Censura online na Rússia

Os blogs russos sobreviverão ao aumento da censura?

Por Benjamin Bidder e Matthias Schepp
Der Spiegel/UOL

Com tantos setores da mídia controlados pelo Estado ou por oligarcas associados ao governo, os russos voltaram-se aos blogs para manterem-se informados e darem voz às suas preocupações e reclamações. Mas muitos dos que estão no poder agora buscam impor limites rígidos à liberdade online.

Em um dia ensolarado de junho na Califórnia, Rustem Adagamov estava correndo sem óculos quando literalmente atropelou o presidente da Rússia. “Simplesmente não vi Dmitry Medvedev e dei uma trombada nele”, diz o blogueiro mais influente da Rússia.

Adagamov, 48, usa seu blog para expor uma série de queixas, inclusive a prisão de membros da oposição e “brutalidade policial sem paralelos”. Todos os dias, seu blog recebe 600.000 visitas, tornando-o mais lido do que muitos dos jornais de Moscou. Adagamov até riu de Medvedev em seu blog, mostrando fotografias de xícaras com o retrato de Medvedev e do primeiro-ministro Vladimir Putin e a legenda “todos mentem de qualquer forma”, em negrito.

Atos como este tornam mais impressionante que Medvedev tenha concordado em conceder uma entrevista a este crítico do Kremlin. E não é tudo: o presidente também convidou Adagamov para acompanhá-lo para uma reunião com Steve Jobs, diretor da Apple, na Califórnia.

Medvedev, 44, é fã da Internet, escreve seu próprio blog e usa o Twitter. Recentemente, por exemplo, o presidente escreveu um artigo chamado “Para frente Rússia!”- que atraiu atenção mundial por sua análise dura da situação econômica atrasada da Rússia. Mas em vez de publicar o artigo em um jornal do governo ou na televisão estatal, ele publicou-o no mais famoso jornal online, o Gazeta.ru. E na semana passada, Medvedev interrompeu um projeto controverso de uma estrada perto de Moscou por meio de um blog com vídeo.

Apesar de Medvedev pedir “abertura em todos os níveis” de seu governo e das autoridades russas, muitos na elite de poder do país acham que isso é levar as coisas longe demais –especialmente no que concerne a Internet. O próprio chefe de gabinete de Medvedev, Sergei Naryshkin, recentemente convocou uma reunião para responder a uma autora da Gazeta.ru que tinha reclamado de Putin e Medvedev porque seus comboios bloqueavam o trânsito.

A Rússia está em uma encruzilhada na tecnologia da informação

A agência interna de inteligência da Rússia, FSB, quer exigir que os provedores de Internet removam sites indesejáveis. Uma lei também exige que esses provedores instalem com recursos próprios máquinas que permitam que a FSB –com autorização da justiça- registre os sites que as pessoas visitam e os e-mails que escrevem.

Alguns provedores já começaram a censurar os usuários por si próprios. Empresas como Scartel, por exemplo, bloquearam portais de críticos do Kremlin, inclusive do campeão mundial de xadrez Garry Kasparov.

Na batalha pela Internet, há dois lados. Em questão está o caminho que a Rússia vai tomar e quanta liberdade permitirá aos seus 142 milhões de cidadãos. Alguns acreditam que a Rússia deve adotar a estratégia liberal do Ocidente. Outros acham que deve seguir os passos de regimes autoritários como a China, que está tentando ao máximo controlar a Internet –e, com ela, seus cidadãos.

De sua parte, Medvedev vê a tecnologia de informação como “chave para o desenvolvimento da democracia” e a Internet como “o recurso mais importante” para alcançar seu objetivo primário: modernizar a enorme nação.

Onde a Google não reina

As empresas de Internet russas vêm tendo um papel importante neste processo. Até agora, elas conseguiram evitar a competição externa e ultimamente começaram a expandir para o Ocidente. Em abril, a empresa de investimento Digital Sky Technologies (DST) –de propriedade do investidor Yuri Milner e do magnata de gás e metal Alisher Usmanov- aumentou sua fatia no Facebook para 10% e comprou o sistema de mensagens instantâneas ICQ da empresa americana AOL, por US$ 188 milhões (em torno de R$ 350 milhões). A ICQ tem mais de 40 milhões de usuários ativos, muitos dos quais no Ocidente.

Frutas frescas e redes para descansar dão um toque de Vale do Silício aos escritórios da Yandex, motor de busca campeão da Rússia. “Respeitamos a Google”, diz Yelena Kolmanovskaya, que fundou a empresa há 13 anos, “mas simplesmente somos melhores”. Hoje, a Yandex tem mais de 2.000 funcionários e controla cerca de 65% do mercado russo. Nenhum outro motor de busca no mundo cresce mais. A Google, que controla cerca de 70% do mercado mundial, está estagnada na Rússia em meros 22%.

Sessenta milhões de russos atualmente surfam online com regularidade, um aumento de 15 milhões sobre o ano passado. Para muitos, a Internet serve de válvula de escape, um lugar onde membros desta sociedade educada, mas excessivamente controlada, podem desopilar um pouco. Da mesma forma, quase 50% dos usuários da Internet em Moscou têm um blog, como 7,5 milhões de pessoas em todo o país – quase o dobro do ano anterior.

Parte 2: O quinto Estado

Desde que o Kremlin passou a controlar a maior parte das principais redes de televisão na última década, e como jornais e revista têm baixa circulação –e muitas vezes são de oligarcas com laços próximos ao governo- coube aos blogueiros exercitar a função de fiscalização tradicionalmente desempenhada pela mídia. Até tabloides como o Komsomolskaya Pravda falam dos blogs elogiosamente, como o “quinto Estado”.

De fato, atualmente, em geral são os blogs –e não a imprensa tradicional- que expõem os escândalos e dão voz às queixas. O blog de um aluno sobre as condições de um lar de idosos perto de Moscou, por exemplo, levou à demissão de seu diretor corrupto. E, nesta primavera, quando a Mercedes de um gerente de alto nível na gigante de petróleo Lukoil bateu em um carro na pista oposta e matou duas mulheres, as fotografias da cena do crime publicadas online expuseram as tentativas da polícia de encobrir o crime.

“Os blogueiros da Rússia simplesmente são os mais sérios”, diz Brad Fritzpatrick, fundador norte-americano do LiveJournal, um serviço online que permite que as pessoas criem seu próprio blog. E não há dúvida que os blogs na Rússia são mais influentes do que em outras partes do mundo.

Este grau de influência foi um dos fatores que levou Adagamov – cujo apelido online é “Drugoi”, ou “O outro”- a desistir há cinco anos de sua vida confortável na Noruega como diretor de criação de uma agência de propaganda e mudar-se para Moscou. Ainda assim, não se sabe se vai poder trabalhar tão livremente aqui como pôde no passado.

“O presidente Medvedev não é mau”, diz Adagamov, “e aprecio sua abertura”. Porém, o blogueiro duvida que o presidente consiga aprovar suas ideias sobre a Internet. Para Adagamov, “a Internet é o último território livre – mas não vai ficar assim por muito tempo”.

Um cruzado russo contra a liberdade na Internet

Um dos mais radicais opositores da liberdade online da Rússia é Robert Schlegel, 25, que vem de uma família alemã. Como Adagamov, Schlegel tem um iPad e escreve um blog. Contudo, diferentemente de Adagamov, ele não é um dos “Outros”. Em vez disso, pertence aos “Nashi” (“Nossos”), uma organização jovem pró-Putin controlada pelo Kremlin. Desde que deixou o cargo de porta-voz Nashi em 2007, Schlegel foi membro do Parlamento do Partido Rússia Unida, de Putin. No momento, está trabalhando em uma nova lei de Internet para introduzir um tipo de passaporte eletrônico para cada usuário, tornando a Internet tão fácil de controlar quanto outras formas da mídia que aceitaram promover os interesses do governo.

Schlegel sonha em algum dia se tornar ministro. Enquanto isso, ele dá instruções a jovens patriotas enquanto filmam vídeos para YouTube no campo de verão Nashi no lago Seliger, entre Moscou e São Petersburgo.

Os Nashis são admiradores fervorosos de Putin. Há alguns anos, o jornal crítico Kommersant até acusou o grupo de ter executado ataques online que paralisaram o site.

No ano passado, Schlegel chegou ao ponto de sugerir que os jornais fossem fechados por “difamação” e fez lobby por um limite estrito na proporção de filmes estrangeiros apresentados em cinemas russos, alegando que: “Muitos canais da mídia abusam de sua liberdade.”

Qual caminho as empresas tomarão?

Alexander Mamut, mais poderoso oligarca russo da Internet, terá que tomar uma posição entre Adagamov e Schlegel, entre o blogueiro progressista e o regulador conservador. Em 2007, Mamut –cuja fortuna está estimada em US$ 1,5 bilhão, de acordo com a revista Forbes- comprou uma participação majoritária do LiveJournal. Quase metade dos blogs russos opera a partir deste site, inclusive os de Adagamov e de seu adversário Schlegel.

A questão, é claro, é: de qual lado está Mamut? O magnata, que se recusa a dar entrevistas sobre tópicos políticos, diz somente: “A Rússia precisa finalmente aprender a cultivar seu povo em vez de sua matéria prima”.

Tradução: Deborah Weinberg

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