Carlos Alexandre vive “porque o mundo é moderno”

Por Lívio Oliveira

– Redondinho! Redondinho! Tocante! Tocante!

Foi assim que defini – logo ao sair do auditório da Escola de Música da UFRN no domingo passado – o espetáculo vocal/teatral “O Homem da Feiticeira”, baseado na biografia homônima escrita pelo jornalista Rafael Duarte e publicada pela Caravela Selo Editorial (já na sua segunda edição, lançada durante os dois dias de apresentação do show). O irreverente e performático grupo vocal Acorde (vozes masculinas), um dos ótimos frutos gerados na EMUFRN, mandou muitíssimo bem na bela e quente noite, cumprindo à risca o roteiro ricamente engendrado, produzindo resultados visuais e auditivos agradáveis e permeados por profundas emoções.

A homenagem ao maior artista popular e cantor romântico/brega do Rio Grande do Norte se fez de maneira cativante, comovente, com uma plateia embevecida a cada um dos momentos vigorosos do show. E foram muitos os aprendizados e impressões, começando pela constatação de que o preconceito contra as formas populares de arte pode, sim, ser quebrado, permitindo-se um encontro de tal jaez, dentro de uma entidade que produz alto conhecimento científico e erudições, como é a nossa sempre surpreendente e elogiável Universidade Federal do Rio Grande do Norte. A compreensão dessa realidade harmônica e respeitosa, em resgate ao sentimento popular e ao seu conteúdo íntimo, culminou por se empreender naquele centro de saber – a princípio, um campo de defesa do “erudito” – entrosamento que fez entender bem direitinho porque a UFRN está em contínuo, seguro e firme crescimento quantitativo e qualitativo há algumas décadas, garantindo lugar de liderança no Nordeste.

Esse artista especial homenageado, Carlos Alexandre, nascido Pedro Soares Bezerra, merece mesmo atenção e estudo sobre o seu papel na história cultural do érre-ene e do Brasil. Seduziu massas, multidões, destacadamente o público feminino, entre o final dos anos 70 e a década quase completa dos 80, até a sua trágica morte em 30 de janeiro de 1989 entre os municípios de Tangará e Campestre. E até hoje a sua obra gravada continua sendo fundo musical para eventos coletivos e manifestações individuais de fossa ou ultra romantismo de todas as classes sociais, em quintais ou salões dos arrabaldes ou nos churrascos e karaokês das casas luxuosas incrustadas nos pedaços de terras e brancas areias das mais caras (em todos os sentidos) praias potiguares. Quem aqui nunca cantou “Ciganinha” ou “Feiticeira” ou “Arma de Vingança” entornando uma caninha, cerveja ou whisky bom ou vagabundo? Diga aí, se for homem…

O ponto de partida desse resgate mais que oportuno, sejamos justos, foi a competente elaboração do percurso biográfico de Carlos Alexandre por Rafael Duarte. O seu livro de fôlego “O Homem da Feiticeira” já se constitui num marco do gênero em nosso Estado. Um modelo de acerto na forma, no estilo, no conteúdo. O livro é rico em elementos biográficos, documentais, iconográficos, analíticos, interpretativos da história, no entorno e no centro dos acontecimentos vivenciados no Estado e no país daquele tempo. Certamente, atingirá outras latitudes neste Brasil bregoso, que tem muitos (e muitas, claro!) fãs do carismático cantor espalhados por todos os recantos. Sou um deles.

O livro e o show se casaram de forma perfeita. Ter me embrenhado por entre as páginas da obra escrita, onde descobri a importância da “Feiticeira” Solange na vida do biografado, e depois ver essa mulher especial surgindo no palco da Escola de Música da UFRN, ao final do espetáculo do Acorde, acompanhada do filho Carlos Alexandre Júnior, foi algo revelador e apoteótico. Foi a mais perfeita síntese entre as culturas popular e erudita, fazendo-nos todos entender que as coisas do coração apaixonado também têm valor cultural, artístico, somente dependendo do bom olhar e do competente, honesto e adequado tratamento.

No espetáculo, gostei de tudo: figurino sóbrio entre preto e branco, branco e preto, preto e preto, aqueles paletós sem gravata ao estilo carlos-alexandrino, com lenços em vermelho; o fundo escuro, contando com uma iluminação deslumbrante, com cores primárias, ocasionando contraste equilibrado; os cantores, em atuação performática solta, leve, convicta, vibrante, com vozes adequadas e destacadas acertadamente a cada um dos instantes musicais; um grupo instrumental de apoio pra lá de competente e afinado; a sequência musical, com diálogos atualizados com os contemporâneos (Pablo, por exemplo) ou com ícones da época (Sidney Magal, com a sua outra cigana, a Sandra Rosa Madalena); aquela leitura das cartas altamente comoventes, fazendo chorar; as direções acertadas; enfim, tudo muito bem pensado, articulado, executado. Dentre vários pontos altos, o meu preferido foi a execução de “Queria eu”, meio ao estilo italiano dos 50’s/60’s. Lembrei muito de “Al di la” (Emilio Pericoli) em “O Candelabro Italiano”.

Afirmo que é um espetáculo que merece ser encenado e visto novamente (vai ter tournée?), assim como o livro merece releitura frequente. É porque aquela frase de Carlos Alexandre na sua ótima canção “Agora vá pra cadeia” continua ressoando: “Porque o mundo é moderno”. A frase até parece deslocada ou sem sentido e lógica, mas só para quem não quer perceber a sua alta filosofia. O que posso garantir é que tem sentido profundo, sim. Cada vez maior. Ainda mais quando se constata, dentro do sagrado espaço da UFRN, que Carlos Alexandre está vivo em meio ao seu povo. E isso explica tudo.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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