Carl Sagan

Por Tony Bellotto

No hotel em Ipatinga após o show fiz aquelas coisas que todo o roqueiro faz num hotel: fui ao banheiro, escovei os dentes e deitei. A coisa mais excitante num raio de vários metros era um livro de ensaios de Truman Capote largado sobre a cama (desconsiderando a tradicional Bíblia Sagrada na gaveta). Sim, não acredite em todas as histórias glamurosas que você ouve sobre roqueiros em hotéis. Quero dizer, roqueiros de 50 anos: aqueles que não têm mais tanto gás pra comburir. Ou lenha pra queimar. Não em hotéis, pelo menos. Bem, continuando: depois de deitar, claro, a insônia. E a falta de saco pra encarar o Capote.

Zapeando a TV como quem masca um chiclete, dei de cara com Carl Sagan num canal educativo. Grande Sagan! Fazia tempo que não o via, ou lia, ou mesmo pensava nele, e me deparando de repente na TV com um dos episódios da antiga série Cosmos – série de TV sobre ciências baseada num livro de Sagan, apresentada por ele mesmo, e que fez muito sucesso no início dos anos 80 – me toquei de sua grande importância na formação de mentes como a minha, leigos que se interessam por Ciência (muito mais importante, na minha imodesta e ilimitada – talvez equivocada – visão, que Política ou Religião, por exemplo, embora menos importante que a Arte) e pelas questões filosóficas que ela suscita.

Carl Sagan, pra mim, é um cara tão fundamental quanto o Chico Xavier para um espírita. Ou o Jaime Oliver para um aficionado em programas de culinária. E nem preciso dizer que entre os três, Chico Xavier, Jaime Oliver e Carl Sagan, o Sagan ocupa o primeiro lugar no pódio (o segundo é do Jaime Oliver, perdoem-me os espíritas). É claro que se Jimmi Hendrix estivesse na lista, Chico Xavier sequer subiria ao pódio. Sou muito provocativo, não? Desculpem, é algo que não controlo, esses impulsos a que chamamos a “natureza” de cada um.

Mas Sagan não era assim, provocativo como eu. Nem leviano (isso mesmo: leviano como eu). Nem se metia a falar de assuntos que não conhecia direito. Pelo contrário. Cientista e astrônomo respeitadíssimo, além de popularizar conceitos científicos para o público leigo (como em Cosmos), Sagan foi consultor da NASA desde os anos 50, trabalhou com astronautas do projeto Apollo e chefiou os projetos Mariner e Viking, pioneiros na exploração do sistema solar, além de participar das missões Voyager e Galileu (obrigado, Wikipédia). E escreveu muitos livros, ficção científica inclusive. Vários de seus trabalhos trataram de “iluminar” as mentes pela Ciência, prevenindo e alertando os leitores contra os perigos da visão mistificadora e reducionista dos discursos religiosos, e suas pseudo-explicações para fenômenos científicos. Mas havia alguma espiritualidade latente nele, muito própria e particular, que pode ser conferida no livro Variedades da experiência científica: Uma visão pessoal da busca por Deus.

Não fosse essa “espiritualidade científica” (chama-la-ei assim, na falta de uma definição melhor), talvez Sagan não tivesse buscado, pela vida toda, encontrar indícios de vida inteligente fora do planeta Terra, algo em que ele acreditava como uma possibilidade matemática. Nos dias de hoje, em que vida inteligente mal pode ser encontrada no próprio planeta Terra, e em que a boçalidade e a ignorância grassam soberanas – sem contar os acontecimentos corriqueiros, catástrofes climáticas, atentados terroristas, Big Brother etc -, valeu a pena me deparar casualmente com Carl Sagan na TV do hotel em Ipatinga. O que prova que, pelo menos, já houve vida inteligente por aqui.

Uma lida em qualquer dos livros de Sagan nunca será tempo perdido.

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