Carta aberta para Sergio Vilar

Por Marina

Em relação ao texto postado: Opinião abortada (aqui). Acho que você teve uma atitude bastante coerente com os seus princípios e isso é muito salutar, demonstra caráter. Essa moça foi uma privilegiada em ter te conhecido. Com certeza, ela deve ter se sentido bem mais confortável para tomar uma decisão. Isso porque ela sabia que poderia contar com você, independente de ficarem juntos ou não.

Não parece ser o que ocorre na maioria dos casos, pelo menos nos casos das mulheres que conheço. Não havia este envolvimento por parte do homem que deixava a decisão final para a mulher e não passava a confiança do assumir conjuntamente, caso a decisão fosse levar a termo a gravidez. E veja que não estou me referindo a uma transa de um único momento.

Mas, voltando ao meu caso em particular, novamente citando a metáfora da bicicleta ampliada por você: “Aprende-se andando e caindo. Mas cair no mesmo buraco três vezes…”. Pois é…! No primeiro aborto como já falei anteriormente, eu era muito nova, imatura e inconseqüente, acho compreensível. Quanto a cair no mesmo buraco outras duas vezes…? Eu até poderia tentar arregimentar outras justificativas, entretanto, confesso, que não aprendi quando caí da bicicleta a primeira vez, infelizmente. Até porque em todas as situações sempre havia um misto de medo de morrer e culpa pelo aborto, sentimentos ambivalentes e conflituosos de estar ceifando uma vida por vir, formação cristã e por aí vai.

Você diz que em nenhum momento insinuou que eu estaria posando de vítima, acredito em você, desculpe se assim o fiz parecer. Na verdade eu estava apenas querendo enfatizar que eu poderia ter relatado apenas o primeiro episódio e, com isso, sensibilizar as opiniões, contudo, fiz questão de abordar as contradições presentes e que normalmente não são evidenciadas, então, é nesse sentido quando eu falo da recusa a posar de “vítima”.

Segundo você: “Após meu relato, observe: todos os casos postados aqui são sempre fruto das tais irresponsabilidades”. Também! Quem nunca caiu nessa que atire a primeira pedra. Você mesmo caiu e admite ter sido irresponsável: “Na ânsia, na irresponsabilidade, foi sem camisinha. Com medo e arrependido, ainda fiz questão que ela tomasse a pílula. Ela tomou e mesmo assim engravidou”. Tá certo! Caiu da bicicleta no “mesmo buraco” só uma vez. Aprendeu rápido uma lição que outros levam anos para aprender e outros a vida inteira não aprendem. Assim, são as pessoas.

Não estou defendendo a conformação, ou seja, se cada um aprende no seu tempo, devemos esperar, então, que tenham a maturidade suficiente. Não! Se assim fosse a educação (escola, pais, outros sujeitos) não teria um papel a desempenhar na formação do indivíduo tais como: ensinar, corrigir erros, auxiliar na construção do sujeito, etc. Devemos resistir e apontar a contradição, a indiferença e o egoísmo nas relações entre os sujeitos. Em oposição a isto devemos apostar na força do amor, da solidariedade, da amizade, da generosidade, da perseverança que é o que nos motiva a caminhar, a desejar viver e não morrer.

Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão (Rosa, 1986, p. 8).

PS: Marina não foi pensada pra ficar tanto tempo no “ar”, mas apenas dar um pontapé inicial nessa discussão.

Beijos,

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