Caymmis

Por Caetano Veloso
O GLOBO

Nana dizendo, numa cena do filme de Gachot, “Eu me adoro cantando!”, com toda a despudorada delícia de quem emite uma opinião insuspeita, nos dá certeza absoluta de que se trata de fato de uma opinião insuspeita.

Ela o faz em sintonia conosco, com os ouvintes imediatamente apaixonados pelo seu canto, em sincronia com o crescendo do nosso deslumbramento. Era o que eu sentia, em 1967, quando a ouvia cantar, com Gil ao violão, boleros e sambas-canções conhecidos mas que pareciam ter sido compostos exclusivamente para ela cantar. Gil aparece no filme, relembrando com respeitoso carinho o período em que ele e ela viveram juntos. A canção “Bom dia”, que foi crucial para a criação do tropicalismo (como conto em “Verdade tropical”), é citada por ele como uma parceria verdadeira, em que a criatividade de Nana entrou eficazmente na composição. Mais cedo no filme, Nana aparece falando da amizade que nasceu entre ela e “os baianos” — e que nunca morreu —, ressaltando que esta foi sempre acompanhada de uma discordância musical. “Não prestei nem três minutos de atenção ao tropicalismo”, ela diz, franca e justa. Mas o fato é que o tropicalismo prestou horas de atenção a ela e ao sentido de sua especial musicalidade.

Caymmi ter feito “Acalanto” para niná-la e, quando ela chegou ao fim da adolescência, têla convidado para gravar essa música com ele, representa, segundo ela, uma satisfação maior do que ela pediria aos deuses: ela já entrou no auditório da TV Record para receber as vaias (que a acompanharam durante ainda outras noites de festival) no lucro. Damos graças aos céus por Caymmi, baiano fundamental, nunca ter feito nada semelhante às aparentemente corajosas reflexões de Salvador Dalí sobre gênios produzirem filhos idiotas. Dori, o irmão imediatamente mais moço de Nana, é o inimigo mais fiel do tropicalismo: nunca sequer relativizou suas avaliações negativas do primeiro momento. Dori é também, aos meus ouvidos como aos de Gil, um dos mais belos talentos musicais do Brasil. Seu violão foi para mim, por muito tempo e desde que o conheci (eu aos 19, ele aos 18, em Salvador), o melhor da nossa música popular pós-João Gilberto; sua inspiração orquestral e contrapontística, celestial; sua composição, sempre rica e verdadeira. Danilo (que pouco aparece — e nada fala — no filme), cujo temperamento o pai sempre reconheceu como mais próximo do seu próprio, é uma inteligência mais alegre (embora nem um pouco menos ferina) do que a dos irmãos — o que o levou a relacionar-se com posturas pop de modo mais desgrilado do que eles. Seu talento, no entanto, não é menor. Talvez ele seja o mais baiano dos três filhos cariocas de Dorival.

Em que consistiria a discrepância “musical” entre eles e os baianos que vieram a ser os Doces Bárbaros por um curto período dos anos 1970? Quando Nana fala dessa assintonia, ela toca na reação de Dori e na jovem despreocupação de Danilo pelo assunto. Mas é uma história reveladora e que faz pensar. O fator importante aqui é que os três são filhos do baiano Caymmi, mas também da mineira Stella. Minha primeira lembrança de Stella é a referência feita a ela, na minha tenra infância, por minha mãe: “Minha cantora favorita era Stella Maris, mas Caymmi se casou com ela e a proibiu de cantar.” Claro que minha mãe, no meio dos anos 1940, em Santo Amaro, concluía que o abandono da vida profissional por parte de Stella só poderia ter-se dado por decisão do marido: não se esperava muito de mulheres que tomassem atitudes definidoras de suas vidas naqueles tempos. Pode ser até que minha mãe nem tenha usado o verbo “proibir”, mas na minha memória ficou o que um menino podia apreender do que ouvia, segundo os valores da época. Anos depois, tive a felicidade de conhecer toda a família Caymmi — e a personalidade extraordinariamente forte de Stella, sua inteligência realista e suas palavras escolhidas mais em função da expressão do que do recato (embora, de modo muito particular, ela jamais se acercasse da vulgaridade — ao contrário, nobreza sendo o que mais sugeria o tom e o ritmo de sua boca sem mordaça). Pois bem, essa mulher intensa e veraz (que podemos ouvir cantando — divinamente — um trecho de “Suíte dos pescadores” no disco das famílias Caymmi e Jobim) era tão profundamente mineira quanto seu marido era baiano. A musicalidade, a percepção das coisas e a sensibilidade dos três meninos se formou entre a força baiana do pai e a potência mineira da mãe. Isso pôde ser equacionado por Nana, na vida e na fala do filme, como uma dicotomia entre a amizade firme com os baianos dos anos 1960 e a rejeição de suas escolhas musicais.

Mas tanto a separação das duas instâncias — a da amizade e a da estética — quanto o critério geográfico são simplificações. Vendo o filme, minhas emoções me diziam que Nana e eu sabemos que tais simplificações são aceitáveis, mas não satisfatórias. Que eles estivessem mais preparados para esperar o que Milton traria de Minas do que para aceitar o que nós tínhamos trazido da Bahia é compreensível. E, para nós, mais ainda: vimos o aparecimento de Milton como algo necessário e benfazejo. Gil sobretudo descobriu imediatamente em Milton o milagre de pães e peixes que pouco depois todos reconheceríamos em seu trabalho. Mas a aventura dos baianos se dava (ou queria se dar) em outro nível: era metamusical. Glauber e McLuhan. Nana é melhor. Mas nós não desmerecemos sua amizade.

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