Casa grande requer senzala

Gilberto Freyre foi um erudito brilhante, o que independia de suas posturas políticas. Prova disso está no título (e no conteúdo, é claro) de sua obra-prima “Casa grande & senzala”: não há casa grande sem senzala, não há esplendor aristocrático sem escravidão.

Gilberto tratou de edulcorar a escravidão, realçando o tesão dos senhores pelas escravas (o tesão das senhoras pelos escravos é citado brevemente, sob o signo da repressão: seria bom saber mais sobre isso, fêmea da aristocracia também sentia tesão, macho escravo também tinha encantos para quem apreciava o material). De quebra, Freyre, pensador original, recuperou a humanidade dos escravos – padrões deles formaram o Brasil, junto com os de outros grupos humanos. Havia esplendor na escravidão – odores, sabores, sensações variadas -, de acordo com a leitura de Gilberto.

A FSP de hoje (24.1.11) publicou coluna de Luiz Felipe Pondé com o título “Casa grande”. Ele defende um modelo elitista de universidade – quer dizer, defende o que já existe, denunciando as “universidades” fakes destinadas aos mais pobres.
Ser conservador não abole a necessidade de lógica mínima. Se é para defender o esplendor das elites (não existe vinho francês para todos, conforme Pondé, esquecendo das safras alemãs, italianas, turcas, chilenas, sul-africanas, australianas, californianas e tantas outras – até algumas gaúchas: farinha pouca, meu pirão primeiro), a coerência impõe a reimplantação da escravidão. Já existem boates que anunciam leilões de escravos (ou escravas) sexuais – escravidão temporária e mais ou menos voluntária, mas escravidão. Já existem espaços pornô onde escravos sexuais são expostos ao uso público. E existem fazendas e fábricas usando diferentes modalidades de mão de obra escrava – trabalho sem remuneração, impedimento de livre movimentação antes de saldar dívidas. O admirável mundo novo-velho de Pondé está chegando.
Aproveito para informar que não mais comentarei Pondé e outros cronistas conservadores da FSP e de órgãos similares. Melhor deixá-los em sua ilusão de magnificência que procura disfarçar a mediocridade gritante de quem não tem o que dizer e dos órgãos que os promovem como novos gênios da raça.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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