Cartazes antigos

Por Demétrio Diniz

Descubro no primeiro andar mal iluminado e vazio de um café, enfileirados na parede, cartazes de filmes antigos. Vou traduzindo do espanhol os títulos, que lembram os dos folhetos de cordel: O Tenebroso dom Sebastião, O Capataz Malvado, Uma Senhora sem Alma, A Múmia do Deserto, Um Caubói sem Glória. Todos do tempo em que as fotos de Ingrid Bergman, Audrey Hepbum e Ava Gardner {foto} (esta com seios monumentais) excitavam estudantes nos quartos de pensão.

Em Mossoró eu saía à noite pra ver os cartazes do Cine Caiçara, do Pax, e às vezes até do Jandaia, lá longe no subúrbio, aonde ia caminhando a pé para espantar de mim o que nunca soube o que era. Tinha raiva da idade, que me impedia de ver alguma cena erótica. Fantasiava em tomar uma poção mágica e, invisível, passar pelo porteiro, o comissário de menores fumando à direita da porta, e o lanterninha. Contentava-me, assim, em ver somente os cartazes, e com eles colar as cenas de um filme imaginário.

Algumas vezes me incomodavam os filmes históricos. Com fome, assistia a Ricardo I de Inglaterra saborear uma enorme coxa de peru, quando se me tornara insuportável o angu de milho da pensão. Saía do cinema jurando por Deus que um dia comeria um pedaço igual, e ia dormir alimentado de guerras e traições, compensado só pela beleza e coragem da rainha Leonor, mãe do rei glutão, que largou o marido e a corte para lutar ao lado do filho.

Se em Mossoró dispunha pelo menos da liberdade de peregrinar pelos cinemas, de Cajazeiras, na Paraíba, chega uma lembrança pior. De dois em dois meses, à noite saíamos do internato e atravessávamos a cidade em direção ao morro do seminário, caminhando em fila indiana pelas ruas penumbrentas. Guiados por dois padres italianos, um na frente e outro atrás da fila, o passeio era o prêmio que os meninos bem comportados ganhavam, além de medalhinhas de São Domingos Sávio e retratos de Dom Bosco. Ao passarmos pelo cinema, soava a ordem de não se olhar para os cartazes. Na ida se virava a cabeça para a direita — o cine Rex ficava à esquerda —, e o contrário na volta. Nem de soslaio me aventurava a reencontrar Tom Mix e Billy the Kid, meus conhecidos dos quadrinhos. Na enfermaria do internato adoeci depois de um incômodo que viria a se tornar crônico: o mal do estado de alerta. O padre Rogério, um dos dois que diziam ser o cinema uma casa de imoralidade, a pretexto de examinar os caídos de cama, se excitava ao descobrir sob o pijama o pinto dos meninos.

Os títulos pomposos dos cartazes encontrados em Santiago remetem também aos circos que de ano em ano apareciam em Mombaça, e ao final da função apresentavam um melodrama. Arrepiava-me o histrionismo, a fala exageradamente impostada, os erros banais de linguagem. Não esqueço a cabeça de um carneiro na bandeja, a atriz falando altissonante com o rei Herodes: Eis aqui, senhor, a cabeça do profeta João Batista! A gente já sabia: no dia seguinte a cabeça do homem belo e alinhado — por quem Salomé enlouquecera de paixão — seria servida à trupe, ossos, miolos, traqueia e vísceras, tudo cozido junto, como mais uma iguaria sertaneja.

Assisti a poucos espetáculos. O pai empatava. Não comprava ingresso nem permitia o prazer estonteante de gritar palhaço, e que me garantia entrar de graça no circo. Ai de mim se rastejasse pela cerca e entrasse por debaixo da lona. Era tudo coisa de moleque de rua, ele achava. Ainda recordo a mão pesada descobrindo o sinal feito de carvão com que eram assinalados os meninos do grita-palhaço, e do cinturão descendo com força e veloz nas minhas costas.

Sua raiva foi maior ainda quando uma manhã bem cedo chegou à loja a notícia de que a filha Gerusa fugira com o trapezista. O pai já andava abalado: a irmã dele, minha tia Neném, há pouco deixara o marido com uma ruma de filhos e fundara em Mombaça um cabaré.

Quando soube de Gerusa treinando no circo o voo da morte, o pai tirou os pés do chão como se uma bomba o tivesse arremessado. Falava em comprar uma propriedade no Ceará. Talvez devido às canções falando no meu Ceará — como se este fosse de todos uma terra íntima —, ou ainda porque lá viviam alguns parentes, o Ceará era um lugar mítico na família, um lugar onde se poderia ficar a salvo dos reveses. O nome da propriedade era Pitombeira. Eu sonhava em amarrar no tronco dessa árvore o meu carneiro Belém, já me vendo dono de um carneiro que nunca tive.

O pai passou a viver entre o delírio e a afobação, que é o destino dos que não conseguem enlouquecer totalmente. Um dia descontrolou-se com Nicó, o papagaio da casa, e torceu-lhe o pescoço. A experiência mais que longa da ave centenária não a ajudou a preservar-se. Cantava, tão logo o pai chegasse da loja, o refrão do grita-palhaço, chamando no final por Gerusa. Tive que ver Nicó no monturo, o pescoço descangotado, e as penas arrepiadas como se o vento da morte as tivesse soprado.

Parafusei nessa tarde mais uma perda das várias que viriam pela frente.

Contista e poeta. Autor, entre outros, dos livros de poesia “Haveres”, “Ferrovia”, “Beleza Distante”, e de contos “Sob o Céu de Natal”, “Idas e Vindas de São Serapião”, “O Amor Fora de Época de Felipe Flores”. [ Ver todos os artigos ]

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