‘Catatau’

Por José Miguel Wisnik
O GLOBO

Depois de “Pan-cinema permanente”, de Carlos Nader, sobre Waly Salomão, e do “Filme do desassossego”, de João Botelho, sobre um certo Fernando Pessoa (já comentados aqui), me deparo com “Ex isto”, de Cao Guimarães, longa-metragem sobre o “Catatau”, de Paulo Leminski (os dois últimos exibidos na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo). Pode-se considerá-los, em conjunto, como uma trilogia casual excitante de filmes levando à tela obras literárias provocadoras e incomuns, para dizer o mínimo.

No “Catatau”, lançado em 1975, o Leminski estreante imaginava René Descartes desembarcado no trópico pernambucano com a corte de Mauricio de Nassau. A viagem inventada não deixa de ter uma verossimilhança virtual: Descartes viveu uma vida itinerante e serviu como militar sob as ordens de Nassau na Holanda. Numa encruzilhada barroca, poderia ter vindo, digamos, tostar o cérebro ao sol, junto com outras sumidades, entre naturalistas, cartógrafos, pintores, que compunham o séquito do Príncipe Maurício em Pernambuco, antes que acabar morrendo de frio sob as ordens da rainha Cristina, na Suécia. O livro não envereda, no entanto, por nenhuma fabulação fake ao gosto das biografias romanceadas visando o bestseller.

Muito ao contrário, o mote é o porto de partida para uma viagem verbal alucinante e sem correspondente na literatura de sua geração pra cá.

Em contato com o mundo inclassificável em que submerge ao sul do Equador, o mais famoso ego do Ocidente (“cogito, ergo sum”) entra num equívoco e polissêmico “enxame de cons ciência”: tomado pelo delírio fusional e pelo barato das ervas nativas, prorrompe num fluxo de prosa poética de alta densidade informacional.

O efeito não é meramente exótico.

Envolve na verdade um deslocamento ótico (com que lentes examinar o trópico e suas criaturas extravagantes?) e semiótico — a linguagem desliza sem parar na metamorfose das palavras, nas frases feitas que se desfazem, entre “ver com outros olhos” e ver “com os olhos dos outros”, entre os extremos paradoxais da surpresa e da redundância entrópica.

Ao tirar o cartesianismo do prumo, deslocando para a margem o personagem que ocupa uma centralidade fundadora no pensamento moderno, Leminski não está sozinho. No livro “O que é a filosofia”, de 1991, Deleuze e Guattari se perguntam, por exemplo, instigados por Dostoievski, o que seria filosoficamente de um Descartes transportado para a Rússia (“Descartes na Rússia tornou-se louco?”).

Daniel Huet teria escrito em 1692 uma biografia imaginária do filósofo em que ele aparece na Lapônia, tendo fumado mais do que o comum. Num opúsculo recente, de 1996, “Descartes et le cannabis — Pourquoi partir en Hollande”, escrito para provocar o cartesianismo francês por ocasião do quarto centenário do seu criador, Frédéric Pagès levanta a hipótese, tanto bizarra quanto cartesianamente plausível, de que Descartes se transferiu para a Holanda, onde morou durante 20 anos de cidade em cidade, porque teria sido atraído pela maior ventilação de ideias ali reinante, mas também pelas facilidades encontradas de acesso à maconha. Os vários usos — náuticos, têxteis e farmacêuticos — do cânhamo no século XVII holandês seriam historicamente comprováveis.

Na interpretação de Pagès (nome que não deixa de ser sugestivo), o fumo estaria na raiz da famosa visão febril a partir da qual o pai intelectual da ciência moderna concebeu a sua filosofia.

Na verdade, certas obscuridades da biografia cartesiana, contrapostas ao racionalismo emblemático do filósofo, dão margem a peripécias e conjeturas que, mais que biográficas, compõem um complexo temático, ficcional e filosófico: a tentação de ver Descartes fora do eixo, isto é, fora da França, que é o cartesianismo transformado em nação. Leminski foi mais fundo do que ninguém na formulação dessa tendência, radicalizada textualmente no “Catatau”. Assim também, colocar Descartes no Brasil é interpretar o Brasil à luz desse deslocamento.

A crítica reivindicou a obra geral de Leminski ora para a vanguarda ora para a poesia marginal.

Depois do tour de force da estreia o escritor curitibano tend e u p a r a u m a poesia aparentemente mais afeita às experiências da existência do que às da construção formal. Mas, como costuma acontecer com artistas que importam, a oposição entre o concretista e o marginal torna-se, no caso de Leminski, um falso problema. “Catatau”, no caso, é um livro escrito por um rapaz na faixa dos 20 anos, de uma imaginação de linguagem e uma cultura literária fenomenais, na esteira da poesia concreta, durante a ditadura e a vigência do movimento contracultural.

Ele testemunha esse nó, num solilóquio experimental talvez só possível na solidão ensimesmada do período da repressão (“Um dia isto será apenas capítulo na história da repressão escrita numa catacumba das cidades futuras”), por esse que se definiu irônica e autoironicamente como “punk parnasiano” e “dadaísta clássico”.

A nova edição do livro, pela Iluminuras, e o “Ex isto” de Cao Guimarães, são sinais iluminadores da supervida desse livro difícil, único, profundamente sensacional. O filme acerta em cheio no alvo, contando com o desempenho maravilhoso de João Miguel. Vale a pena atravessar a densa atmosfera de cheiro de pipoca, inalação que se tornou sintomática e compulsória como ingresso às salas de cinema, para respirar a atmosfera rarefeita da sua poeticidade.

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