Carta à sobrinha

Querida sobrinha.

Hoje cedo, você manifestou dúvida em mensagem pelo WhatsApp, quanto a ir à manifestação contra o golpe nesta sexta-feira, 18. Não pela causa em si e pelo que está em jogo nesse grave momento da vida nacional. Quanto a isso sua coerência, idealismo e claro posicionamento político sempre falaram mais alto. Mas temendo violência. Respondi-lhe que não temas e participe porque é um direito nosso e o momento exige. Estarei lá com você. Nunca fui de omitir-me.

Sua postura política e ética comove-me.  Que bela herança você recebeu dos seus pais. Esse seu idealismo me contagia e rejuvenesce. Que seus tios, que vieram do nada e abriram caminho na marra – como você bem sabe – mantenham-se fiéis à ideia de justiça social, é o esperado e o mais digno. Uma forma de gratidão pelo que a vida nos deu. Mas, você, que já nasceu classe média e com facilidades materiais que nós não encontramos, com tudo pra ser mais uma alienada, ter se tornado uma militante política e social é motivo de enorme orgulho para todos nós.

Como você sabe não sou filiado a nenhum partido. Nunca fui. Sempre achei que isso poderia interferir no meu senso crítico como jornalista. Minha independência é inegociável. No entanto, a polarização ideológica, trabalhada de formas premeditada e cretina, como meio de deslegitimar opiniões que fogem a essa camisa de força, coloca a todos que ousam se pronunciar como partidários dessa ou daquela corrente que disputam o poder nesse momento no país. Nada mais falso e pobre.

O PT e o governo cometeram erros graves. Para chegar e se manter no poder fez o que todos os governos e partidos brasileiros anteriores fizeram. Negociou e comprou apoios políticos. Compactuou com práticas que abominava. Aliou-se à escória do Congresso para assegurar a governabilidade. Envolveu-se em corrupção. Mas não a inventou como muitos creem. Agora paga o preço de tudo isso. E joga a esquerda num beco sem saída de ter de sair às ruas para defender o golpe urdido pelo judiciário com a imprensa.

Durante mais de 500 anos a elite fez e desfez, espoliou o país e tudo ficou por isso mesmo. Mas o PT, com culpa ou sem culpa, jamais foi aceito e tolerado. Essa é que é verdade nua e crua. É uma pena que esse partido, que despertou grande esperança, tenha enveredado pelos mesmos caminhos tortuosos trilhados pelo que veio antes. Erros devidamente amplificados pelos arautos da moralidade e entreguistas-mor.

Apesar de tudo, vamos às ruas minha querida. Não para defender o PT, o governo ou Lula. Mas dizer que não aceitaremos de braços cruzados o golpe em curso. Golpe este que começou no primeiro dia em que Dilma Rousseff assumiu o cargo, com o pedido de recontagem de votos, seguindo-se a todo o tipo de chicanas e dificuldades à governabilidade.

Vamos às ruas, sobrinha, porque a Democracia está ameaçada. E nós temos horror à ditadura e golpes. Acho que devemos isso àqueles que ficaram pelo caminho na luta contra a ditadura e deram seu sangue pela redemocratização. É um modo de dizer que a luta deles não foi em vão, que estamos honrando esse passado heroico contra o arbítrio e o terror.

Vamos às ruas dizer não a forma política e partidarizada com que a Lava Jato está sendo conduzida; vamos às ruas contra a manipulação inescrupulosa e infame da imprensa brasileira, de passado e tradição golpistas e anti-popular; vamos às ruas deixar claro que não acreditamos em salvadores da pátria e em líderes messiânicos; vamos às ruas dizer que o presente está difícil, mas que avanços sociais foram conseguidos nos últimos anos, e que isso pode sofrer retrocesso; vamos às ruas exigir as saídas de Eduardo Cunha e Renan Calheiros; vamos às ruas porque existe uma clara identificação nossa com aqueles que lá também estarão marchando; vamos às ruas nesta sexta porque temos a certeza de que lá não encontraremos figuras como Bolsonaro, Eduardo Cunha, Paulinho da Força, Malafaia, Agripino, Caiado e Rogério Marinho, entre outras sumidades.

Enfim, querida sobrinha, vamos às ruas iniciar o resgate dos nossos sonhos, que não são de partido e nem de político nenhum. Porque sonhar sempre será preciso.

Um beijo muito carinhoso e continue sendo essa pessoa admirável que você é.

Tácito

Comentários

Há 6 comentários para esta postagem
  1. Anchieta Rolim 18 de março de 2016 12:24

    “… vamos às ruas iniciar o resgate dos nossos sonhos, que não são de partido e nem de político nenhum. Porque sonhar sempre será preciso.” MASSA DEMAIS! VALEU, CAPITÃO!

  2. Carlos Zens 18 de março de 2016 10:20

    Bom dia caro Tácito Costa, comungo de suas observações e pelo exercício da Democracia nos faz exercitar a vontade
    da serenidade frente ao que estamos vivendo e como bem disse nestes 500 anos ainda não conseguimos dar conta de nossa HISTÓRIA. Parabéns pela Carta à sobrinha.

  3. Sebo Lisboa 18 de março de 2016 10:13

    Sinto-me agraciado e privilegiado, Belo texto.

  4. Hugo macedo 18 de março de 2016 9:15

    Parabéns pela carta lúcida aos seus. Estamos juntos na luta pela democracia.

  5. Matheus 17 de março de 2016 21:30

    Belíssimo texto. É confortante ver que num momento de tantas trevas ainda exista pensamento crítico, para não avaliar a situação apenas do jeito como ela nos é entregue.

  6. Auana 17 de março de 2016 17:57

    “Pois aqui está a minha vida.
    Pronta para ser usada.
    Vida que não se guarda
    Nem se esquiva, assustada.
    Vida sempre a serviço
    [da vida.
    Para servir ao que vale
    a pena e o preço do amor. ”
    Thiago de Mello em faz escuro mas eu canto.

    Lindo texto. Emocionante.

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