Carmen Vasconcelos fala sobre “Uma noite entre mil”

No próximo dia 10 de março, a partir das 18 horas, no Clube de Radioamadores de Natal, a escritora Carmen Vasconcelos lançará o seu primeiro livro de crônicas, “Uma noite entre mil”. Autora de três livros de poesia, “Chuva ácida” (2000), “Destempo” (2002) e “O caos no corpo” (2010), que a inserem de forma clara no cânone poético potiguar, Carmen foi saudada com entusiasmo em sua estreia poética, no ano 2000, por ninguém menos que o poeta Luís Carlos Guimarães.”Uma noite entre mil” reúne 136 textos publicados na Tribuna do Norte e neste Substantivo Plural. Na entrevista abaixo, feita por e-mail, num tom entre coloquial e carinhoso, em vista da amizade que nos une há tantos anos, a escritora responde sobre sua nova obra. Mas não apenas sobre isso, ao falar de “Uma noite entre mil” aborda questões relacionadas ao fazer literário e à literatura. Eu me deleitei com as respostas e acho que vocês também irão gostar.

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Você começou sua trajetória literária como poeta. Como foi a migração para a crônica? Fácil, complicada?
Essa sua pergunta me pegou. Acredito que muitos dos textos presentes no livro não são crônicas, no sentido técnico. Eu não diria que sou cronista, mas às vezes calha de eu escrever uma crônica. Ou um artigo. Aqui há uma seleção de crônicas, mas também há textos de opinião e até contos. Quero crer que alguns textos são prosa poética, pois isso é o que eu queria fazer quando comecei a escrever em prosa. Você diz que comecei minha trajetória na poesia. Quero crer que continuo aí mesmo. Minha pretensão é de experimentar na prosa alguns recursos estilísticos que são mais usados em verso. Não digo que é fácil, pois sempre há o risco de se perder a medida. Muitas pessoas não gostam de versos, outros dizem não entendê-los. Poemas têm poucos leitores. Para mim, ao publicar em um jornal, estou divulgando meus versos, ainda que por textos cuja forma não seja a de poemas.

Como é o seu processo criativo com relação à crônica, de onde vêm seus temas e assuntos?
O processo criativo é contínuo, no sentido de querer descobrir nas palavras um modo de olhar o mundo. Descobrir, pela linguagem, imagens que possam ser a minha tradução dos acontecimentos, das paisagens, ou a minha reação a produções artísticas diversas. Mesmo durante bloqueios criativos, essas buscas não cessam.  Quanto a temas, eu falo daquilo que me pode maravilhar e também do que me angustia no mundo. E recorro muito à memória, ela mesma uma fonte de maravilhas e angústias. Bem, eu concordo com Jorge Luis Borges quando ele diz que o escritor tem certas obsessões. Penso que a minha primeira obsessão é a reverência à arte. Isso aparece nos meus escritos em verso e prosa. Converso muito com os meus ídolos, assumo essa adoração com muito prazer. Sou uma adepta da intertextualidade. O texto em prosa é mais permeável à intertextualidade do que o poema. Mais permissivo, eu diria. E, no caso da crônica, penso que é um tipo de texto ideal para a citação de poemas, músicas, filmes… E por aí vai.

Quando começou a escrever as crônicas pensou na possibilidade de reuni-las em livro? Com surgiu da publicação?
Sempre pensei em reunir os meus textos em livro. Era um desejo antigo, desde quando comecei a escrevê-los. Minha vontade era a de que eles o merecessem. Embora eu não possa julgá-los, pois estou demasiado perto deles, botei na cabeça que estes que reuni em ‘Uma noite entre mil’ mereciam estar em um livro, que talvez ainda seja lido daqui a algum tempo. Desde que comecei a escrever, instalou-se em mim um conflito entre a vontade de publicar e a racionalidade de saber que nem tudo merece ser publicado. Há pouco tempo me deparei com uma frase que define essa minha contradição. É do crítico literário João Cezar de Castro Rocha, numa entrevista à revista Continente. Ele diz: “há os que publicam muito mais do que escrevem”. Sou acossada por essa angústia, pela incerteza sobre as publicações que perpetro. Sempre fui.

O que aproxima e afasta esse dois gêneros? Sentiu alguma dificuldade no início para escrever as crônicas?
Outra pergunta que me pegou. Só posso respondê-la referindo-me unicamente a meus textos, pois eles têm a pretensão de não se afastar muito da linguagem poética, das imagens, metáforas e simbologias que, penso eu, são a chave para a decifração e compreensão dos acontecimentos. Então, unicamente pensando em como escrevo, os textos em prosa e verso afastam-se entre si pela forma, somente. Octavio Paz disse, em um livro com poemas em prosa e em verso, que eram os escritos que mandavam no gênero no qual se materializariam. Assim, ora eles estavam sendo escritos em prosa e subitamente começavam a dançar, virando versos; ora ele queria versos e esses desmaiavam em frases. No meu livro, há alguns textos que nasceram de poemas. Mas os poemas que os originaram não deixaram de existir e foram publicados no meu livro de poemas ‘O caos no corpo’. Há, portanto, alguns temas que foram publicados em duas formas. Outros começaram poemas e depois resolveram virar prosa. Dificuldades para escrever, sempre há: o perfeccionismo sucumbindo diante da impossibilidade, o desejo infinito de encontrar a exatidão no redemoinho da linguagem… Mas também existem momentos de êxtase: dar um texto por acabado, embora acreditando que ele é sempre provisório, sempre pedinte de melhorias… Entregá-lo ao mundo, apesar de achar que há palavras ainda imaturas, carentes de mutação… Escrever é um exercício constante de descoberta dos próprios limites. Dói, mas é bom. E haja Masoch.

As crônicas estão enfeixadas em três partes. Como você chegou a essa divisão e qual foi o critério de seleção dos textos?
Foi o seguinte: o que eu acredito que está mais para crônica, eu pus na primeira parte, que intitulei ‘Na hora do lusco-fusco’. Por isso a expressão ‘escritos crônicos sobre a vida’ entre parênteses. Eu brinquei com dois significados que podem ser atribuídos à palavra crônica. Os nomes das três partes do livro são simbólicos (como vê, até aí eu recorri à linguagem poética). Na segunda parte, eu quis colocar textos que estivessem mais cheios de intertextualidades, por isso chamei ‘Estados de aura (sob a incandescência da arte)’. Na terceira parte, ‘No meio dos fogos-fátuos (agudos poéticos)’, coloquei textos que aspiram a ser prosa poética. Mas, atente para a presença aí dos fogos-fátuos, como uma ironia, um divertimento. Pois também brinquei com os significados que podem ser atribuídos aos fogos-fátuos. Procuro rir de mim mesma, pois sigo firme com a crença de que rir (de si mesmo) é o melhor remédio. Por fim, quanto aos critérios de escolha para a colocação dos textos em cada divisão, isso aí é subjetivo. Qualquer um que lesse os meus textos poderia dizer qual divisão ficaria mais adequada para cada um. Estas são as minhas três listas.

Na apresentação você diz que fala de “brevidades”. O que o leitor pode esperar dessas “brevidades”?
Sempre tive vontade de escrever um romance e certeza que não daria conta de tal empreitada. Escrevo pedaços. De quê? De tempo (outra obsessão minha). Falo de brevidades como se falasse de fragmentos. Como se falasse de peças de um quebra-cabeças que não pretendo ver montado. Neste livro, não vejo coesão, nem integração. Cada um que disponha do que lhe for aprazível ou, se calhar, necessário. Veja, eu publiquei um livro que se chama ‘Destempo’. Aquilo que está fora de hora, inoportuno. Foi isso o que pensei quando escolhi o título. Mas posso enxergar aí também um estar fora do tempo da vida (quando não serei, nem o tempo terá sido, como na letra de Caetano Veloso). Todos estamos dentro do tempo apenas por uma brevidade. As brevidades são a maneira de o tempo nos fazer vulneráveis. No meu caso, as minhas brevidades acabam virando escritos.

O livro abre com epígrafes de poetas que lhe são caros, Eugenio Montale e Octavio Paz, com referências “à noite”, palavra que está no título, inclusive a ilustração da capa remete ao período noturno. Por quê?
Isso aí é resultado da minha paixão pelas metáforas. O título do livro alude, como também o faz o poema de Montale, às ‘Mil e uma noites’. Sherazade contava histórias e, para se manter viva, nunca as concluía na mesma noite. Havia, portanto, nessas mil e uma noites, também alguma correspondência com fragmentos, com brevidades, embora as histórias acabassem por ser concluídas nas noites seguintes. A noite está no imaginário coletivo como o período no qual ocorrem coisas tenebrosas (Oscar Wilde aludiu, em “O retrato de Dorian Gray, às ‘horas góticas’ da noite), mas também como um período de criatividade, pelo silêncio a ela associado (em nossos tempos, não temos mais noites tão silenciosas). Mas era também à noite que acontecia o sabá das bruxas, quando as mulheres trocavam suas experiências e saberes, por isso também associo a noite à liberdade. Quando criança, era à noite que eu ouvia histórias (para dormir, ou para arregalar os olhos com aquelas de assombração). Enfim, foram muitos os motivos que me levaram a homenagear a noite no título do livro.

Pretende continuar escrevendo crônica, retornar à poesia ou seguir outro rumo literário?
Só o destino sabe. E o destino, meu caro, é o acaso turrão que não será abolido por um afogueado lance de dados, como diria Mallarmé.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. thiago gonzaga 1 de março de 2016 10:31

    Parabens, Carmen Vasconcelos.
    Estarei lá, dia 10.
    Sim, e parabéns ao Tácito Costa pela entrevista. Muito legal.
    Mais um “documento” do escritor para o futuro.

  2. Tião Carneiro 29 de fevereiro de 2016 13:25

    Que chegue logo a NOITE do dia dez. E dez para a entrevista.

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