Cascudo e sua possível “biografia intelectual”

A notícia da publicação de uma possível “biografia” do escritor Luís da Câmara Cascudo, mesmo que seja para daqui a dois anos, é capaz de merecer ampla cobertura dos cadernos de cultura dos nossos principais jornais, com repercussões candentes em todos os meios culturais da cidade.

Foi o que aconteceu com a matéria “Pensando como o mestre” – assinada por Maria Betânia Monteiro e editada na capa do caderno “Viver” desta TN no dia 4 passado. No subtítulo informava a repórter: “Historiador Durval Muniz prepara a biografia intelectual de Luiz (sic) da Câmara Cascudo, obra que vai revelar o homem múltiplo que ele foi”.

Há uma ressalva, portanto, nessa “biografia” idealizada por Durval Muniz, historiador paraibano atualmente lotado no Departamento de Pós-graduação em História da UFRN. É que não se trata propriamente de uma biografia de mestre Cascudo; trata-se mais da tentativa de descrever as linhas mestres do seu pensamento partindo das marginálias que ele deixou nos livros que leu. É isso que o Durval Muniz chama de “biografia intelectual” e que deveria constituir tema incontornável de quem se proponha a escrever a esperada biografia do autor da “História da Cidade do Natal”.

É evidente que anotações e observações deixadas à margem dos livros lidos não bastariam para levantar um roteiro abrangente e detalhado do pensamento cascudiano. Para compensar essa lacuna, o pesquisador diz que utilizará outras fontes, como cartas, livros escritos e artigos publicados na imprensa. E aí é de se lamentar que os originais de obras decisivas para a compreensão do pensamento cascudiano, como “Prelúdio e Fuga do Real”, “Historia da Alimentação no Brasil” e “Civilização e Cultura” estejam perdidos. Em vista disso, não há de se subestimar o trabalho a que se propõe o historiador paraibano, porque deparará com grandes lacunas… De todo modo, uma obra com tais características significará uma contribuição valiosa para a compreensão do pensamento cascudiano e, consequentemente, de sua obra.

De fato, embora ainda embrionária, a pesquisa de Durval já está surtindo alguns efeitos positivos, na medida em que coloca no centro dos interesses intelectuais de Cascudo nomes nacionais outros que não o de Mário de Andrade, referência por demais conhecida e documentada. Um desses é o do cronista João do Rio, cujo método de trabalho Cascudo teria copiado – só falar de um personagem ou de um grupo de pessoas, depois de ter estado com eles –, o que leva o pesquisador paraibano a ver em nosso folclorista “quase um alter ego de João do Rio”. Influências como as dos clássicos gregos e latinos também se sobressaem, mas com pouco em nenhum impacto devido a serem por demais óbvias. Dentre outras curiosidades da vida intelectual cascudiana, Durval enumera a decepção de Cascudo com a leitura do Zaratustra de Nietzsche. As simpatias de Cascudo pelo movimento integralista e por Adolf Hitler são assinaladas por Durval como fruto do contexto da época e de suas ligações com o catolicismo. Abstém-se, porém, de tecer julgamentos, objetando que um historiador deve se limitar a entender o personagem que está sob seu foco de investigação.

Seja como for, qualquer anúncio dando conta de que alguém está finalmente enfrentando o desafio de escrever a biografia de Câmara Cascudo suscita, de imediato, interesse e discussão nos meios culturais os mais diversos. Uma “biografia” ainda que ressalvada como “intelectual”, como se trata dessa obra projetada pelo historiador paraibano, não foge à regra, e mostra as inúmeras lacunas que cercam a vida e a obra do nosso mais importante intelectual, passados 24 anos de seu falecimento.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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