Cascudo: nem tudo era Integralismo

O texto de João da Matta sobre Cascudo, Montaigne e Integralismo nos relembra uma questão importante: alguns autores brasileiros podem ter reduzido suas obras completas ao Integralismo (parece o caso de Plínio Salgado); outros, embora tenham militado até intensamente nesse universo político, não se restringiram a ele.

Eu era aluno de Mestrado na FFLCH/USP (passagem dos anos 70 para os 80 do século XX) quando José Chasin defendeu seu doutoramento que, depois, foi publicado em livro com o título “O Integralismo de Plínio Salgado”. Assisti à defesa da tese de Chasin. Antonio Cândido foi da Banca Examinadora e sua argüição depois figurou como prefácio do livro. O importante crítico literário fez uma observação naquele ato: intelectuais brasileiros com preocupações sociais, nos anos 30 do século passado, optaram pelo Comunismo ou pelo Integralismo. E a tese de Chasin rejeitou a identificação pura e simples entre Integralismo e Nazi-Fascismo, lembrando que a última corrente existia num universo do Capitalismo Avançado, ao contrário do Integralismo, expressão do que o estudioso designou como Capitalismo Hiper-Tardio, com traços agrários ainda predominantes na Economia.

Não precisamos concordar plenamente com Chasin mas o debate dele é referência clássica, sim. E não vale a pena comentar o Integralismo de Cascudo à margem dessas discussões.

Quando Cascudo traduziu e comentou Montaigne numa publicação integralista, ele não agiu apenas como militante integralista. Ele foi um erudito debruçado sobre um clássico, como João assinalou muito bem, e que devia e deve ser lido por gregos e baianos – se os comunistas brasileiros e de outras nacionalidades não o liam, faziam muito mal. O texto traduzido e comentado por ele poderia ser publicado numa revista de qualquer outra linha partidária ou sem linha partidária.

Minha relação com a obra de Câmara Cascudo é de leitura crítica, não foi à toa que organizei um Dicionário CRÍTICO Câmara Cascudo (Perspectiva, 2003, reimpr. 2006). Criticar não é falar mal, é refletir sobre a obra. Um comentarista declarou muito corretamente que, como organizador daquele dicionário, não sou um cascudólogo. Realmente, sou apenas um historiador que se dedicou a aspectos da obra de Câmara Cascudo, apelando para múltiplas interpretações, de Telê Ancona Lopes a Jerusa Pires Ferreira, para citar apenas dois dos grandes nomes de estudiosos ali presentes, dividindo o espaço do livro com pesquisadores mais jovens – convidei inclusive Luiz Gonzaga Cortez a participar do volume, ele não aceitou meu convite.

Discordo respeitosamente de João da Matta num aspecto: penso que a participação de Cascudo no Integralismo foi profundamente ideológica. Mas a vida intelectual dele não se resumiu a isso, houve uma produção crítica desse autor antes, durante e depois do episódio integralista que não foi apenas ideologia, muito pelo contrário.

Daí, nós, que não somos integralistas, lermos com proveito Câmara Cascudo até hoje – e, espero, durante muito tempo.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 7 comments for this article
  1. João da Mata
    João da Mata 18 de Janeiro de 2011 9:16

    Valeu Marcos, pelos comentários

    A participação de Cascudo nos Cadernos da Hora Presente, como sua imensa obra extrapola qualquer ideologia, Sabemos tambem que ele foi simpatizante da Monarquia e era um escritor conservador. Nada disso o incrimina, assim como muitos outros intlectuais que tanto cultuamos

  2. Lívio Oliveira 18 de Janeiro de 2011 9:52

    Foram integralistas, se não me engano (corrijam-me se eu estiver errado): Dom Helder Câmara, Miguel Reale, Cascudo, Miguel Seabra Fagundes, dentre vários outros intelectuais de escol.
    Alguns deles, curiosamente, tornaram-se ícones democráticos.
    Uma incógnita, uma esfinge histórica.
    O fenômeno merece, mesmo, sério estudo.

  3. Alex de Souza 18 de Janeiro de 2011 10:34

    Dia desses vi um documentário muito bom sobre o integralismo, inclusive a sede do movimento ainda funciona lá em são paulo, com reuniões quinzenais em que aparecem três ou quatro gatos pingados.

    Gerardo de Mello Mourão também foi integralista e assim continuou por quase toda vida – talvez tenha sido o escritor brasileiro que mais pagou pela opção de ser um conservador nos anos de chumbo.

  4. Marcos Silva 18 de Janeiro de 2011 10:46

    João e Lívio:

    Obrigado pelos comentários.
    Para Lívio: Alceu do Amoroso Lima também foi integralista. Isso nos faz pensar que tais pessoas não permaneceram integralistas pela vida inteira nem foram somente integralistas naquele momento.
    E vale recordar que um estilista brilhante como Graciliano Ramos publicou na revista estadonovista “Cultura política”, assim como o importante historiador Nelson Werneck Sodré. Isso não os transformou em ideólogos estadonovistas!

  5. Lívio Oliveira 18 de Janeiro de 2011 12:25

    E olha, Marcos, que Graciliano foi preso pela ditadura do Estado Novo…
    O ser humano e a política têm coisas que não se explica.

  6. luiz gonzaga cortez 19 de Janeiro de 2011 9:31

    Eu não recusei o convite de Marcos Silva para elaborar um texto de 120 linhas para o “Dicionário” dele. Aceitei e agradeci a lembrança. Mas relaxei, perdi o endereço dele e quando fui aprontar o texto, o livro dele já tinha ido para a gráfica. Por enquanto, é só o que quero adiantar.
    Luiz Gonzaga Cortez.

  7. Marcos Silva 19 de Janeiro de 2011 11:53

    Cortez:

    Temos lembranças diferentes sobre a recusa ao convite que lhe foi feito, ainda bem que concordamos sobre o convite. Veja texto maior sobre o Dicionário – que não é meu, apenas o organizei – enviado por mim hoje.

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