Carnaval natalense na mão de agiotas


Orçamento baixo obriga escolas de samba tomarem empréstimo de agiotas para manter o desfile carnavalesco

Representantes das agremiações carnavalescas e tribos de índio de Natal estiveram reunidas ontem à noite na Capitania das Artes para definirem o orçamento do desfile este ano. O pedido inicial foi de R$ 24 mil às escolas do Grupo A. Em entrevista com o presidente da Funcarte esta semana no programa Super Show, na Rádio Clube AM, Rodrigues Neto afirmou que a proposta oferecida pela prefeitura será de R$ 15 mil. “Se o valor for este mesmo haverá uma grita geral da galera”, afirmou o presidente da Liga Independente das Agremiações Carnavalescas de Natal e Grande Natal, Zacarias Anselmo.

O valor proposto por Rodrigues Neto é maior do que os R$ 12 mil oferecidos ano passado pela prefeitura. À época, o carnaval sofreu corte de 50% do orçamento devido à crise financeira internacional. Segundo informações do então chefe do setor de Eventos e Projetos Especiais, Castelo Casado, as escolas ficaram de fora da redução e mantiveram o mesmo orçamento definido na gestão municipal anterior. Independente dos R$ 12 mil, R$ 15 mil ou até R$ 24 mil, o dinheiro é insuficiente para cobrir custos e oferecer estrutura adequada às escolas de samba.

Fontes seguras afirmam que a situação de precariedade vivida pelas agremiações tem obrigado muitas a requerem empréstimos financeiros a agiotas. As dívidas acumulam a cada ano. “O desfile das escolas acabou em outros estados pelo mesmo motivo. No próprio Rio de Janeiro escolas de samba precisaram se reestruturar para escaparem da dependência aos bicheiros, sob ameaça de serem fechadas pela ação policial. A coisa aqui uma hora vai estourar”, disse a fonte. Zacarias Anselmo preferiu não opinar a respeito da afirmação, mas ressaltou as dificuldades enfrentadas a cada ano pelo setor.

“Todo ano é a mesma coisa. Falta espaço próprio para montagem das alas e dos ensaios; falta dinheiro para estruturar um desfile bacana; e para remunerar os envolvidos de forma digna”. Zacarias disse ainda que as escolas trabalham apenas nos meses que antecedem o carnaval. Os músicos, costureiras, artistas, precisam de outros empregos para se manterem. As agremiações maiores – Malandros do Samba e Balanço do Morro – iniciam a montagem dos carros alegóricos em julho. Também no período correm atrás do patrocínio, dado sob a troca de favores na homenagem do samba enredo.

Zacarias lamenta mais a falta de sede própria das escolas. Apenas a Malandros do Samba possui. Ainda assim, sem estrutura e sob júdice após denúncia do vizinho insatisfeito com a barulheira dos ensaios. “Para driblar a lei, as escolas ensaiam andando pelas ruas. Se for em ponto fixo o vizinho denuncia”. Também pela falta de sede, o esqueleto dos carros alegóricos repousam sob o relento e a céu aberto no depósito da antiga Sisaf (empresa de Sisal). O espaço, localizado ao lado do Estádio João Câmara, nas Rocas, pertence à prefeitura. “Duas ou três escolas trabalham ali, mas o espaço é pouco”, ressalta Zacarias.

A Liga já pediu à prefeitura e governo o espaço de um barracão na Ribeira, mesmo cedido em comodato. “Serviria para guardar o material das escolas durante o ano e para os ensaios, mas nunca conseguimos”, confirma Zacarias. Sem espaço próprio, as escolas alugam depósitos, espaços em colégios em período de férias e barracões para a montagem das alas e figurinos ou reciclagem do material já utilizado no desfile anterior. Segundo Zacarias, o ideal para a realidade local seriam R$ 8 mil apenas para confecção de figurinos e adereços. Mas o orçamento trabalhado representa a metade do valor.

Carnaval 2010
O desfile das escolas de samba e tribos de índio este ano será mantido na Rua Tavares de Lira, Ribeira. Também não é o local preferido dos carnavalescos. “Mas não dá para ir contra. Seria bater contra a sociedade fechar um local mais central e visto como a Avenida Prudente de Morais, mesmo reduzido para três dias de desfile. Estão querendo retirar o Carnatal de lá, quanto mais o desfile das escolas”.

A abertura oficial do Carnaval da cidade – quando a prefeita Micarla de Sousa entregará as chaves da cidade ao Rei Momo – será dia 12 de fevereiro. O desfile das agremiações e tribos será entre 14 e 16 de fevereiro. O Grupo A virá com o desfile de oito escolas. O Grupo B apresentará cinco agremiações. Entre as tribos de índio, cinco integram o primeiro grupo e quatro, o intermediário, além do desfile da tribo Potiguares, hours concour no carnaval todos os anos.

* Matéria publicada nesta sexta-feira no Diário de Natal

Comentários

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  1. Anonymous 10 de janeiro de 2010 20:58

    Segundo disse aquele que está "cagando e andando" pro que falarem, o orçamento do carnaval é de R$ 3.000.000,00, mas… a Prefeitura só tem R$ 1.500.000,00, de novo cortaram 50% do orçamento do carnaval.

    A lagarta contratou o padreco por R$ 221.000,00 – quase 7,5% dos R$ 3.000.000,00 ou 15% de R$ 1.500,000,00 – do orçamento do carnaval. Imagine com tudo que ela gastou em dezembro de 2009.

    Renuncie Prefeita.

    Júlia Mércia

  2. Carlos Augusto [Floyd] 8 de janeiro de 2010 19:11

    É foda né? Mas para o padreco o cachê foi de 221 mil.
    Isto é, se realmente o cachê inteiro foi para as mãos dele.

    Sei não…

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