Cascudo e Camões nos cinco lustros de encantamento do erudito potiguar.

Foto de Carlos Lyra

A obra cascudiana é um arquipélago, pela multiplicidade e pela variedade dos territórios que a integram, diz um de seus grandes leitores e biógrafos, Américo de Oliveira Costa, em “Viagem ao Universo de Câmara Cascudo”.

Cascudo é um adepto fervoroso da longa duração e a Divina Comédia pode chegar à igreja do Senhor Bom Jesus das Dores da Ribeira em Natal, na voz de uma fiel zeladora: “No céu manda Deus e na Igreja manda o Papa…”. Nas trinta “Estórias Brasileiras, Cascudo ouve a velha Bibi como uma Scherazade. Como foi isso Bibi? Eu lhe conto… E a “estória” começava. Parece que estamos lendo as Mil e uma Noite, o Pantchatantra, o Hitopadexa, o Calila e Dimna, o Tuti Namé, Livro de Lucanor, etc. Ler Cascudo é dialogar com a grande literatura universal, que são matrizes da nossa cultura popular.

Miguel de Cervantes, autor do clássico Dom Quixote de la Mancha, é um autor chave na ligação que Cascudo faz entre a idade média e a cultura popular brasileira. Cascudo publicou “Don Quijote no folclore do Brasil” na “Revista de Dialectologia e Tradiciones Populares”( Madrid 1952). Esse texto depois foi incluído no prefácio da melhor edição brasileira do Dom Quixote de la Mancha, editada pela José Olympio, em várias edições na década de 1950. Miguel de Cervantes também aparece em várias outras obras do Cascudo, tais como Prelúdio e Fuga do Real e Literatura oral.
Outro grande autor renascentista com quem Cascudo dialoga é -Luis de Camões -, que escreveu três autos nos moldes da escola vicentina. São eles Anfitriões, El rei Seleuco e Filodemo. Cascudo publicou um pequeno opúsculo com o título “O folk-lore nos autos Camoneanos (Depto de Imprensa 1950)”. Camões utiliza nesses autos muitas expressões populares, rifões, brincadeiras infantis e costumes populares. Cascudo extraiu e analisou algumas dessas brincadeiras e ditos populares tão ao gosto do século camoniano e vicentino.

Auto chamado dos Anfitriões (1ª ed. 1587):

– Quem poupa ao inimigo morre às suas mãos.

– Patrão vossa boa estrela
Alusão astrológica à estrela da pessoa na hora do nascimento

– No alho a mis males culpa
O alho – escreve Cascudo, possui uma literatura universal e vasta. Seu olor afastava os feitiços e também as amorosas o detestavam. Evitava tempestades e seres sobrenaturais.
No D. Quixote de la mancha (1605 – 1615), Quixote aconselha Sancho Pança a não comer alho nem cebola para que “O hálito não denuncie a vilania dos teus hábitos” (D. Quixote 2ª parte).
Ainda no Auto dos Anfitriões: – Do perigo foge os pés / Do diabo o coração.
– Jogais comigo a panela? De metal ou barro, a panela cheia de pólvora, era arremeçada ao inimigo.

Auto Chamado Filodemo (1ª ed. 1587)

– Que por muito madrugar/ nam amanhece mais azinha (ed. anotada pelo prof. Marques Braga 1928, utilizado por Cascudo)

Por muito madrugar o sol não sai mais cedo. Azinha significa rápido (depressa), e é uma palavra muito utilizada por Camões e Bocage. Encontramos também essa palavra na poesia do poeta potiguar Lourival Açucena (1827- 1907). Para Açucena, o amor é uma rolinha “leda” e tão “azinha” (Soneto à D. Maria de Melo Azevedo). Leda tem o significado de alegre.
O D. Quixote é um rico manancial de provérbios e rifões bem ao gosto do renascimento de Camões. Excelentíssimo Camões, como dizia Cervantes. O provérbio acima comentado aparece na II parte do Quixote; – Mas vale al que Dios ayuda que al que mucho madruga (mas vale a quem Deus ajuda do que a quem muito madruga ).
A paremiologia popular é o conjunto de provérbios, adágios, rifões, etc, e forma a síntese da cultura popular. Muitos desses ditos da sabedoria popular, utilizados por Camões e Cervantes, ainda são muito freqüentes no nordeste brasileiro. – Mas vale bom nome que muita riqueza (D. Quixote). – Sempre ouvi dizer: Quem canta seus males espanta (D. Quixote)

Gil Vicente (1465-1536) considerado o primeiro grande dramaturgo português, escreve: – Quem chora ou canta, fada más espanta. “Parece-me, Sancho, que não há rifão que não seja verdadeiro, porque todos eles contêm sentenças consagradas pela experiência, mãe de todo saber” (Cervantes in D. Quixote).

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