Cartas para Maria: O segundo olhar

Menina no tapete vermelho, 1912. Felice Casorati ( Itália 1883-1963) – óleo sobre tela

Você é um mundo. Tive vontade de lhe dizer isso, mas não vi como. Deixei criar uma barreira tão densa entre a gente que não sei mais como transpô-la. Lembro de seus olhos pequenos e assustados, de quem vê a vida vindo sem freios. Eu sou um pouco dessa vida e não sei ser diferente.

Foi engraçada a surpresa do segundo olhar. Você é tão linda que, cá dentro, algo me faz orgulhoso. Sei que todas as filhas são lindas, mas você é linda mesmo, sem proteção alguma. Quando era criança, queria ser bonito também e acho que transfiro um pouco disso para você. Há coisas que você terá que nunca tive e é como se a sua conquista completasse os vazios que carrego.

Você é muito diferente. Muito mesmo. Eu, na sua idade, era apenas um menino.

Tenho muitos medos. O de ser pai é um deles. Quando você nasceu eu nem tinha 20 anos. Havia parado de estudar e abandonado as expectativas. Na verdade eu nunca soube o que queria ser e sempre me sentia sozinho.

Não dei o sorriso que sua mãe queria ao me dizer da gravidez. Não porque não amasse você, já amava antes disso, mas porque tinha medo que sua vida se tornasse como a minha. Escrever essas cartas tem a ver com tudo isso.

Essa dúvida insistente de não saber se o amor que lhe devoto tem a sua altura, me fragiliza. Quero muitas coisas de você, mas temo querer obrigá-la, mesmo inconscientemente, a fazer de sua vida uma extensão de meus sonhos. Mas também temo estar deixando passar a oportunidade de lhe ensinar sobre a vida e seus desígnios. Tenho minhas derrotas como exemplo. Não quero que chegue aos 30 sem ter certeza de sua própria vida.

Eu queria mesmo era saber como conversar com você. Queria ter menos medo de errar e preencher as brechas que vamos deixando. Mas você está crescendo muito rápido e eu não consigo mais entender o seu olhar. Às vezes, me sinto um completo estranho.

A pior coisa de ter filhos é não poder criá-los. Morar longe de você me torna menos pai. Cumprir apenas as obrigações sociais é triste. Isso não representa a paternidade que queria estar lhe dando. Deveria protegê-la como antes, quando passava a noite acordado vigiando o berço. Quando lhe deixava e pegava na escola. Mas a vida muda sem a gente perceber e eu sei que me distanciei mesmo quando tínhamos a mesma casa. Eu estava tão preocupado comigo que devo ter esquecido você muitas vezes.

Agora o que o que tenho é essa incerteza. Queria entender o que você vê quando olha para mim, mas tenho medo da resposta.

Filho de Apodi/RN é Jornalista, assessor de imprensa e eventos do Instituto do Cérebro da UFRN. Membro do coletivo independente Repórter de Rua, articulista no Jornal de Fato (www.defato.com) e organizador da Revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com).rinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 10 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dez − quatro =

ao topo