com que repensemos essa vida besta que levamos no burocratizante cotidiano dos nossos pés que seguem, vez por outra, as manadas malhadas de um tempo que alguns sequer identificam ser o epicentro do caos instalado no espelho. Das várias canções especulativas que entoou ficou o gostinho azedim e doceagridoce de todas. Dentre elas: “O Vampiro”, “Eu não peço desculpas”, “Lágrimas Negras” e o inevitabilíssimo “Maracatu Atômico”. Mautner, saindo do kaos para o pré-caos-natais, veio mesmo foi para nos organizar, para nos deixar mais lúcidos. Sempre venha, Jorge, porque deu “liga”. Ou “amálgama”, como queira. E “nasceu uma criança entre nós”.

 

livioliveira@yahoo.com.br

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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