Celebremos o 7 de julho

Por Sérgio Augusto
ESTADÃO

Data do anúncio do fechamento do ‘News’ é auspiciosa para quem crê que jornalismo seja coisa séria

Até quinta-feira, 7 de julho era um dia de mau agouro para os ingleses. Em 1575, seu império perdeu a última grande batalha de uma guerra sobre fronteiras para os escoceses; em 2002, estourou o escândalo do MI6, o serviço de inteligência do reino, acusado de haver acobertado o líder europeu da Al-Qaeda; em 2005, meia centena de pessoas foram mortas em quatro explosões no metrô londrino.

Com o anúncio, na quinta-feira, de que o tabloide News of the World será fechado neste domingo, o dia 7 de julho virou uma data auspiciosa – o dia em que a imprensa sensacionalista começou a morrer. Ou assim querem crer aqueles que acreditam que jornalismo é coisa séria, não um prostíbulo ou um armazém de secos e molhados.

Só falta agora combinar com os milhões de leitores patologicamente ávidos por fofocas e baixarias que asseguram o sucesso do jornalismo popularesco e venal que News of the World (2,8 milhões de tiragem a cada domingo) tão bem representava. Irão eles curar-se de sua mórbida curiosidade pela vida alheia, de seu perverso deleite com a desgraça dos outros, de sua cretina obsessão por celebridades? Duvido.

A News International, braço britânico do império midiático de Rupert Murdoch, também duvida; tanto que sua cúpula já pensa em substituir o finado News por uma edição dominical do outro tabloide do conglomerado, o diário The Sun, que não circula aos domingos.

“As coisas boas que o News of the World faz ficaram manchadas”, disse James Murdoch, filho de Rupert, ao anunciar o fechamento do jornaleco. Que coisas boas? Fazia pelo menos seis anos que o News grampeava, para os mais diversos fins, os telefones de centenas de políticos, atores, atletas e outras celebridades, e dos familiares de soldados mortos no Iraque e no Afeganistão, com a ajuda de policiais subornados e investigadores particulares, um dos quais, Glenn Mulcaire, que de tanto ser acionado pelo editor Andy Coulson acabou enriquecendo o jargão jornalístico inglês com a expressão “fazer um mulcaire”, sinônimo de grampo ilegal.

Nem a família real escapou a sua criminosa bisbilhotice, punida de forma branda em 2007. Também lhe coube a tarefa de invadir a caixa postal do celular da adolescente Milly Dowler, logo após seu desaparecimento, em março de 2002. Foi seu Waterloo eletrônico. Na tentativa de ganhar espaço para gravar novos recados, o investigador apagou algumas mensagens do celular, dando à polícia a falsa ideia de que Milly estaria usando o telefone e aos pais da jovem a vã esperança de que ela ainda estava viva. As ligações apagadas poderiam ter facilitado o trabalho da polícia. Milly foi encontrada morta em setembro de 2002; a malfeitoria de Mulcaire só seria revelada nove anos depois, mais precisamente na segunda-feira passada.

Nessa trama com mais de mil vítimas e vários vilões (jornalísticos e policiais, desmascarados ou sob suspeita), pelo menos um herói já se sobressaiu: o repórter Nick Davies, do diário londrino The Guardian.

Fiscal atento das mentiras e dos abusos cometidos pelos jornais do grupo Murdoch, Davies ressuscitou em 2009 os casos de escuta ilegal do News of the World e os processos e indenizações decorrentes, voltando à carga no ano seguinte. Com uma pertinácia digna, segundo um colega de profissão, do capitão Ahab e do inspetor Javert, Davies fez do grupo Murdoch a sua Moby Dick, o seu Jean Valjean. Foi ele quem soltou a bomba de segunda-feira, precipitando a onda de indignação que culminaria com o fechamento do tabloide. “Se tudo isso for verdade, alguém deveria ser executado ao amanhecer”, sugeriu Damian Thompson, do Telegraph, depois de ler as denúncias de Davies.

Era verdade, assim como procede a suspeita de que Rupert Murdoch entregou o News para assegurar a concessão dos 61% das ações que ainda lhe faltam para abocanhar a TV por satélite BSkyB. Mas, até a noite de sexta-feira, só Andy Coulson (ex-editor do News diretamente responsável pelas escutas) e o repórter Clive Goodman (que já fora condenado a quatro meses de prisão em 2007, por outra “mulcaire”) foram dar satisfações à Justiça.

E Rebekah?, cobraram políticos, jornalistas e até artistas xeretados pelo finado tabloide. “Ela e Coulson são os piores editores da história do jornalismo”, vociferou na terça-feira o ator Hugh Grant, outro grampeado pelo News.

Rebekah, a editora inesquecível. Rebekah Brooks, outrora Wade. Mandava na redação do News quando das escutas lançadas à responsabilidade de Coulson. É a grande vilã, a Lady Dragon do escândalo que mais abalou a credibilidade da imprensa neste ano. O líder trabalhista Ed Miliband pediu sua demissão, no início da semana. Não é com ela. Esse anel o velho Rupert, que a tem como sua “quinta filha”, não entrega.

Presunçosa até na grafia do nome, Rebekah entrou para o império Murdoch como simples secretária. Esperta, inteligente e, acima de tudo, carreirista e sem escrúpulo, teve uma carreira meteórica. Há dois anos é a principal executiva da News International. Faz qualquer negócio para obter um furo (em 1994 instalou microfones em vasos de flores para “entrevistar” James Hewitt, aquele namoradinho de Lady Di), já se fingiu de arrumadeira de hotel para roubar os originais de um livro comprado por um concorrente para publicá-lo na frente, é um trator na redação e um doce só com os poderosos.

Ruiva, bonitona, 43 anos, impressionou-me o seu olhar viperino, numa foto publicada há dias pelo New York Times. Fui atrás de outras imagens dela, mais lisonjeiras, e qual não foi minha surpresa ao deparar em seu arquivo de fotos no Google com um 3×4 de Goebbels. Vai ver não foi por acaso. Afinal foi Goebbels quem espalhou por aí que uma mentira mil vezes repetida torna-se verdade.

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