Cartas a Nora Barnacle / James Joyce

“ Todas as cartas de amor são ridículas, não seriam cartas de amor se não fossem ridículas”. FP

No dia 10 de junho de 1904 Joyce conhece Nora Barnacle e se apaixona momentaneamente. No dia 16 de junho Joyce passeia com Nora e experimenta momentos de beleza e transcendência, suas célebres epifanias. Por esse motivo o escritor escolheu esse dia como o dia de Bloom, o Bloomsday. Dia Em que transcorre toda a ação do Ulisses.

As famosas cartas de Joyce a Nora foram publicadas pela Massao Ohno, com tradução da Mary Pedrosa.

Cartas muitas vezes picantes e que revelam um outro lado do escritor genial que iria revolucionar a literatura com seu Ulisses, em 1922. Um livro de amor. Um livro que também é uma homenagem a Nora.

Selecionamos quatro dessas cartas ( trechos) para comemorar o Bloomsday2010.

15 de agosto de 1904

Minha cara Nora. Neste instante soou uma hora. Cheguei em casa às onze e meia. Desde então estou sentado numa poltrona como um cretino. Não posso fazer nada. Não ouço nada a não ser a tua voz. Estou como um cretino a ouvir-te chamar-me querido. Ofendi duas pessoas hoje ao deixá-las com frieza. Queria ouvir a tua voz, não a dos outros. Quando estou contigo deixo de lado o meu temperamento desconfiado e desdenhoso. Quisera estar sentindo agora tua cabeça sobre o meu ombro. Penso que vou deitar-me.
Levei meia hora escrevendo isto. Vais escrever qualquer coisa para mim? Espero que o faças. Como assinar esta carta? Não vou assinar nada, porque não sei que nome usar.

7 de Setembro de 1909

Minha Norazinha silenciosa. Dias e dias se passaram sem carta tua, mas creio que pensaste que eu já teria embarcado. Partimos hoje à noite. Lá para o fim da semana ou no domingo havemos de estar juntos, espero.

Agora, minha Nora querida , quero que releias e tornes a reler tudo que te escrevi. Há uma parte feia, obscena e bestial, e há uma parte santa e espiritual: tudo junto sou eu. E Penso que agora compreendes o que sinto por ti. Não vais mais brigar comigo, vais, querida? Estou cansado hoje, caríssima, e gostaria de dormir em teus braços, não fazer nada, mas somente dormir, dormir em teus braços.

Como vai ser longa a viagem de volta, mas que glória vai ser nosso primeiro beijo. Não chores, querida, quando me vires. Quero ver-te de olhos brilhantes e lindos. Qual será a primeira coisa que me dirás, imagino?

La nostra bella Trieste!*

Tu me amas, não é verdade? Agora vais acalentar-me no teu peito e abrigar-me e talvez ter pena de mim por meus pecados e loucuras e guiar-me como a uma criança.

Naquele peito amigo estar eu queria.
(que é tão amigo e belo de verdade!)
Onde ia ficar a salvo da ventania.
Devido à amarga austeridade
Naquele peito amigo estar eu queria.”

A Nora Barnacle Joyce
22 de dezembro de 1909
Rua Fontenoy, 44, Dublin.

Nora, minha querida

Remeto pelo correio (expresso e registrado, com valor declarado) um presente de Natal*. É a melhor coisa (mas afinal muito modesta) que posso oferecer em retribuição ao teu amor fiel, verdadeiro e sincero. Pensei em todos os detalhes nas noites de insônia, ou nos carros em disparada ao redor de Dublin. Acho que o presente acabou ficando bonito. Entretanto, mesmo que vá causar somente breve rubor de prazer em teu rosto no primeiro momento em que o vires, ou se fizer teu coração amoroso, terno e leal dar um súbito salto de alegria, eu me sentirei muito, muito bem recompensado de todos os meus cuidados.

Talvez este livro, que agora te envio, sobreviva a nós ambos, a mim e a ti. Talvez os dedos de algum rapaz ou moça (filhos de nossos filhos) virem reverentes estas folhas de pergaminho, quando os dois amantes cujas iniciais estão entrelaçadas na capa tenham há muito desaparecido da terra. Nada há de restar, então, minha querida, de nossos pobres corpos humanos movidos pela paixão; e quem poderá dizer onde vão estar as almas que em seus olhos contemplavam uma a outra. Eu pediria que minha alma fosse espalhada no vento, se Deus me deixasse apenas soprar suavemente, para sempre, em redor de uma flor azul escuro, estranha e solitária, numa sebe agreste de Aughrim ou Oranmore.
Jim.

16 de Dezembro de 1909

Minha doce queridinha. Até que enfim tu me escreves!. Deves terá tua bucetinha
Levada uma esfregação feroz para me escrever uma carta tão desconexa. Quanto a mim, querida, estou tão esgotado que tu terias que levar uma hora a lamber -me para que eu ficasse com o pau duro para meter nas bordas de tua boceta, quanto mais para uma foda completa…

* O presente que ele Joyce enviou a Nora era manuscrito encadernado do livro “Música de Câmara”

Em Trieste, norte da Itália, onde vive uma quadra importante de sua tumultuosa vida. Nessa cidade nasce a sua filha Lúcia e é em Trieste que Joyce começa a escrever O Retrato do Artista quando Jovem.
Na bela Triste ele leciona Inglês e conhece o escritor de Senilidade, Ítalo Svevo

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