CATASSOL

Caro, Tácito, cheguei vindo do Milton Ribeiro.
Cheguei, aqui, só com Poesia, e nada mais…

Ramiro Conceição

O poeta fora prometido ao Deus da Vida;
porém, sem saber, engravidou de poesias
por ação do espírito humano.
E o Deus da Vida, seu marido prometido,
que era justo, não o denunciou
porque sabia que o artista trazia frutos
ao seu passado-presente-futuro.

O poeta concebeu em sua língua
para ensinar, em muitas línguas,
sua linguagem estética, política
e ética.
E a lira não se quebrou.
E um catassol cantou:

“Sou um ruminante cérebro mutante,
um ser que considera o ser maior que o ter,
um lento catassol, sobre a leitura,
que sabe que ler é conceber com ternura.”

“Sou uma repetição, uma aliteração,
uma especiaria para condimentar iguarias,
uma hortaliça que plantei em nossa horta.
Sou homenagem póstuma a estrelas mortas!”

“Perdi a hora de tudo.
Meu relógio marcou todos os fusos.
Sou a maçaroca no fuso do mundo.”

“Cada vez mais, torna-se claro
que sou feito de outra história.
Não desta, mentirosa e sem memória.”

“Cada vez mais, tenho a certeza
de que pertenço ao mar bravio
pois sou um peixe que não pertence
a este aquário vil.”

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