Debate sobre jornalismo x ativismo

NO OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

CASO EDWARD SNOWDEN

Glenn Greenwald e o debate sobre jornalismo vs. ativismo

Tradução: Larriza Thurler, edição de Leticia Nunes. Informações de Mark Coddington [“Greenwald and the ‘who’s a journalist?’ debate”, Nieman Journalism Lab, 5/7/13], de John Judis [“Glenn Greenwald: Columnist or Criminal?”, The New Republic, 2/7/13] e de Erik Wemple [“Greenwald: Journalist, activist, media transparentist”, The Washington Post, 3/7/13]

“Nem todos os ativistas são jornalistas, mas todos os verdadeiros jornalistas são ativistas”, disse o colunista Glenn Greenwald, dojornal britânicoGuardian, ao repórter David Carr, do americano New York Times. Foi Greenwald quem deu o furo sobre as revelações do ex-funcionário da Agência de Segurança Nacional (NSA) Edward Snowden. O caso levanta algumas questões: é possível ser um jornalista e um ativista? Qual o papel do ativismo no jornalismo? Há jornalismo objetivo?

Carr observou que Greenwald tem aparecido constantemente na mídia [no Brasil, no Fantásticoe no Globo] falando sobre as críticas recebidas, no que parece mais uma campanha ativista do que uma discussão da história que cobriu. Em entrevista a Eric Bolling, no canal americano Fox News, ele disse acreditar que o governo de Barack Obama está tentando fazer, há quase cinco anos, com que todos fiquem “petrificados em divulgar informações sobre o que os políticos estão fazendo às escuras de enganoso, ilegal ou corrupto”. Tais palavras são chocantes para alguém familiar com as falas de grandes jornalistas entrevistados sobre seus furos. Se ele fosse do New York Times ou da NBC News, provavelmente falaria de outro modo.

O apresentador David Gregory, do Meet the Press, e o âncora da CNBC Andrew Ross Sorkin recentemente questionaram se Greenwald deveria ter a mesma proteção dada a jornalistas ou ser preso por divulgar segredos de Estado. Para John Judis, da New Republic, a reportagem de Greenwald seguiu os cânones do jornalismo preciso – assim como a cobertura de Barton Gellman no Washington Post sobre as revelações de Snowden. No entanto, Gregory e Sorkin não levantaram a possibilidade de Gellman ir para a cadeia – talvez porque ele tenha uma longa carreira consolidada em veículos de destaque, como o Post e a revista Time. Já Greenwald, que além de comentarista político também é advogado, escritor e blogueiro, era visto como um “provocador” antes de ser contratado pelo Guardian no ano passado. Por curiosidade: a audiência online do Guardian é maior do que a do site do Post.

Conto de fadas

 Para Carr, há uma diferença entre jornalismo e ativismo e Greenwald deve ser tratado como jornalista. Já Matt Taibbi, da revista Rolling Stone, não vê diferença. “Todo jornalismo é jornalismo cívico. A objetividade é um conto de fadas inventado puramente para o consumo do público crédulo”, opinou. Judis acredita, por sua vez, que nem todo jornalismo envolve a defesa de uma causa – como na cobertura de resultados de jogos esportivos e de crimes superficiais –, mas, no sentido mais amplo do termo, o jornalismo político geralmente contém este elemento. Há jornais que já tentaram eliminar esta espécie de ativismo, e cada vez mais jornalistas tentam não defender um interesse, apresentando igualmente os dois lados do debate.

No entanto, há diversos tipos de defesa de uma causa ou de ativismo que podem acompanhar o jornalismo e eles merecem níveis diferentes de ceticismo da parte dos leitores. Alguns jornalistas trabalham para organizações políticas com visões determinadas sobre o que escrevem ou ainda publicações que pedem uniformidade sobre determinados assuntos. Greenwald é um defensor de uma causa, mas não trabalha para uma organização política ou que faz lobby – mas sim para o Guardian, que, ao que se sabe, não dita o que seus jornalistas devem ou não escrever.

Ideal acessível

 Em relação à objetividade, Judis acredita que ser objetivo não significa não ter opiniões, mas sim fazer um esforço para apresentar os fatos de maneira precisa. Não se trata de um conto de fadas, diz ele, mas de um ideal acessível. Isso requer regras sobre evidência e fontes, muitas das quais foram desenvolvidas pelo New York Times no começo do século 20. Editores, por exemplo, geralmente pedem a repórteres que tenham duas fontes para qualquer acusação controversa, caso não haja evidências em vídeo, áudio ou texto. Snowden foi a única fonte de Greenwald, mas forneceu documentos que ele o Guardian tiveram trabalho para autenticar.

A maior parte da mídia de massa nos EUA segue essas práticas. Algumas publicações internacionais não o fazem. Publicações online parecem não ter regras sobre fontes. Colunistas, por vezes, pensam que não precisam ter o mesmo tipo de evidência exigida de repórteres.

Além disso, há outros modos para que repórteres e publicações lutem por objetividade. Editores podem tentar remover distorções involuntárias dos textos e insistir para que sejam ouvidos atentamente os dois lados de um argumento antes de se fazer um julgamento. Ainda assim, o resultado pode não estar de acordo com a realidade; erros podem ser cometidos. No entanto, na média, com esses cuidados e regras, o resultado é mais preciso. Carr argumenta que jornalismo e ativismo podem coexistir e observa que a separação de objetividade e subjetividade no jornalismo é relativamente nova.

O que geralmente é um obstáculo para o jornalismo objetivo não é parcialidade política, mas o desejo de se escrever algo novo e dramático que chame a atenção de editores e leitores. Jornalistas adotam “ângulos” e, uma vez que estão comprometidos com estes ângulos, podem ter sua percepção dos fatos moldada.

Transparência e confiança

 Muitos jornalistas não comentam métodos de apuração, mas Greenwald já deu, em diversas ocasiões – inclusive em textos publicados no Guardian –, detalhes dos dias que se sucederam às primeiras matérias sobre o caso Snowden e de como planeja dar prosseguimento a elas. Tais revelações foram ajudadas, certamente, pelo fato da fonte de Greenwald ter revelado voluntariamente sua identidade. Mesmo assim, o nível de detalhamento fornecido pelo colunista é bem maior do que por outros jornalistas. Questionada sobre as origens do furo sobre a vigilância da NSA na Europa, a revista alemã Der Spiegel respondeu que “não fala sobre fontes”.

Janine Gibson, editora-chefe do Guardian nos EUA, disse que divulgar informação sobre o processo de apuração é parte da ideologia “mostre seu trabalho” do jornal. “Uma das razões pelas quais grande parte do público não confia na mídia é que ela não ‘mostra seu trabalho’ o suficiente. Explicar a metodologia ajuda a aumentar a confiança na mídia”, defende.

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