Carta a Nelson Patriota nº 2

Querido amigo,

já se passaram quinze dias desde a sua partida e não tem sido fácil continuar por aqui sem a sua doce presença. Sua amizade era um bálsamo, um alívio para os dias incertos. Sua amizade era o afeto que amenizava a aridez dos dias. Dói muito saber que nunca mais ouvirei sua voz, que não terei mais o calor do seu abraço e a delicadeza de suas palavras, que eram sempre de conforto, esperança, motivação. Dói muito saber que nunca mais o encontrarei me esperando para um café, quase sempre com um livro nas mãos. Dói muito saber que não haverá mais convites para o nosso almoço semanal…

Dói muito saber que nunca mais cruzarei contigo na livraria do campus, que não assistiremos mais àqueles concertos maravilhosos às sextas-feiras e depois ficaremos conversando com Carlos Braga, João Paulo… Dói muito saber que você não irá até o balcão pedir um cafezinho pra gente. Aliás, é impossível ir ao shopping e não lembrar de você, especialmente quando se trata dos lugares que você costumava frequentar. As livrarias e os cafés eram uma parte de você. É como se você tivesse se incorporado a cada um deles e agora não fosse mais possível dissociá-los de sua imagem/presença.

Dói muito saber que você não estará aqui para me aconselhar quando eu estiver enfrentando alguma dificuldade, como fez tantas vezes, não importava qual fosse o problema. Você nunca minimizava as dores e os problemas alheios. Estava sempre disposto a escutar. Nessas horas você sempre dizia, com muita firmeza: “Reaja, Andreia”. Às vezes, essa sua fala era seguida de uma gargalhada, e tudo ficava mais leve.

Prometo que vou tentar reagir, mas por enquanto vou me deixar levar pela emoção e derramar meu pranto, mesmo que isso não alivie a dor de sua partida. Além dessa dor excruciante, ainda tem uma outra que também maltrata a gente numa hora dessas, o desejo de ter estado mais perto, de ter ajudado de alguma forma. Isso dói tanto! Eu não consegui lhe visitar uma única vez enquanto você esteve doente, e isso torna ainda mais dolorosa essa situação. Aliás, nos vimos pouquíssimo ano passado por causa da pandemia, digamos que umas três ou quatro vezes no máximo desde que foi decretado o isolamento social (nosso último almoço foi exatamente no dia 17 de março; não houve o abraço de sempre naquele dia). Foram encontros rápidos para tratar de questões de trabalho. Encontros sem abraços, mas não sem afeto.

Queria tanto poder ter lhe visitado algumas vezes, ter levado algum livro de que você gostasse e lido um ou outro trecho para você. Quem sabe um conto de Borges, uma crônica de Navarro, um poema de Zila… Imaginei isso tantas vezes, meu amigo. Os livros sempre foram seus melhores companheiros. Até cheguei a combinar uma visita com seu filho Ariel, para depois do réveillon. Conversamos algumas vezes sobre o assunto e expressei meu desejo de estar mais perto de você e, quem sabe, lhe visitar uma vez por semana, levar um livro, um chocolate… Antes disso, você foi internado. Uma semana depois você partiu. Vazio. Incerteza. Incompreensão. Queria ter partilhado contigo um café numa tarde qualquer. Talvez um café com uma fatia de bolo ou um pedaço de chocolate meio amargo. Sei o quanto você gostava de tomar um café expresso com um chocolate 70%, especialmente o de laranja. Tantas vezes fizemos isso na Kopenhagen. Sei também que gostava muito de bolo da moça e de bolo de laranja.

Queria tanto poder ter demonstrado que eu estava ali, que você poderia contar com meu afeto, mesmo que a gente não pudesse se abraçar, mesmo que não pudéssemos ver o sorriso um do outro. Nossos olhares estariam ali para dizer da alegria da partilha, do afeto, da amizade. Aliás, você sempre dizia que gostava da minha alegria e do meu entusiasmo, e era isso que eu gostaria de ter partilhado contigo nos seus últimos dias, um pouco de afeto, um pouco de alegria… Além de tudo que você enfrentou, ainda teve o contexto da pandemia, que nos privou de abraçar e manter contato físico com as pessoas que amamos, especialmente as do grupo de risco, como era o seu caso.

Nem posso imaginar a solidão que você enfrentou nos últimos meses de vida, a falta que sentiu dos seus amigos, da sua rotina de trabalho, de sua produção literária, das suas idas a restaurantes, cafés, livrarias, sebos, dos almoços com seu primo Roberto, das suas viagens a Alemanha, Praga, Recife, João Pessoa, São Paulo… Você sempre me falava com empolgação dessas viagens. Era um deleite pra você ir a Recife de ônibus e aproveitar os eventos culturais na cidade. Sempre me aconselhava a fazer o mesmo e ficava superfeliz quando eu viajava. Adorava partilhar minhas impressões de viagem contigo, quase sempre por e-mail. Você também fazia o mesmo. Hoje estava revendo alguns e-mails antigos e um deles falava da minha primeira viagem a São Paulo, em 2017. Eu estava tão feliz por realizar o sonho de conhecer a pauliceia e reencontrar meus familiares que vivem na cidade. Alguns primos eu não via há mais de trinta anos, outros eu nem conhecia. Foi um encontro memorável.

Voltemos ao tema de suas viagens para a Veneza pernambucana. Certa vez você me contou de uma época em que se reunia com um grupo de amigos para assistir filmes nos cinemas de Recife, um deles era Inácio, um cinéfilo que já foi tema de documentário. Em épocas mais recentes, um passeio à extinta Livraria Cultura do Paço da Alfândega era sagrado. Lembro da sua tristeza quando foi anunciado o fechamento da livraria. Há alguns anos você esteve lá para fazer uma palestra sobre o poeta Alberto da Cunha Melo, tive a honra de revisar texto de sua conferência, assim como tantos outros, a exemplo do seu discurso de posse na Academia Norte-rio-grandense de Letras (eu amava revisar seus textos), um dos meus prediletos. Gostaria muito de ter ido a esse evento, mas não foi possível.

O mesmo aconteceu ano passado, quando você participou de um evento em Natal e não pude estar presente. Você esteve na Livraria Manimbu, no projeto Sábado Literário, para falar de seu livro “Cadernos de Espanto”. Outro dia vi uma foto do evento em que você está com as escritoras Diulinda Garcia e Tereza Custódio. Uma relíquia. Foi a última vez que você participou de um evento literário em Natal. Na ocasião eu estava em Pernambuco, numa das viagens mais importantes da minha vida. Fui ao encontro de minha mãe, depois quase três décadas distante. E você foi uma das pessoas que mais me aconselhou a fazer a essa viagem. Jamais esquecerei disso. Você sabia da importância desse encontro e do quanto seria essencial resgatar meu passado para seguir minha jornada.

É tão difícil lembrar de tudo isso e saber que você não está mais aqui, que não tenho mais aquele amigo com quem eu gostava de conversar sobre qualquer assunto, por mais banal que fosse. Até as aventuras e os dilemas amorosos de algumas amigas eram pauta de nossas conversas, marcadas quase sempre por muitas gargalhadas. Havia também os momentos de silêncio, onde prevalecia o afeto e a certeza da inteireza do outro, da amizade sincera. Bastava a alegria de estarmos juntos, como diz Rubem Alves.

Gostaria muito de acreditar na existência da vida após a morte. Gostaria de acreditar que um dia iremos nos encontrar… Aliás, essa foi a forma que minha irmã Cristina encontrou de amenizar a dor pela partida do seu marido, há quase três anos. Ela acredita que um dia estará nos braços do amado novamente. Imagino que essa crença seja um conforto para os que ficam. Admiro os que alimentam a esperança da vida eterna.

Acho que seria menos doloroso aceitar a partida dos que amamos se acreditássemos que a vida não termina com a morte física. Esse é um tema que não domino e por isso prefiro não me arriscar em uma discussão mais aprofundada. O que posso dizer é que você deixou um vazio impreenchível e que o tempo deve amenizar essa dor e transformá-la em saudade. É isso que tenho escutado de alguns amigos desde a sua partida. Vou seguir escrevendo para amenizar a saudade e afastar a melancolia. Rubem Alves diz que “a saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar”. Para ele, “o que a memória ama fica eterno”. Se pudesse escolher, minha alma queria voltar ao ano de 2010, quando iniciamos nossa amizade. Também gostaria de voltar no tempo e não ter dormido numa certa tarde do mês de agosto do ano passado. Talvez nosso último encontro tivesse acontecido nesse dia, ou logo depois, mas eu estava dormindo e não escutei quando você me telefonou para combinar um café…

Os budistas encaram a morte com naturalidade e nos ensinam que tudo é transitório. A Monja Cohen nos ensina que podemos encarar a proximidade da morte como uma oportunidade de rever a própria vida e saber se compreender, se amar e se perdoar, a si mesmo e aos outros. Ela diz que “todas as experiências de nossa vida e de nossa morte são a tapeçaria do universo – hoje até chamado de multiverso”.Prefiro pensar que seus últimos dias tenham sido assim, que você tenha recebido muito amor dos seus familiares e que, mesmo a distância, tenha sentido o amor dos seus amigos.

Na única vez em que conversamos por telefone, você me falou dessa “corrente do bem”, quando eu disse que havia muita gente torcendo pela sua recuperação, que você era muito amado, que fazia muita falta aos amigos… Ao desligar o telefone caí num pranto inconsolável. Sabia que você estava partindo, que não era mais o meu velho amigo, aquele leitor inveterado e orador brilhante, apesar do seu jeito tímido. Quando perguntei se havia recebido meu presente de aniversário, percebi que você não lembrava do tal presente (ou não o recebera). Era um livro, uma caneta e dois bilhetes. O que me conforta é saber que sempre demonstrei meu afeto e minha admiração por você. Fico com as lembranças dos muitos aniversários comemorados juntos.

Não quero transformar essa carta numa série de lamentações, até porque você detestaria que assim o fosse. Você era muito prático e não ia gostar dessa choradeira (sou capaz de ouvi-lo me reprendendo). Confesso que lembrar disso me deixa um pouco melhor. Sei exatamente o que você diria numa hora dessas: “Deixe de drama” (risos). Comecei essa carta aos prantos e agora me sinto mais aliviada porque lembrei de suas palavras e do quanto você me ensinou a aceitar as coisas como elas são e seguir em frente com coragem e confiança para enfrentar as adversidades.

A literatura tem me ajudado a aliviar essa dor e hoje os poemas de Vinicius e as crônicas de Rubem Alves foram um alento para o meu coração. O livro “A sabedoria da transformação”, da Monja Cohen, também foi um grande companheiro durante essa jornada solitária e me ajudou a entender melhor a sua partida. Talvez os budistas tenham razão e o melhor seja encarar a morte com naturalidade, compreendendo que tudo tem seu tempo. Vou seguir o conselho de Sêneca e abraçar todas as horas, mesmo que elas estejam impregnadas de lembranças, desejos não realizados e saudades.

Sei o quanto você amava a vida e que a viveu intensamente, o que de certa forma me traz algum conforto. Você dedicou a maior parte de sua existência à escrita/literatura e foi reconhecido como revisor, crítico literário, editor, tradutor, jornalista, e isso é tão inspirador. Além do mais, você sempre foi generoso com os escritores que estavam começando e precisavam mostrar seu trabalho, e isso também é muito admirável e até um pouco raro nesse universo em que você esteve mergulhado na maior parte de sua vida. Sou prova disso. Jamais vou esquecer suas preciosas orientações. É tão difícil não ter você aqui para revisar minhas crônicas semanalmente e devolvê-las quase sempre com uma mensagem positiva, sempre me estimulando a seguir escrevendo. Ana Cláudia Trigueiro, Fátima Medeiros e Rafael Marques foram alguns desses autores que tiveram o privilégio de ter um livro prefaciado por você. Que sorte a deles.

Você deixou um grande legado e nos ensinou a amar os nossos escritores, sem, no entanto, deixar de apreciar outras literaturas. Você nos ensinou a criticar com elegância e, acima de tudo, com argumentos incontestáveis porque sempre muito bem fundamentados. Obrigada por tudo.

Sua amiga de sempre.

Andreia Braz

Escritora e revisora de textos [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. José de Castro 12 de fevereiro de 2021 15:01

    Emocionante essa crônica, escrita em recordações finas que doem na autora e, ao mesmo tempo, têm o dom de lenir um pouco a dor da ausência. Andreia, querida, alguns partem porque já haviam cumprido o seu desígnio. Nelson foi um deles, que honrou cada minuto de sua existência. Você, de certa forma, foi uma privilegiada em ter desfrutado de muitos momentos dessa amizade. Valorize os que teve em detrimento dos que lhe foram impossíveis. Você, parece-me, nasceu destinada a ser cronista, pois escreves com alma e coração. Prossiga assim, querida amiga. Abraço solidário, ainda emocionado com esse texto doído de maravilhoso… Obrigado por nos presentear com textos tão sensíveis à vida.

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