Carta aberta a Jair Bolsonaro e ao ‘CQC’, em defesa de Preta Gil e das vítimas de preconceito

Por Fernando Oliveira
NO IG

O “CQC” {post mais abaixo} da última segunda-feira exibiu um quadro que não só chocou a todos como suscitou as mais variadas discussões. Nele, o deputado Jair Bolsonaro respondia a perguntas feitas por anônimos e famosos.

Depois de afirmar que tem saudades da ditadura e de que jamais correria o risco de ter um filho homossexual, o político foi questionado pela cantora Preta Gil sobre como reagiria caso seu filho namorasse uma negra. A resposta, para surpresa geral, foi que ele não corria esse risco, já que seus filhos não foram criados num ambiente de promiscuidade como ela. Sim, leitor. Não só ele ofendeu a Preta e sua família, como deixou clara a reprovação à possibilidade de ter uma nora negra.

Quero crer que Jair entendeu mal a pergunta, porque, em pleno século 21, parece impossível ouvir esse tipo de declaração. Torna-se muito difícil, no entanto, dado o comportamento prévio do deputado, acreditar nesta possibilidade. Forte opositor da união civil homossexual no congresso, ele já chegou a declarar que os filhos tornam-se homossexuais por “falta de porrada”. Já o fez em meios impressos e também na TV. Exemplo recente é uma edição de “Casos de Família”, comandado por Christina Rocha no SBT.

Pergunto-me aqui o quanto é saudável e de fato necessário levar ao ar uma figura que destila frases que, sim, podem render alguns pontos de audiência, mas são um grande retrocesso. Será que pelo choque – se é que todos se chocam – o preconceito será combatido? Tenho minhas dúvidas. Especialmente porque quem certamente saiu magoada deste episódio foi Preta Gil. Mulher independente, bem resolvida, com sólida carreira profissional, ela não precisava passar por isso. Justamente ela, que já foi vítima de preconceitos estúpidos por estar acima do peso – para os padrões de capa de revista – ou ser filha de quem é. Me solidarizo a Preta. E torço para que este episódio não ganhe proporções maiores do que merece em seu cotidiano. Ele é tão absurdo que não merece destaque. Merece, sim, ser discutido pela sociedade para que pensemos quem elegemos para cargos públicos.

Ao “CQC”, proponho uma reflexão. O programa é mesmo uma lufada de ar fresco no humor brasileiro. Mas até que ponto explorar esse tipo de situação pode de fato despertar uma reflexão mais apurada? Esta questão vale tanto para a presença de um convidado de opinião dispensável como este nobre deputado, como para o quadro em que diferenças entre regiões do país são realçadas. Na semana passada, Danilo Gentili interpretou um pai que humilhava uma criança por ser gay. Ficção, claro. Mas das que doem, incomodam. Até que ponto o choque é preciso? E até que ponto figuras como estas não acabam por reforçar estereótipos uma vez que viraram atração de programas de TV? Vale a pena pensar.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Marcos Silva 31 de março de 2011 8:12

    Será que noutra galáxia é melhor?
    Em tempo: certos nomes próprios (impróprios) não devem ser jamais pronunciados para preservar a decência do mundo.

  2. Carlos Aceveda 29 de março de 2011 15:42

    Não vejo TV, não sei nome de novelas, nunca vi um BBB e o programa CQC, que eu não sabia da existência, vi os primeiros minutos de minha vida na internet ontem. Acho que o nível dos programas de televisão aberta são sempre muito ruíns e infelizmente a TV a cabo tem propaganda demais, por isso não vejo mais nada. Gosto de seriados e compro as temporadas nas lojas Americanas.
    Defendo o direito dos homossexuais terem sua união reconhecida pelo estado e a adoção de filhos, a parte da união reconhecida é a mais importante, acontece em nossa sociedade uma pessoa ser banida de sua família por casar com outra do mesmo sexo, este casal constroe uma vida juntos e quando um dos dois morre a herança vai toda para a família que rejeitou a pessoa, não está correto.
    Liberdade de expressão não é escolher um nicho da sociedade e dar a este setor voz sobre os outros, liberdade de expressão às vezes dói, porque temos de escutar o que as vezes não queremos ouvir.
    O deputado Bolsonaro defende a ditadura militar e seus métodos de repressão, se pensarmos que a maioria dos que lutavam pela esquerda queriam trocar uma ditadura por outra não vejo razão para que ele seja demonizado. Os militares entregaram o poder em 1985 por pressão da sociedade, se levarmos em consideração o modelo cubano ou norte-coreano podemos imaginar que a tal “ditadura do proletariado” que a esquerda queria implantar, não largaria o osso tão cedo, um bom exemplo desta gana de poder foram as diversas tentativas de controle da mídia pelo governo Lula.
    Lendo livos de Sirkis, Gabeira e Zuenir Ventura podemos notar que havia um racha entre militantes que queriam a ditadura do proletariado e os que defendiam a derrubada do governo militar para implantação de uma democracia e estes eram minoria.
    O deputado Bolsonaro está sendo criticado porque expressa suas idéias sem medo. O governador do meu estado, Sergio Cabral, tem cara de boa praça, só fala o que as pessoas querem ouvir mas teve sua campanha financiada por milicianos como o Jerominho e seu irmão Natalino Guimarães. Luciano Huck, que também criticou o deputado contratou o escritório de advocacia da mulher do governador e semanas depois Sergio cabral sancionou uma lei que alterava parâmetros ecológicos em Angra dos Reis, legalizando automaticamente uma obra em sua mansão de veraneio. Lei que foi batizada por gaiatos de “Lei Luciano Huck”. De minha parte prefiro os que falam o que pensam.
    Quero liberdade de expressão em todos os sentidos, quero que homossexuais exerçam seu afeto abertamente sem serem incomodados, mas quero que as pessoas que não concordem com isso sejam respeitadas também.

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