Capar os pobres? Os fraudários legislativos

Salim Curiati, deputado estadual paulista, teve a casa assaltada. Revoltado com o ocorrido (dor pela perda de algumas propriedades, agravada pela agressão a pessoas que ali se encontravam), denunciou o programa Bolsa Família, que considera estímulo a mais filhos de pobres (gente alimentada sente mais tesão, até se reproduz mais), e sugeriu controle de natalidade nesse setor da população como forma de minorar a violência que sofreu.

Curiati é médico, tem mais de 80 anos (não é jovem imaturo, portanto), foi deputado repetidas vezes. Seu raciocínio é: assaltos existem motivados pela pobreza minimamente amparada e pelo crescimento numérico desse setor da população. Enfrentar a pobreza com políticas distributivas, nem pensar! A solução proposta é controlar os pobres, inclusive sua genitália – os ventres da pobreza andam muito assanhados, essa gente nem usa camisinha e outros métodos anti-concepcionais!

Parece que Curiati nunca ouviu falar em ladrões ricos e de classe média (tem deputado que é cego e portanto nunca usa espelho – não o acuso de roubar e sim de não ver seu meio social), ladrões que usam camisinha ou se esterilizam voluntariamente para evitarem paternidade ou maternidade indesejada, deputados e deputadas que, zelosos pais e mães, garantem fraudários nas casas legislativas enquanto pretendem impedir os pobres de terem filhos.
Deputados deveriam ser obrigados a reciclagem para não falarem bobagens gritantes, para manterem o índice da bobeira parlamentar em níveis toleráveis. Junto com o Bolsa Família, o governo precisaria criar um Mobral Deputado, sem ofensa a outros analfabetos. E ainda reclamam de Tiririca!
Generosamente, Curiati declara não defender o corte das mãos de ladrões, como é feito em alguns países do mundo. Denunciando a abusiva fertilidade dos pobres assistidos pelo Bolsa Família, dá a impressão de que Curiati preferiria decepar outro membro do corpo alheio ou, ao menos, a bolsa que o acompanha: Bolsa anti-bolsa. Os pobres são vistos pelo parlamentar como animais domésticos – capados não atrapalham ou atrapalham menos.
Sugiro três encaminhamentos para o deputado:

1) Aposentadoria imediata seguida de silêncio obsequioso para poupar a população de ouvir suas tolices.

2) Maior investimento em segurança pessoal, usando recursos próprios: ser rico ou de classe média tem seu preço.

3) Estágio na pobreza (Bolsa-fome). Dificilmente, ele mudaria de atitude (v. o livro “A sopa dos ricos”, de Santos Fernando, que transforma a pobreza em atração turística para maior ódio dos endinheirados que dela podem desfrutar nas férias, com a supervisão de um ex-oficial nazista). Mas passaria a falar asneiras com maior consciência de mentir.

O velho Descartes escreveu sobre a abundância do bom-senso, do ponto de vista de quem invoca ser seu portador: todo mundo supõe ter bom-senso. Mesmo um grande clássico esquece de apontar desdobramentos de suas conclusões: Curiati ajuda os cartesianos a entenderem a abundância da cretinice entre pessoas de diferentes setores da sociedade, incluindo elites letradas, poliglotas, diplomadas…

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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