carta ao júri

antes fosse eu ser julgado por um crime inconfessável, cuja simples menção (por si só) já me diminuísse, mas nesta sala abarrotada de cadeiras vazias, diante de vossas máscaras patéticas, sou réu confesso de crimes do meu dia-a-dia.

vosso julgamento não interdita minha heresia, e ainda que interditasse – e mesmo que me calassem com rios imundos de dinheiro ou socos no estômago -, meu coração rebelde se debateria até escapulir meu corpo falido para avançar, via esgoto, ruas, esbravejando poemas malditos.

se aos trinta anos o desespero me fizer decepar minha coragem e se eu me transformar num sobrevivente cinza vagando os corredores de um apartamento comprado à custo de minha liberdade, a rebeldia vai exceder meu corpo senil para se abrigar no peito agitado de outro enfant terrible.

e se ao largo do meu corpo semi-vivo, brotarem flores lacrimosas e silentes, envenenando a terra como o medo faz à vida, tendo eu, aos trinta anos, sido cooptado, senhores do júri,

condenem-me pela sobrevida!

Comentários

Há 5 comentários para esta postagem
  1. Jarbas Martins 2 de agosto de 2011 7:53

    kafka era advogado.sentiu de perto a falácia e a hipocrisia em que se sustentava a justiça feita pelos homens.jota mombaça, mais lúcido e desesperado do que o escritor tcheco, dá o seu jovem testemunho entre os escombros deste início dos anos 10, do século XXI.

  2. Gustavo de Castro 1 de agosto de 2011 11:39

    enfant terrible… sabe, momba, para mim o importante nem é o quanto se vive, em anos, idades ou o que valha, o mais importante é a intensidade do que se vive, neste sentido, todos vamos morrer cedo, pois estamos condenados à vida.

  3. Nina Rizzi 1 de agosto de 2011 10:58

    era exatamente o que eu esperava que escrevesse. lembro: conselhos e divagações a respeito do outro são feitas quando buscamos nosso passado no lixo.

    um beijo.

  4. Marcos Silva 1 de agosto de 2011 9:39

    PS – Mas o texto de Momba é o de sempre, ótimo, Kafka mais derramado.

  5. Marcos Silva 1 de agosto de 2011 9:38

    Havia um slogan 68: não confie em ninguém com mais de trinta anos. Uma vez, radicalizei o slogan: não confie em ninguém! Mas isto não é um convite ao suicído coletivo… Sou contra essas mortes aos 27. Tem uns coroas de todos os sexos ótimos. Mesmo que seja eu.

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