Cascudo, Montaigne e o Integralismo

Aqui está, meus irmãos, a argila viva,
acumulada em jazidas inesgotáveis.
Vamos por mãos ao trabalho prodigioso
Os ritmos profundos
Acordam de novo neste instante,
Nas mais secretas profundidades, de nosso espírito…
(Exortação, Cadernos da Hora Presente Vol. 1 1939)

Não podemos negar o passado, mas o passado não pode nos negar. Luis da Câmara Cascudo assim como outros grandes intelectuais brasileiros foram simpatizantes e vestiram a camisa-verde. A ação integralista pretendia ser uma via alternativa entre o liberalismo e comunismo. Ação, liderada pelo intelectual e escritor Plínio Salgado, chegou a ter mais de um milhão de inscritos nos seus ideais.

A Ação Integralista Brasileira foi o primeiro partido de massa do Brasil. Para muitos esse partido tinha inspiração no fascismo de Mussolini. Alguns integralistas negam essa relação. Não se pode negar o entusiasmo de muitos intelectuais brasileiros e estrangeiros pelo líder italiano. O grande escritor D. H. Lawrence declara seu entusiasmo com o fascismo. Um dos maiores poetas da literatura universal, Rainer Maria Rilke – que viveu parte de sua vida na Itália – escreveu em uma carta da “grandeza de Mussolini”. Muitos outros grandes intelectuais foram fascinados por regimes de exceção.

A ação integralista foi extinta pelo Estado Novo. Grandes intelectuais simpatizantes do integralismo brasileiro criaram uma revista literária para preservar os ideais do movimento. Nesse famoso periódico que circulou no biênio 1939-40, Cascudo publicou na sua edição de janeiro de 1940 (número 6), a tradução do capitulo XXXI Les Cannibales (“ Dos Canibais” ) dos Ensaios de Montaigne. O capítulo publicado por Cascudo com o título “Montaigne e o índio Brasileiro” é uma bela tradução comentada de um clássico da literatura e ensaística universal.
Os nove números dessa importante publicação literária dirigida por Tasso da Silveira trazem matérias que podem ser lidas ainda hoje com interesse e proveito depois de sete décadas. Tenho em mãos os nove números dos Cadernos da Hora Presente com colaborações e anúncios sobre dos livros de Plínio Salgado, o fundador da Ação Integralista Brasileira (AIB) , com seu rituais de marchas e uniformes de camisa-verde e a saudação anauê ( que significa: você é meu amigo).

Nos Cadernos foram publicadas muitas resenhas de clássicos da literatura brasileira e universal. No primeiro numero, Tasso da Silveira escreve sobre Gil Vicente. Almeida Magalhães escreve sobre o filósofo cearense Farias Brito, e Fernando M. de Almeida escreve um ensaio sobre a poesia de Mário de Andrade em “Viagem em redor de uma calva”.

Cumprindo a função política / educacional da revista, Rômulo de Almeida escreve o artigo “ Educação para a Democracia Brasileira”, onde enfatiza o papel da educação na formação do caráter; As elites de hoje não se preparam ( mesmo quando são elites legitimas) para cumprir um dever, uma missão, mas para auferir vantagens e privilégios ( Vol. 1; p. 38). No numero 1 dos Cadernos, assim como em outros números, a poesia comparece com destaque em muitos artigos e antologias. Ainda messe número, o escritor Andrade Murici, reivindica para o poeta João da Cruz e Souza, o posto que lhe cabe no chamado Movimento Simbolista Brasileiro.
No segundo número dos Cadernos, Otávio de Faria escreve dois ensaios. O primeiro sobre Léon Bloy, e o segundo sobre Pascal.
No terceiro número, Lauro Escorel escreve sobre a Cultura da Personalidade, proclamando o primado da pessoa humana que encontra sua liberdade no cristianismo.
Escreveram nos cadernos escritores com ou sem afinidades com a cartilha do integralismo. Tristão de Athayde (Alceu de Amoroso Lima), Adonias Filho, Almeida Salles, Guerreiro Ramos, Lauro Escorel, Vinicius de Moraes e Câmara Cascudo. Muitos bons poetas participam desse importante periódico: Abgard Renault, Alphonsus de Guimarães Filho, Guilherme de Almeida, Mario de Andrade, Augusto Frederico Schmidt e Lúcio Cardoso, que comparece com uma antologia de poemas e um artigo sobre Baudelaire.
Outros grandes intelectuais e pensadores brasileiros participaram dos Cadernos; Gerardo Mello Mourão, Miguel Reale, Roland Corbisier e outros, sem que necessariamente fossem partidários de um ideal que não fosse a cultura. As palavras assim como os homens devem ser tratadas com parcimônia e respeito. Ao rotular ou classificar podemos cometer injustiças. A participação de Cascudo assim como a de outros grandes intelectuais e educadores brasileiros no integralismo tinha um sentido mais cultural que propriamente ideológico. O conteúdo dos Cadernos de Hora Presente é um prova de como esses homens valorizavam a cultura, a família e a pátria.
Gustavo Barroso foi integralista e autor de grandes livros da cultura brasileira. A tradução de Cascudo do capítulo “ Des Cannibales” de Michel de Montaigne e a relação que ele faz com o índio brasileiro é uma marco na ensaística e cultura brasileira. O ensaio foi publicado num Caderno que defendia os ideais do integralismo, mas Cascudo assim como Montaigne estão acima dos rótulos e das ideologias. Ninguém pode julgá-los. Nem muito menos esquecer o espaço e tempo onde se deu a ação. O passado serve para iluminar o presente e não para aprisioná-lo.

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Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Sílvio Amorim de Barros 18 de janeiro de 2011 23:42

    Caro João, gostei do final do artigo, sobre a iluminação e não prisão do passado. Realmente o integralismo e um capítulo para nós, mais jovens, obscuro na história pátria, e a ligação/sujeição de Cascudo e outros intelectuais pátrios com o (vejo agora) grandioso movimento é um tema que merece aprofundamento, pois nos é sem dúvida mal explicado. Mas como o artigo denota, Cascudo, pela sua contribuição e importância, está acima do bem e do mal, ou, pelo menos, de picuinhas que possam obscurecer a grandeza de sua luz sobre nossopovo e nossa nação.

  2. João da Mata 17 de janeiro de 2011 23:38

    Meus Caros,

    Também percebi a ironia de Cortes, pessoa por quem tenho grande apreço e admiração.
    Esbocei um aspecto de um tema debatido por Cortez, no sentido de fomentar o debate. Cascudo é múltiplo. Tenho medo dos rótulos, pois mais do que revelar eles escondem. Gostaria que os colegas comentassem o que escrevi. Em outro artigo por mim publicado também toquei nesse tema,

    Um forte abraço

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