Capote vivo e atual

O jornalista Carlos de Sousa, disse recentemente no blog Substantivo Plural que para ele era mais importante alguém ser um leitor do que mesmo escrever. Confesso que a frase me surpreendeu, ainda mais sendo ele jornalista cujo oficio maior é escrever, e só aos poucos fui absorvendo o sentido da frase, e reconheço agora que a afirmação de fato faz um sentido imenso. E acrescento: há livros que lemos e temos que voltar ler outra vez; há livros que lemos e uma vez basta e ainda há livros que começamos e deixamos de lado sem terminar, não fazendo falta alguma. No primeiro caso, posso citar o livro do romancista americano Truman Capote chamado “A sangue frio”. O livro se tornou um best-seller quando foi lançado em 1966 nos Estados Unidos e transformou Capote além de milionário em uma espécie de mito. O livro traduzido no Brasil tem um dos mais belos prefácios que eu conheço escrito pelo também jornalista, Ivan Lessa que hoje mora em Londres.

Mas por que estou mencionando o livro de Capote? Por diversos motivos. Primeiro, como indicação. Segundo para dizer que acho impossível um livro como este ser escrito no Brasil. O livro recompõe a história verídica do brutal assassinato ocorrido numa pequena cidade do Kansas, Holcomb, localizada no sul dos Estados Unidos, dos quatro membros da família Clutter, Herbet, o pai, Bonnie, a mãe e dois filhos (Nancy e Kenyon). Os assassinos invadiram a casa da família Clutter na madrugada de 15 de novembro de 1959, amarrando, amordaçando e baleando na cabeça com tiros de espingardas as quatro vitimas. Após serem presos em Las Vegas, foram julgados e enforcados em 1965. Mas repito? Por que estou mencionando o livro?

O livro é magistralmente escrito. E Capote um fenômeno como escritor. Um dia depois do crime, o assassinato mereceu uma pequena nota no jornal The New York Times, que não passou incólume aos olhos do atento Capote. Ao se deparar com a nota, de imediato fez as malas e rumou para a cidade “escondida” dos grandes centros e dos burburinhos de Nova York onde residia. O interessante é que quando Capote decidiu viajar ainda não se sabia nada dos assassinos, nem mesmo se era um, dois ou mais, os assaltantes.

“A sangue frio” se tornou um fenômeno de vendas. E mais: depois de lançado, o livro criou um novo gênero chamado de “romance de não ficção” ou de livro-reportagem, porque tinha um caráter jornalístico (Capote nunca foi um verdadeiro jornalista, registre-se) já que se tratava de um fato real, mas narrado artisticamente, como se fosse uma ficção. Trechos do livro foram lançados antes do lançamento oficial em livro, na revista na revista The New Yorker em quatro edições que bateram recordes de tiragem.

No livro Capote conta com detalhes todo o desenrolar que culminou na morte dos Clutter, até o desfecho final com a morte por enforcamento dos assassinos. Ele contrapõe, como ele mesmo chamou, os dois mundos dentro dos Estados Unidos. O mundo puritano, radicalmente moral, conservador e o mundo miserável e cheio de violência constante.

Mas por que estou citando o livro? Recentemente escrevi um artigo indagando do porque de não sermos (o Brasil) um país moral. E perguntava qual a diferença entre um ladrão que assalta Bancos, casas, rouba galinhas, do ladrão de colarinho branco que rouba milhões da população e continua freqüentando as paginas das colunas sociais, não dando absolutamente nada para eles.

No livro de Capote entre outras mensagens (para quem se der ao trabalho de adentrar na sua leitura) ele permite esse tipo de reflexão. Aliás, tem duas cenas durante o julgamento de Dick Hickock e Perry Smith (os dois assassinos) que é quando Perry Smith (o mais inteligente dos dois) diz que “todos os crimes só são variedades de roubo, inclusive o assassinato”. Ou ainda olhando para a platéia, indaga, “Esses caipiras daqui vão votar pelo enforcamento muito depressa, feito porcos indo comer a lavagem. Basta ver os olhos dele. Como se eu fosse o único assassino presente no Tribunal”.

Por que estou citando o livro? Resposta: olhando a corrupção e os roubos dos colarinhos brancos no Brasil não há como indagar como Perry: porque aqui só ladrão de galinha e de Bancos são considerados assassinos? É perturbador? Pode ser em se tratando de Brasil, mas que merece uma reflexão, ah, isso merece. A leitura é fundamental. Carlão tem razão. E Capote continua vivo e atual.

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