Carta cifrada a Volonté

Foto: Itaércio Porpino

Logo nossas palavras não farão mais sentido, nossas frases não terão mais conjuntura. Livros não precisarão ser queimados, ninguém mais os lerá. Não demora meus poemas sequem. Uns dançarão anestesiados; outros, catatônicos, vaguearam por pensamentos repletos de nulidade. Nós choraremos fino, como cães desesperados, viralatas notívagos que já não reconhecem a luz dos postes. Sevícias fritarão a nossa carne, e nós mesmos nos açoitaremos. Logo nossos livros serão apagados, anularão a possibilidade de lê-los – não por meio do analfabetismo trivial, mas por algo mais profundo: eles vão formar público, eles vão fabricar leitores: deslumbrados cujas lentes, para o mundo, assumirão irrevogavelmente a feia beleza hiperreal da propaganda. Nesse mundo paupérrimo de hipérboles que não nos alcançam – nossos olhos deliram excessos mas o que se nos constata é a impotência. Somente. Erguemo-nos para constatar a impotência, e então voltamos a sentar-nos. Cesária Évora morrerá, Nina Simone é já morta, mas vocês se lembram do Massacre de Rosewood? Estamos em vias do genocídio definitivo, da hecatombe simbólica, Chernobyl sob os meus tênis, e a terra em Hiroshima não dá nada. Os outros nunca ouvirão nosso uivo. Prevalecerá o desespero assassino e silencioso.

Comentários

Há 5 comentários para esta postagem
  1. Alex de Souza 26 de setembro de 2011 13:59

    O texto, no site, está incompleto. A íntegra saiu numa página dupla no finado Nasemana. Sequer tenho cópia.

  2. Anchieta Rolim 25 de setembro de 2011 13:25

    Alex meu mano, qdo vier a Natal me ligue, gostaria de ir contigo conhecer o poeta Volanté. Forte abraço!

  3. Carlos Gurgel 25 de setembro de 2011 13:13

    lendo Mombaça me dá vontade de ressuscitar

  4. Jarbas Martins 25 de setembro de 2011 11:57

    Valeu, Alex de Souza, beleza de texto sobre o poeta mais natalense, desde Ferreira Itajubá.Ambos, aliás, canguleiros.

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