Cartas dos ventos

Por Roberto Cardoso

Os ventos sempre trazem notícias. Das tristes ou bélicas, chegando as belas e alvissareiras. Os ventos que antecipam as precipitações atmosféricas denunciam a intensidade da chuva que se aproxima. Assim como o cheiro do café transportado pelo ar em suaves movimentos, identificam se o grão está sendo torrado, ou o café já torrado e moído, sendo passado, com um volume de água quente, em coador ou cafeteira. Gritos e sons dos índios assustaram os conquistadores nas florestas. Tal como até hoje, ainda há uma crença sobre os sons da rasga mortalha, antecipando e anunciando acontecimentos. Pelo ar e pelos ventos correm as notícias. Já passamos pelas ondas de rádio e de TV. E chegamos ao Wi-Fi, como argumento tecnológico e cientifico.

Natal no RN, como pontos estratégicos na extremidade de um continente, sempre recebeu notícias que chegaram com os ventos. Primeiro foi o marco de Touros/RN, que trouxe e marcou a primeira visita no continente de povos europeus, determinado uma posse com o marco chantado. E depois chegaram outras caravelas ao sabor dos ventos. Chegaram portugueses e holandeses para construir, disputar e ocupar um local na foz do rio Potengi, onde surgiu a cidade de Natal, tendo o forte dos Reis Magos como um marco histórico de acontecimentos, de frente para os ventos vindos do horizonte. E desde este momento Natal/RN é interpretada como localizada em um ponto estratégico, por povos de outros mares e outros ventos. E foi com os ventos que as primeiras notícias partiram do Brasil, levando a carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel em Portugal.

Das caravelas surgiram outros transportes marítimos, como os vapores e os navios, que com o conhecimento dos ventos atravessaram o oceano e aportaram em Natal, trazendo livros, revistas e jornais de outras plagas e outros países. Trouxeram informações e conhecimentos para Câmara Cascudo. As novas cartas que traziam informações e conhecimentos em forma de notícias e literatura. Cascudo citou a cidade como noiva do Sol, mas percebemos e identificamos que também é prima dos ventos.

O homem inventou o avião, e logo depois da Primeira Grande Guerra, chegaram os franceses, trazidos por aviões planados sobre os ventos. Implantaram o correio aéreo postal entre a Europa e o Brasil. Saint-Exupéry e Mermoz trouxeram malotes com inúmeras cartas e documentos. Natal foi uma importante escala, no limite do oceano com a terra. Foi para muitos aviadores, com o novo meio de navegação, o anuncio do descanso e da chegada. A terra à vista. Fernando de Noronha anunciava uma chegada, a proximidade do continente. E criaram-se as pistas, anguladas com os ventos.

Na Segunda Grande Guerra, chegaram os americanos instalando uma pista, batizaram como Parnamirim Feeld, com os estudos dos ventos. E deixaram o nome de Trampolim da Vitória. Com cartas meteorológicas de ventos programaram seus voos com destino a um teatro de guerra. Natal como ponto estratégico também já foi considerada cidade espacial, lançando foguetes para pesquisar outros ventos em outras camadas da atmosfera. Hoje ainda se acredita em um HUB, com aviões voando mais alto. Com um polo tecnológico pode tornar-se a cidade dos e-ventos.

E novas notícias chegaram em Natal. Agora os ventos podem produzir energia. Podem ser considerados como uma nova matriz energética. Aconteceu em Natal um evento nos dias 18 e 19 de abril de 2016:  Fórum Nacional Eólico + Solarinvest, com destaque na energia eólica e energia solar, como investimentos e alternativas para combustíveis e energia. A citada alternativa e solução para países em desenvolvimento, com carência de pesquisa e tecnologia. Podem usar os ventos, que europeus já possuem pesquisa e tecnologia para construção, instalação e financiamento. Enquanto o Brasil tem os ventos, outros países têm produtos e serviços eólicos prontos para serem vendidos.

Assim como a energia hidrelétrica incentivada e implantada em outros momentos, a eólica e a solar, são reconhecidas agora como energias de fontes alternativas, causando um menor efeito e impacto sobre a fauna e a flora. Hoje é reconhecido que as instalações de hidrelétricas provocam a inundação de um grande bioma, que não pode ser recomposto com capturas de animais antes da inundação. E declara-se a todos os ventos que energia solar e eólica causam um menor prejuízo ao ambiente.

O som provocado pelo vento ao passar pelas pás dos aero geradores são as ultimas noticias. Promovendo uma dispersão de pássaros e mamíferos. O povo local evitando habitações próximas as torres de vento, com suspeitas de alterações psicológicas, com o barulho produzido, e as empresas eólicas usando como argumento a segurança. Um som percebido, mas ainda não totalmente decifrado, com notícias de invasões, de pesquisas ou alvissareiras. Lembrando que uma carroça faz mais barulho quando esta vazia.

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