Carta Aberta

Dos fazedores das Artes Cênicas do RN para a Secretária Extraordinária de Cultura:

Exma. Profa. Isaura Rosado

Secretária Extraordinária de Cultura do RN

“(…) Eles passarão…
Eu passarinho”
Mário Quintana

Com o passar dos anos, passam-se também os Gestores da Cultura do nosso estado. Cada um ou cada uma tentou contribuir, ao seu modo, com o desenvolvimento das políticas públicas para a Arte e a Cultura Norteriograndense.

Observamos ao passar desses anos, tentativas frustradas de efetivação de um projeto para nossa área. Auxílios-montagens, Projetos de Circulação, Festivais e inúmeras outras ações que se esvaíram na total ausência de um programa integrado e de qualidade. Sempre foram ações isoladas em si, sem qualquer relação uma com a outra. Com verbas ínfimas e que muitas vezes caíram no gargalo das contas públicas de um Estado endividado. Passado um pouco mais de seis meses de Gestão da Senhora Secretária Isaura Rosado, nós, artistas das Artes Cênicas do Rio Grande do Norte a convidamos para discutir a total pasmaceira e inércia que se encontra parte dos Grupos teatrais de nosso estado, a convidamos para refletir conosco a total ausência de políticas públicas “continuadas” para o nosso setor.

Diferentemente dos Gestores que mudam com o passar dos anos, nós, artistas, somos os mesmos. E somos nós que sofremos com essa política descontinuada, heterogênea e que não nos favoreceu em nada para o fortalecimento de nosso fazer artístico. Até quando vamos nos orgulhar de exportar nossos melhores artistas? Será que não seria melhor dizer “expulsar” ao invés de “exportar”, pois não é dada a mínima condição de fazer com que ele, o artista, possa escoar a sua produção artística e intelectual, de forma independente e livre, assim como fazem os grandes produtores agrícolas ou de indústrias? Estamos vendo ao longo dos anos, um Estado burocrático, despreparado, que não entende a complexidade de nossa cultura e que sua valorização não depende, apenas, da realização de “é-ventos” com datas e locais isolados e totalmente atrelados aos equipamentos públicos, como se neste momento se caracterizasse um programa de prestação político partidário de uma gestão.

A verdadeira cultura, acontece nos galpões dos grupos de teatro e dança de todo o estado, nas casas de músicos, nas praças, nos terreiros de Griôs, nos ateliês, nas paredes descascadas de prédios abandonados, nas lonas de Circo, nos clubes e nas agremiações, uma Cultura pulsante, latente e que vibra no corpo desse povo brasileiro, em sua diversidade e pluralidade, e que independentemente da máquina do Estado, nós fazedores de teatro sempre estaremos produzindo. É importante que estes projetos possam se transformar em ações que venham a desempenhar um papel importante no escoamento de toda essa produção, fomentando um trabalho cada vez mais de qualidade, digno, com direitos trabalhistas garantidos, fazendo com que nossa arte circule pelo Brasil e seja reconhecida pelo cuidado, pelo tratamento, pela pesquisa e principalmente por sua qualidade estética.

Apesar da total descrença com as últimas gestões de cultura no Estado e nos municípios do RN, ainda sonhamos com dias melhores, dias mais tranquilos, em que não tenhamos que brigar por cachês que não saem, por editais não realizados, e que a verba para a cultura do RN fortaleça cada vez mais a produção local, tanto em termos qualitativos como em quantitativos. Só para ilustrar, em São Paulo, com a Lei de Fomento ao Teatro, os grupos participam de editais com valores de até R$500.000,00 (quinhentos mil reais) por projeto, realidade essa que está muito longe da nossa.

Sendo assim, Senhora Secretária, viemos por meio desta abrir um diálogo com a Secretaria Extraordinária de Cultura e a Fundação José Augusto para efetivarmos essa Política Pública para as Artes Cênicas Potiguar. E para deixar bem claro o que entendemos por “Política Pública para as Artes Cênicas Potiguar” elencamos alguns pontos descritos abaixo, a fim de afinarmos o nosso discurso e começarmos esse diálogo com algo palpável.

Editais de Montagem, Circulação, Pesquisa e Manutenção/formação, lançados semestralmente ou anualmente que garantam a produção artística e intelectual dos grupos de forma livre e longe temáticas pré-definidas num contrato, e que dialoguem entre si formando uma verdadeira Cadeia Produtiva do Teatro Potiguar;

Quitação, continuidade e ampliação de editais já existentes, mas que ainda sofrem com a falta de comprometimento do estado para efetivação de seus pagamentos, a exemplo: Edital Chico Vila de Circulação e o Prêmio Lula Medeiros de Teatro de Rua;

Ações integradas que fortaleçam a cadeia produtiva da Cultura, entendendo a existência de uma Economia Criativa que acompanha toda essa produção;

Ações que deem visibilidade a produção local, de modo a incentivar seu escoamento por festivais e Mostras de todo o Brasil, como a efetivação de um Festival de Teatro Nacional, a exemplo do Festival Agosto de Teatro, com a presença de apreciadores que propiciem uma reflexão crítica de nosso fazer e que sejam uma “ponte” importante para nossos grupos participarem de outros eventos como este;

Ações de Manutenção que garantam o fortalecimento de Grupos e Fazedores das Artes Cênicas do RN, que passem pela produção e formação intelectual até a manutenção de seus espaços físicos, fazendo de cada lugar um território de produção artística;

Editais de ocupação dos Teatros Públicos do Estado, que aos cofres públicos saem quase a custo zero, e que com o advento de um novo Teatro na Cidade que desocupou em grande escala o TAM, está mais de que na hora de nossa histórica Sala de Espetáculos voltar a ser do artista Potiguar;

Com esses pontos podemos começar esse diálogo, cientes da urgência e de certa inércia a que passa a Cultura de nosso Rio Grande do Norte, deixando bem claro, que qualquer desses pontos se feito de maneira isolada, não mudará em nada a cenografia pobre, porém pulsante, que ilustra o espetáculo da Cultura do nosso estado. Será, apenas, mais uma tentativa de empurrar goela abaixo de nossos artistas mais uma política de governo descontínua e fraca em sua essência e em seu discurso. Caso essa cenografia continue a mesma, parafrasearemos o Poeta Mario Quintana e bradaremos aos quatro cantos: “Todos estes (Gestores) que estão aí/ atravancando ‘nosso’ caminho?/Eles passarão…/nós passarinhos”.

Então, Senhora Secretária, a convidamos para esse simples desafio.

Natal, 19 de setembro de 2011

Assinam essa carta:

Bando La Trupe – Natal/RN

Centro de Cultura da Vila de Ponta Negra – Natal/RN

Carpintaria Teatral – Natal/RN

Cia A Máscara de Teatro – Mossoró/RN

Cia Bagana de Teatro – Mossoró/RN

Cia Empório D’ell Arte – Currais Novos/RN

Cia Pão Doce de Teatro – Mossoró/RN

Cia Teatral Alegria Alegria – Natal/RN

Coletivo Atores à Deriva – Natal/RN

Elas & Cia – Natal/RN

Grupo Arruaça – Mossoró/RN

Grupo Artes e Traquinagens – Natal/RN

Grupo Bela Trupe de Teatro – Mossoró/RN

Grupo Cacimba de Teatro – Caicó/RN

Grupo Casa da Ribeira – Natal/RN

Grupo de Teatro Clowns de Shakespeare – Natal/RN

Grupo de Teatro Facetas, Mutretas e Outras Histórias – Natal/RN

Grupo de Teatro Retalhos da Vida – Caicó/RN

Grupo Estação de Teatro – Natal/RN

Grupo Estandarte de Teatro – Natal/RN

Grupo Tambor de Teatro – Natal/RN

Grupo Teart de Teatro – Natal/RN

Rede Estadual dos Pontos de Cultura

Tropa trupe Cia de Artes – Natal/RN

Comentários

Há 6 comentários para esta postagem
  1. Rayanne 21 de setembro de 2011 17:59

    Bem, levando em conta as ações que têm sido empreendidas na área da cultura, acho difícil que todos esses pontos sejam atendidos. Acho até que os artistas já despacham a carta sabendo disso.

    Quanto ao seguinte trecho:

    “Só para ilustrar, em São Paulo, com a Lei de Fomento ao Teatro, os grupos participam de editais com valores de até R$500.000,00 (quinhentos mil reais) por projeto, realidade essa que está muito longe da nossa.”

    Fala sério, né? Algum desses artistas teve o cuidado de procurar saber qual a receita do estado de SP? E quanto ele recebe de repasses de Gov. Federal, emendas parlamentares, etc? É ÓBVIO que SP tem bem mais grana pra investir em cultura. Talvez fosse mais interessante (e honesto) fazer a comparação em percentuais, e não se valendo de números, porque é simplesmente incabível. Só pra ter uma ideia, R$ 500 mil pode não equivaler sequer a 0,1% do orçamento do governo de um estado como SP. Já R$ 500 mil para o RN…

    Mas eu divago.

    Fora isso, e o fato de a lista de exigências ser extensa (talvez extensa não seja bem a palavra… talvez sejam exigências grandiosas demais se levarmos em conta o que tem sido feito desde sempre) – e talvez até um pouco intransigente (“deixando bem claro, que qualquer desses pontos se feito de maneira isolada, não mudará em nada a cenografia pobre, porém pulsante, que ilustra o espetáculo da Cultura do nosso estado”) – acho as reivindicações justas, mas vale uma ressalva: quer dizer que num acordo não vale nenhuma conquista, por menor que seja? Acho que a lógica não é bem essa. É preciso lutar, barganhar, fazer acordos, e sempre que possível buscar parcerias, não importando o tamanho (R$!) delas. No mais, essa é só minha opinião.

    E antes que eu esqueça: pleitear o pagamento de débitos anteriores e querer ocupar o TAM com produção local são reivindicações que já deveriam ter sido atendidas há muito tempo.

  2. Jarbas Martins 21 de setembro de 2011 17:32

    Que bom,Marcos, você dizer que Pipa independe dos turismos.Também acho.Será, amigo Marcos, que Mário de Andrade conheceu Pipa ?

  3. Jarbas Martins 21 de setembro de 2011 10:28

    PRESERVEMOS PIPA ELA TAMBÉM É NOSSA

  4. Marcos Silva 21 de setembro de 2011 8:24

    Jarbas:

    Um festival literário pode ser muito: comemoração da Literatura, a Literatura merece ser comemorada. Minha preocupação é reforçar excessivamente o caráter eventual da Literatura, a Literatura sobreviver às custas das transfusões ocorridas durante eventos. O mesmo vale para Teatro, Música & Cia.
    Concordo com você sobre a importância do pessoal de Artes Cênicas se fazer presente naquele evento. Mas Drummond de Andrade já nos advertia, lá atrás: E agora José? A festa acabou etc.
    Fellini tem lindos fins de festa em seus filmes. Toda festa tem seu fim.
    Aproveito para declarar que gosto muito da paisagem de Pipa, ela independe dos turismos.

  5. Jarbas Martins 21 de setembro de 2011 8:08

    minha campanha @ preservemos Pipa e se preserve bombando no twitter.

  6. Jarbas Martins 21 de setembro de 2011 5:23

    Avante, pessoal das Artes Cênicas do Rio Grande do Norte.O desafio foi lançado.É preciso repensar a política cultural em nosso Rio Grande Sem Norte.Vale lembrar que faltam 57 dias para o Festival Literário de Pipa, o FLIPIPA, que acontecerá – segundo reportagem de Yuno Silva para o VIVER, da Tribuna do Norte- num lance ousado de marketing do Dácio Galvão, numa falésia com vistas para outras bandas do mundo.Que o nosso pessoal das Artes Cênicas esteja ali representado, em meio a literatos, músicos, performers e poetas.do nosso Estado, do Brasil e das estranjas.PIPA é, ou não, um patrimônio cultural nosso a ser preservado ? Mostre a cara de vocês, pessoal das Artes Cênicas ! PIPA também é nossa.

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