Carta para o dia de hoje

Sim, eu cedo às tuas noites maceradas com o consentimento de quem já escureceu umas tantas vezes. Pronuncio os sins mais difíceis, resignação nunca foi o meu forte. Mas é dizendo sim que se fazem os começos, até os começos das desistências. Quando se tem memória para guardar os dias, até o salitre vira refúgio, pois na memória ainda existe, entre tantas outras luzes, o salitre que carcomia as paredes da infância, na casa do sal, na casa do sol e do vento. Constato que a memória é uma casa.

Mesmo para os que vivem com avidez demasiada, sempre chega a hora dos cuidados. Os cuidados ficam sendo o mais importante. É preciso cuidar, esperar a cura, esperar-te, dia adiado. Os cuidados devem ser mais fortes e maiores do que o amor. Até a felicidade, essa intermitência, deve ficar em segundo plano, deixar de habitar as vontades, não se sabe por quanto tempo. Talvez se tenha de exilar para sempre nas coisas baldias. Ou talvez não.

Tua noite me chama de dentro da minha noite. Como posso regressar a mim, sem correr o risco de ser-te?

Cedo a minha imagem ao teu espelho pleno de olhos e facas, com o consentimento de quem já fitou o inferno. O dia depois de amanhã será mais brando, mas o hoje arde e encandeia. Arde e desnorteia. Arde e incendeia.

Mas, é assim. Ninguém sabe o dia depois de amanhã. Ninguém te adivinha. Ninguém reconhece as tuas ciladas.
Cedo às tuas folhas prestes a cair dos galhos, porque eu mesma me reconheço outono. Tu me escreves como quem, se falasse, murmuraria. Mas tu não falas, dia adiado, tu não dirás o sim.

Cedo aos teus longes, às tuas fugas, eu que tantas vezes me alimentei das distâncias escusas, eu que jamais deveria ter deixado de perceber do amor as certezas migrantes. É hoje, não amanhã. Foi ontem e não é hoje. O amor é nômade, e quando deixa a casa, às vezes nem mesmo permanece nos escaninhos da memória.

Quero seguir em direção a ti, dia adiado, e não sei por onde seguir. Não aprendi a consultar as bússolas. O dia de hoje abocanha os meus passos e meu senso. O dia de hoje é faminto. Eu tenho sede.

Por isso, cedo. Cedo ao teu silêncio pernoitado, eu que já calei dentro de mim tantos sonhos insones, no suceder dos dias. Agora tu me chegas, dia adiado: hoje, amanhã e o dia depois de amanhã. O dia dos nuncas.

Cedo a ti uma tonta tristeza que deu de me dar nos últimos dias, porque já tive alegrias, porque conheço festejos. E porque sei que festejos cansam e alegrias criam faltas.

Mas, ao fim e ao cabo, tu hás de chegar a mim e és tu que terás de me ceder o que guardas, dia adiado. Por mais que tu te escondas, eu te conhecerei inteiro.

Eu te espero.

Mas, de todos os dias, como só tu, dia adiado, te demoras…

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Tião Carneiro 6 de junho de 2013 10:48

    Deixe de ser ingrato, dia adiado. Apareça pra moça. E, por favor, moça, não fique adiando os dias de seus textos, não, tá? Porque, ao adiá-los, você nos adia o enlevo de prazerosa leitura.

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