Cascudo, a grande solidão

Por Vicente Serejo
NO NOVO JORNAL

Tenho sustentado, Senhor Redator, sob o olhar desgostoso de alguns, o pobre despreparo das instituições culturais na promoção do nosso melhor produto de exportação: Câmara Cascudo. Vem de longe o festival de floreios e florilégios em torno daquele que, vinte e cinco anos de morto, ainda tem sua grande obra pouco conhecida entre nós. Mesmo sendo um dos maiores estudiosos da identidade brasileira, com um acervo ainda capaz de quebrar e vencer paradigmas nacionalmente consagrados.

Não fosse a iniciativa do professor Humberto Hermenegildo, criador e organizador do Núcleo Câmara Cascudo, no âmbito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e nem lá, certamente, teria sido possível despertar o interesse acadêmico da instituição de ensino superior que ele ajudou a fundar. E onde proferiu a conferência ‘Universidade e Civilização’, sua aula magna de instalação. No mais, temos apenas os preclaros cascudólogos e cascudófilos jogando flores sobre a sua escrivaninha.

E nenhuma evidência foi mais contundente na demonstração da má condução da valiosíssima herança intelectual de Cascudo do que a sua grande e injustificável ausência nas obras organizadas e publicadas nos 500 anos do Brasil. Não inclui-lo significou aceitar o retrato incompleto deste país de cinco séculos, na medida em que lá estavam os nomes de sua contemporaneidade – Gilberto Freyre, Sérgio Buarque, Nelson Werneck, Caio Prado Jr., Celso Furtado e Antônio Cândido, entre outros.

Quantos acompanharam o lançamento das coleções de obras referenciais sobre a identidade brasileira nos quinhentos anos do Brasil e notaram a ausência de Cascudo? Bem poucos, a julgar pelo descaso com que avaliam essa questão. Enquanto outros nomes chegaram ao Museu da Língua Portuguesa com sobradas condições técnicas e financeiras, Cascudo precisou cumprir o roteiro de uma quase mendicância por patrocínios e apoios locais e nacionais através da lei de incentivo federal.

Agora, anuncia-se uma série de documentários baseados no livro do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso – ‘Pensadores que inventaram o Brasil’, Companhia das Letras, São Paulo, 2013, e serão narrados pelo próprio FHC. Por isso mesmo lá estarão os que estudou nos seus ensaios, posto que são só os de sua preferência: Joaquim Nabuco, Euclides da Cunha, Paulo Prado, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., Florestan Fernandes, Celso Furtado e Raymundo Faoro.

Mesmo assim, tão sozinho, e como sempre viveu na solidão do seu chalé da Junqueira Aires, onde fundou sua própria Escola de Sagres e do seu pequeno promontório conquistou o mundo, Cascudo tem chegado a toda parte. É fácil vê-lo na bibliografia dos livros lançados em todas as línguas estudando o Brasil. Longe dos olhos da sua gente que revelou com uma nobreza que só nasce no espírito humilde e genial dos que dispensam – pra que negar? – a glória, vã e pobre, dos florilégios.

Comentários

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  1. Marcos Silva 13 de setembro de 2015 23:58

    Fiquei muito contente com a notícia sobre a exposição que o Museu da Língua Portuguesa (São Paulo, SP) dedicará a Câmara Cascudo. Demorou um pouco mas veio, felizmente. Além do excelente trabalho de Humberto Hermenegildo de Araújo na UFRN, vale lembrar o grupo de estudos que Margarida de Souza Neves (PUC/RJ) tem dedicado aos descobridores do Brasil no século XX, que tem abordado Cascudo com zelo. E os trabalhos de Marcos Moraes (IEB/USP), Marisa Lajolo (IL/UNICAMP) e Telê Ancona Porto Lopes (IEB/USP) têm dedicado muita atenção ao trabalho de Luís. Certamente, esse louvável esforço merece continuidade e ampliação. Quanto aos critérios intelectuais de Fernando Henrique Cardoso e da Cia. das Letras, são parciais mas Câmara Cascudo é maior que isso. Os jovens organizadores da coletânea INTÉRPRETES DO BRASIL (Lincoln Secco e Luiz Bernardo Pericás, ambos da USP), publicada pela Boitempo, souberam incluir Cascudo naquele livro.

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