Cascudinho e a receita para uma vida feliz

Não se pergunta a um mito se ele foi ou não feliz. Pode-se simplesmente aferir que, em tendo sido um mito, foi feliz. De outro modo, de que serviria haver mitos, mesmo os mais exemplares, se nódoas de desventura lhes toldassem a saga? É por essa razão que o escritor Diógenes da Cunha Lima e a pedagoga Cristine T. da Cunha Lima Rosado não tiveram trabalho com esse tópico da vida do menino Luís da Câmara Cascudo, mito que três ou quatro gerações de norte-rio-grandenses vêm construindo diuturnamente por razões obvias: é o nosso mito incontroverso.

Diógenes e Cristine partiram de onde muitos gostariam de chegar: ao fato consumado de que Cascudo, menino, brincou de ser feliz e tomou gosto pela brincadeira e, para prolongá-la, trabalhou obstinadamente a fim de adquirir sabedoria e ser útil, natural forma de gratidão de quem foi contemplado desde a tenra infância com bens de ordem tão rara como a ventura e a benemerência.

Esse outro Cascudo, aliás Cascudo menino, foi apresentado oficialmente aos natalenses no dia 13 último, na área aberta e contígua ao casarão da Junqueira Aires, hoje conhecido como Instituto Ludovicus. Cristine e Diógenes autografaram algumas dezenas de exemplares de seu “Cascudinho, o Menino Feliz”, obra ricamente ilustrada por Marco Antonio Godoy e chancelada pela Cortez Editora, em meio a recital coletivo de trechos do livro.

Alguma coincidência de título com “Cascudo, um Brasileiro Feliz”, do próprio Diógenes, dessa vez contemplando o escritor em sua fase adulta? É de crer que não, pois estender o condão da felicidade à infância de Dom Luís seria quase uma tautologia, consequência direta de uma condição que, com mais razão, o bafejaria nos seus começos de vida.

E para não se afastar da condição de mito de que se revelaria merecedor, Diógenes/Cristine rememoram em seu livro comum um episódio que associa dois outros mitos autóctones ao biografado, numa alternância de ações que o capturam em seus primeiros movimentos vitais. Isso ocorre quando do nascimento de Cascudo: após ser batizado pelo Padre João Maria, cognominado “o Santo de Natal”, o feliz infante recolheu-se ao colo de Auta de Souza, a beatífica poetisa de “Horto”. Fatos assim não são jamais fortuitos. Nem desmentidos. Faltava, porém, que Diógenes e Cristine o dissessem em alto e bom som, como o fizeram agora nesse livrinho escrito a quatro mãos.

A geração de crianças que está se iniciando na leitura, entre nós, vai se tornar, mais na frente, uma geração de adultos informados sobre esse fato crucial na vida de Cascudo: ele foi feliz tanto na infância quanto na idade adulta. Mas talvez valesse uma retificação: ele foi feliz na idade adulta porque teve uma infância feliz. E é fácil entender que fosse assim, porque como imaginar o contrário, isto é, que de uma infância não feliz resultasse um adulto feliz?

Os dados da biografia de Cascudo estão distribuídos, em linhas gerais, em todo o texto do livro, mas salteadamente e sem se prender a detalhes. Quem foram seus mestres? Quem foram seus colegas de folguedos? Quais eram seus amigos mais chegados? Em compensação, há abundantes informações sobre o que o menino Cascudinho gostava de fazer e fazia com frequência, especialmente sobre sua curiosidade ilimitada, sua busca por saber e ser útil, além de como fez dessa busca e dessa aprendizagem uma forma de felicidade.

Assim, o bordão da felicidade é recorrente, mas somado ao do aprendizado. Ao leitor mirim é ensinado que deve se esforçar para aprender, a exemplo de Cascudinho, pois “quem vive aprende e quem aprende tem o que ensinar”. Faltou apenas acrescentar que, em decorrência dessa aprendizagem, pode-se alcançar certa espécie de felicidade, talvez a mais realista, pois depende, em grande parte, tão somente de um desejo genuíno de aprender do próprio aprendiz.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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