Caracol

caracol
(Quadro “Caracol”, de Maria Elena Villareal Figueroa).

Mas agora tenho andado
Por entre as folhas secas
Do meu pensamento
Assim como musgo
Recolhida no esconderijo
Da minha alma.
Agora, assim como aquele pássaro
Que se perdeu na noite fria,
Ando quieta e sem canto,
Dentro do meu desencanto
As canções, as notas,
São como o assovio de um vento
Ao longe…
Sou como a canção da lagoa deserta,
Sou como o beija-flor
Que não encontra o néctar.
Agora assim, como um caracol,
Tenho me enroscado
Cada vez mais dentro da concha
E de lá não saio.
De lá, só escuto o silêncio
Que de espaço vazio, ocupo.
Mas agora, que o dia desmaia
E o Sol silencioso se despede
Sou como aquela prece que ninguém
Pode escutar.
Sou como o canto triste daquele sabiá
Que aguarda a primavera e se veste
De esperanças marrons.
Antes das flores, tudo parece triste.
Tudo é como tudo está:
Quieto e sem cores.
Tudo deserto
De sorrisos e sem flores.
Sou como a pomba
Que se escondeu na laranjeira,
Sou como a orquídea
Que não mais brotou
E ali quieta, permaneci e estou.
Sou como as janelas que nas manhãs
Não mais se abrem para entrar o Sol.
Sou o espinho da rosa,
Tenho o peito sangrando;
As mãos erguidas
E o olhar sem luz.
A desesperança, a saudade, a tarde fria,
Os morros silenciosos, os versos perdidos
… E a vida.

Comentários

Há 7 comentários para esta postagem
  1. Anchieta Rolim 6 de setembro de 2013 20:11

    Ednar, toda alma é pequena perto desse poema. Parabéns, minha amiga!

  2. Ednar Andrade 3 de setembro de 2013 17:52

    Querido, Da Mata.

    Para evidenciar melhor a salamandra que te inspirou o comentário, direi a ti que:

    “Aprendi com a primavera; a deixar-me cortar e voltar sempre inteira”
    (Cecília Meirelles).

    Como te disse anteriormente:

    Sim. Meus silêncios são barulhentos, silêncios que gritam.

    Agradecida pelo carinhoso comentário.

  3. Ednar Andrade 3 de setembro de 2013 17:45

    Sim, querido. No inverno que antecede a primavera, na alma do poeta:

    “Antes das flores, tudo parece triste.
    Tudo é como tudo está:
    Quieto e sem cores.

    Beijos, querido Olavo, querido poeta.

  4. Ednar Andrade 3 de setembro de 2013 17:42

    Querido, Marcos.

    Obrigada pela análise tão carinhosa, por tua crítica sempre estimulante e construtiva.

    Gosto de ficar na mira do teu olhar crítico e sábio. É quase como disse Chico Buarque: “”Acho uma delícia quando você esquece os olhos em cima dos meus” poemas (Rsrsrs).

    Agradecida, querido.

    Concordo contigo, é forte. É forte porque é forte quando transponho para o papel e falo de correnteza e caracol, e falo de rio e riso. É tudo sempre sentido e verdadeiro, talvez por isso, a tua sensibilidade capta tão bem meus esconderijos de poeta e meus silêncios de caracol.

    Beijos, querido, não demores. Rsrs.

  5. DAMATA 3 de setembro de 2013 15:17

    Esse silencio reflexivo é necessário. Ele grita . E qual uma salamandra ressurge bela. Abraços querida amiga. sds

  6. Olavo Saldanha 2 de setembro de 2013 21:35

    É porque “Antes das flores, tudo parece triste”. Poetisa, abraços.

  7. Marcos Silva 2 de setembro de 2013 20:26

    Ednar:

    Os seis versos iniciais são fortes. Penso que o poema diminui esse traço em seguida. Considero uma conquista escrever UM verso forte. Resta batalhar por mais outros.
    Mando depois uns versos velhos (1974) com o título “Caracol pirado”.
    Beijos.

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