Cefas Carvalho responde 10 questões fundamentais sobre a literatura potiguar

O escritor e jornalista Cefas Carvalho, autor do recém lançado romance Carla Lescaut, respondeu aos 10 questionamentos que expus no post anterior para ajudar a entender os rumos que nossa literatura tem tomado. Se outros quiserem responder, também publico. Seriam saudáveis outras visões sobre o tema. Seguem aí os apontamentos de Cefas, de muita valia. E nesses dias publico a entrevista que fiz com Aluísio Azevedo, o comandante da Nobel Salgado Filho, também muito boa.

1) Quem consome os livros potiguares?
Um público mínimo. Literatos de modo geral, artistas de áreas mais ligadas a texto (teatro, por vezes dança), interessados em literatura de uma ou outra forma, ainda que indireta, e militam na cultura embora não tenham produção cultural. Noto que poucos professores, sejam universitários ou do médio e fundamental consomem literatura potiguar. Enfim, um público limitado.

2) Será que o seleto nicho de intelectuais e pseudo-intelectuais são representativos do abrangente conceito de consumidores?
Em termos numéricos, acho que sim. Existem poucos literatos em plena e produtiva atividade e poucos leitores. De maneira mais ampla, percebe-se que existe um potencial de consumidores sem qualquer representatividade. Exemplo: Alguma produção literária fala da Zona Norte e dos seus movimentos culturais como o rap? A juventude de periferia se vê representada em alguma obra?

3) Há distribuição efetiva das tiragens?
As tiragens são limitadas pois o autor sabe que não vai vender. Boa parte dos autores, principalmente se não tiver uma estrutura de editora e divulgação por trás, fica com mais de uma centena de exemplares na parede do quarto. Há de considerar que Natal possui poucas livrarias, nunca mais que 3 ou 4 e que os demais possíveis escoamentos de produção (aeroporto, bancas de jornais, bares culturais) não tem estrutura e/ou interesse para tal.

4) Há um público novo de leitores?
Há sim, e de idade muito baixa o que é bom. Porém, o que percebo é que é de perfil essencialmente clásse média alta, o que vai gerar uma literatura feita de e para a juventude de clase média alta. Ótimo que esse processo ocorra, mas seria saudável autores e consumidores de outras camadas.

5) Qual a melhor forma de incutir os autores potiguares na comunidade escolar?
O primeiro passo é criação de políticas públicas para isso. Ou, na falta delas, no mínimo interesse e iniciativa dos secretários de educação estadual e municipais em adotar livros potiguares nas escolas públicas. Exemplo prático: em 2000, a Secretaria Estadual de Educação (à época Pedro Almeida o secretário) adquiriu certa quantidade de exemplares de “Ponto de fuga”, que eu havia acabado de lançar para distribuição nas bibliotecas da rede estadual. Pois anos depois disso, volta e meia algum leitor me procura por e-mail ou Facebook para registrar que leu o romance na biblioteca do colégio, em município y. É necessário, portanto, fazer estes livros de autores potiguares chegarem aos estudantes, no caso de escolas públicas, jovens que não têm tanto acesso a livrarias e equipamentos culturais, ajudando a formação de outro público leitor, como registrado na resposta da pergunta 4.

6) E se não há leitores e literatos conhecidos, há literatura local?
Há sim. Literatura local, até por que, de toda forma, existem “literatos conhecidos”, ainda que dentro de um nicho ou de nichos. Acredito que os leitores de Carlos Fialho e Pablo Capistrano sejam diferentes dos de Antônio Francisco e estes diferentes dos de Alex Nascimento. E há uma demanda para, por exemplo, a excelente poesia feminina produzida aqui; Carmen Vasconcelos, Iracema Macedo, Diva Cunha e uma outra vertente da peosia feminina que é a seridoense (Iara Carvalho, Ana de Santana, Jeanne Araújo). Sem falar dessa novíssima geração (Regina Azevedo, Victor Hugo, Alice Carvalho) que não é o mesmo público dos acima citados e por aí vai. Ou seja, é um nicho pequeno, mas, real, e com potencial de crescimento.

7) Quantos e quem são os críticos literários?
Em Natal não existem em termos gerais. Há jornalistas que resenham algumas obras, como você, Sérgio, Carlão, Tácito e literatos que por vezes analisam mais criticamente obras, como Thiago Gonzaga e Livio Oliveira. Crítica literária propriamente dita não existe, resultado, talvez da proximidade entre os poucos literatos e jornalistas culturais, que transforme tudo em conversa de compadres, rsrs (eu, como literato e jornalista, incluso nesse caldo, rsrs).

8) Sem crítica consistente, há literatura consistente?
Pode haver, mas a crítica é necessária. Se não para fazer o escritor melhorar (até porque a crítica pode ser injusta ou passional) ao menos para proporcionar o saudável debate sobre a obra. Só elogios e silêncio não são positivos para quem escreve, claro. Control c + control v também não.

9) A literatura potiguar possui identidade?
Como um todo, não. Em romances, evidentemente não, de poucos que são. Em poesia, conseguimnos ter unidades de temas, questões geográficas, de gênero que constroem o que podemos chamar de identidade, vide resposta à pergunta 6. Acredito que exista uma identidade da poética seridoense. E talvez os Jovens Escribas estejam construindo uma identidade jovem urbana.

10) Possui ou precisa de alcance nacional para existir?
Não precisa, mas seria bom. Para o ego, a produção e o escoamento dos livros.

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 8 comentários para esta postagem
  1. Aluísio Azevedo Júnior 19 de março de 2015 0:58

    Lúcidas respostas, amigo Cefas Carvalho. Algumas questões levantadas poderiam render debates acalorados. Gostaria apenas de acrescentar uma informação importante, quanto às políticas públicas. Estamos, neste momento, formatando o Plano Municipal do Livro, da Leitura, da Literatura e das Bibliotecas de Natal, o Pmlllb-Natal. Um Grupo de Trabalho foi instituído, com representação da sociedade civil organizada. Tal Plano concluirá o disgnóstico situacional, determinará algumas políticas, ações, poderá até criar um Conselho Municipal da Leitura; e será transformado em Lei. Peço que todos (mais do que) acompanhem, participem, por favor, da sua construção. Precisamos avançar, e ocupar espaços, participar efetivamente da construção de soluções. Deixo o convite aos leitores do Substantivo Plural. No GT, voluntários, como José de Castro, Do Carmo Silva, Guiomar Veras, Cláudia Santa Rosa, e outros, além do pessoal da Funcarte, estão empenhados na tarefa. Quem quiser se inteirar do assunto, poderá consultar http://pmll-natal.blogspot.com.br.

    • Sergio Vilar 19 de março de 2015 8:50

      Excelente notícia, Aluísio! Se concretizado esse plano valerá mais o que 10 festivais literários!

  2. thiago gonzaga 18 de março de 2015 16:23

    Sergio e Tácito, amigos, continuem com o tema que vai gerar boas discussões com certeza.
    Eu entendi quando Cefas falou da crítica literária, se referido aquela tradicional critica de jornal, que por sinal já tivemos no passado e hoje quase não existe mais, com exceção de Nelson Patriota que tem feito aos domingos, acho que temos apenas alguns resenhistas. Agora se tratando de estudos mais acadêmicos, temos na UFRN, mas que nao sao externados , na maioria das vezes com o grande publico, como nome do Márcio, a Edna Rangel, Cassia Matos, Alexandre Alves, Derivaldo Santos, e do próprio Humberto Hermenegildo, que para mim é a maior autoridade local, se tratando de critica academia.
    E claro, quero me redimir, pois nas pressas da digitação, esqueci de citar a competente e amável professora Conceição Flores, que faz um trabalho incrível com alunos da UNP, que , inclusive , gerou um livro super importante para nós, que foi o primeiro dicionario de escritores potiguares.
    Enfim, como o Tácito bem falou, quem ganha com tudo isso, somos nós, e a nossa literatura. Abraços para a escritora Nivaldete.

  3. Cefas Carvalho 18 de março de 2015 14:52

    Oi . Nivaldete. Bem legais suas colocações e acho rico estes debates e opiniões diversas, acho que essa era a ideia de Sérgio Vilar, rsrs. Mas, para esclarecer, quando respondi sobre crítica literária, me detive em relação à imprensa, mídia de modo geral. Sei do trabalho de extrema qualidade de Márcio, e da pesquisa de Conceição, mas, pelo que leio e sei, são trabalhos mais acadêmicos e pensei Sergio Vilar ter se referido à crítica literária de jornal, mais acessível ao leitor comum, que era um dos nortes da conversa. Deve existir muita coisa boa no mundo acadêmico, mas (infelizmente) não temos acesso a este mundo, acho que isso pode gerar debates em próximas respostas ao questionário de Sérgio. Em termos de jornais e mídia, existe pouca crítica mesmo, até pelos motivos que Thiago Gonzaga apontou. No mais, acho válido esse debate e a troca de idéias, quiça o possamos fazer todos ao vivo e em cores. Abraço!

  4. Tácito Costa 18 de março de 2015 14:41

    Boas as respostas de Cefas, bons os comentários de Thiago e Nivaldete. Complementam-se. E quem ganha somos todos nós, interessados por literatura. Nivaldete lembra, oportunamente, os trabalhos de Márcio e Conceição. Devem até existir outros nas universidades, que precisam ser conhecidos e divulgados.

  5. Nivha Ferreira 18 de março de 2015 16:50

    Olá, Cefas e demais, você diz coisas acertadas, mas num ponto discordo. Nisto: "crítica literária propriamente dita não existe [aqui]"… Não podemos esquecer Márcio de Lima Dantas (professor no curso de Letras da UFRN), um crítico literário de competência inquestionável, além de poeta. Ele faz aquela crítica que ajuda a conhecer a obra e, por extensão, a literatura, tornando-se uma criação também, na medida em que, por ex., desvela o que está sugerido, ou mesmo bem escondido, em determinado texto, a depender da complexidade que este apresente (a críticas bem elaboradas deve-se o reconhecimento de muitos autores que foram ignorados ou mesmo rejeitados em seu tempo, tanto na literatura quanto em outras artes). Devem ser referidos igualmente os estudos sobre a literatura produzida no RN que a Profª Conceição Flores vem desenvolvendo com as renovadas safras de alunos de Letras (UnP). Isso é bom, pois forma gerações mais criteriosas de leitores que certamente irão, por sua vez, formar leitores nas escolas, mais tarde. E por falar em leitores, já sugeri, num texto publicado no Tribuna do Norte e no Facebook, que se abra espaço para eles, nos encontros literários, e atenuemos essa espécie de um -ainda- certo endeusamento do autor. Leitores são a outra metade do escritor e existem, sim, às vezes nos lugares mais improváveis: numa oficina mecânica (conheci um, na oficina da Nissan, que já leu 4 mil livros), num táxi (há um taxista aqui que pendura uma sacola de livros na traseira do seu banco ("se o cliente quiser, pode ficar lendo alguma coisa enquanto faço a corrida", disse). Mas vou continuar falando disso, escrevendo sobre, embora sem ter nenhum sinal de que estou sendo ouvida (por que será?… A ideia será ruim? Com certeza não, e estou oferecendo "de grátis")… — Bom, falei para mais do que tencionava, mas o assunto é instigante. Obrigada. Parabéns aos que pelejam nesse campo apaixonante. Um abraço.

  6. thiago gonzaga 17 de março de 2015 17:45

    Em primeiro lugar parabéns, mais uma vez, ao Sergio Vilar pela iniciativa.
    Muito legal, muito bom o espaço e apoio de vocês para com a nossa literatura.
    Vc,Tácito, Yuno e Cinthia Lopes, são os que mais tem cedido espaço, divulgado, de maneira geral, a turma local.

    Concordo com a entrevista do escritor Cefas Carvalho.
    Realmente é um publico minimo que consome livros potiguares. Se resume praticamente a própria comunidade literária e alguns amigos, mais próximos, que muitas vezes nem leem o trabalho, compram e guardam.
    Existe tbm um publico novo se formando, mas , isso graças tbm ao empenho e iniciativa de alguns poucos escritores – professores que apoiam a causa como o Marcel Matias da IFRN, Carla Alves da IF Ceara-Mirim.
    Temos feito mensalmente uma caravana de escritores locais e temos levado a nossa literatura para o interior, coisa que não acontecia antes, isso tbm tem ajudado a divulgar nossos escritores.
    Cleudivan Janio da CJA Edições, em três anos de vida, já editou 50 livros, boa parte ele tirou do próprio bolso para ajudar quem ta começando.
    Nelson Patriota ( todo domingo no Jornal) e Manoel Onofre Jr tem escrito algumas notas sobre a nossa produção.
    Eu tenho um blog 101 livros do RN – Que voce precisa ler que tem três anos de vida. e 100 mil acessos, quase novecentas resenhas escritas sobre livros contemporâneos. Mas não me considero critico e sim pesquisador. Inclusive meu mestrado é justamente provando que a nossa literatura está em sintonia com o que acontece no mundo literário universal. Tem um resenhista novo no pedaço, Chumbo Pinheiro, que tem dado as impressões dele sobre nossa literatura, inclusive tbm na Tribuna do Norte. Mas, critica mesmo, nao temos, até pq ego de escritor local é algo que nunca vi igual, se vc escrever falando mal do livro de fulano vc arruma uma intriga. Tácito Costa tem experiencia com isso
    Tbm simpatizo com o trabalho de todos os poetas citados, e ainda reforço o melhor livro de poemas publicado ano passado aqui foi o da seridoense Maria Maria Gomes, “Proposta de Chuva”
    Sobre a novíssima geração eu acho que tem muito mais marketing e corporativismo do que boa literatura, como objeto de arte. Para mim a boa literatura local, ainda está com quem já vem na “batalha” desde o inicio desse século, e anteriormente,claro. .
    Mas, graças ao empenho de alguns a nossa literatura tem caminhando e está em uma boa fase, comparada ao passado.

    • Sergio Vilar 17 de março de 2015 18:46

      Massa, Thiago, suas observações!

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