Centenário de Clarice Lispector: Dia D da Estrela

Brilha no céu uma estrela. É a hora dela. É a hora da Estrela Clarice. Seu brilho não pára. Novos livros e traduções são lançados. “Minha liberdade é escrever”. A palavra era o seu domínio sobre o mundo. A nossa cegueira sua palavra faz enxergar como num jardim. Lídia ver um cego mascando chiclete e fica transtornada. Beth Goulart em Simplesmente Clarice trouxe esse cego para nos. Lídia perde a estação de chegada do bonde e cai dentro do Jardim Botânico, com seus cérebros apodrecidos. “Tão bonito que ela teve medo do inferno.” A súbita percepção do coração Selvagem do jardim que apodrecia, gotejava, germinava, levava-a à beira do da insanidade. “A loucura é vizinha da mais cruel sensatez, escreveu Clarice.” (in Em Perto de Um Coração Selvagem).

O Ovo não existe isoladamente. “De manhã na cozinha sobre a mesa vejo o ovo. Olho o ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo. Ver o ovo nunca se mantém no presente: mal vejo um ovo e já se torna ter visto o ovo há três milênios. – No próprio instante de se ver o ovo ele é a lembrança de um ovo. – Só vê o ovo quem já o tiver visto. – Ao ver o ovo é tarde demais: ovo visto, ovo perdido. – Ver o ovo é a promessa de um dia chegar a ver o ovo. – Olhar curto e indivisível; se é que há pensamento; não há; há o ovo. – Olhar é o necessário instrumento que, depois de usado, jogarei fora. Ficarei com o ovo. – O ovo não tem um si-mesmo. Individualmente ele não existe.” O Ovo e a Galinha. Clarice Lispector.

A busca da palavra, Clarice. A angústia diante da página – tela  em branco

“Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome”.

O silêncio, o que as palavras não conseguem dizer!  A palavra é meu domínio sobre o mundo, mas falta

Enquanto não consegue pintar, a narradora escreve para um antigo amante:

” Há muita coisa  a dizer que não sei dizer . Faltam palavras.”

( Clarice Lispector , Água Viva 1973)

Clarice no Cinema

A Casa 9 e o conto ” Ovo e a Galinha” filmado por Luiz Carlos Lacerda.

No dia em que é comemorado o dia D de Clarice Lispector, lembro do belo conto “Ovo e a Galinha” do livro Legião Estrangeira. Esse conto foi filmado com roteiro a quatro mãos do cineasta Luiz Carlos Lacerda em parceria com Clarice. Luiz morava na famosa Casa 9 no bairro de Botafogo – RJ, reduto de grandes artistas e abrigo para muitos que chegavam ao Rio de Janeiro. Na casa 09 não tinha telefone e o cineasta narra no documentário homônimo como recebeu um telefonema – via vizinho – da famosa escritora. Ao atender o telefonema, entre perplexo e maravilhado, o Luiz respondia com palavras isoladas. Não podia demonstrar toda a sua euforia na frente dos vizinhos desconhecidos que ouviam a conversa. Depois Clarice vem na Casa 09 para conversar com Lacerda de viva voz e sugere coisas mirabolantes. A presença daquela mulher bem vestida e séria chamou a atenção de todos.

Centenário de Clarice Lispector

Pena que não ficou registro da visita da nobre senhora. O roteiro foi concluído em 1974 e filmado com grande elenco; Lucélia Santos, Carla Camurati, Chico Diaz, Louise Cardoso, Karla Martins, Claudio Perotto e Rodney Pereira. O filme foi dirigido pela sobrinha de Clarice, a cineasta Nicole Algranti. Um curta-metragem de 11 m em 35mm. Uma bela homenagem à escritora da Hora da Estrela, outro belo texto seu filmado.

Clarice no Teatro

Simplesmente Clarice

Uma grande atriz interpreta uma escritora maravilhosa e singular na literatura brasileira. O enorme Teatro Riachuelo lotado para ouvir as confissões de uma escritora que não gostava de se mostrar. Beth vestiu-se de Clarice e nos presenteou com um grande banquete literário. Clarice estava ali, viva, e bem vestida Ela gostava de se sentir bonita. Recebia muitas cartas. Numa delas, um cidadão a chamava da Mãe do Brasil. A maternidade dói mais é bom. Sem o filho ficamos mais solitário.

Em Perto de Um Coração Selvagem, Lídia ver um cego mascando chiclete e fica transtornada. Beth trouxe esse cego para nos. Lídia perde a estação de chegada do bonde e cai dentro do Jardim Botânico, com seus cérebros apodrecidos. “Tão bonito que ela teve medo do inferno.”

A súbita percepção do coração Selvagem do jardim que apodrecia, gotejava, germinava, levava-a à beira do da insanidade. “A loucura é vizinha da mais cruel sensatez, escreveu Clarice. ( in Clarice por Benjamin Moser )

Algumas palavras, não foi possível ouvir- entender com o sotaque ucraniano. Sim sou brasileira e faço tudo para ser. Estava distante no Balcão Nobre de luneta para ver as circunvoluções gestuais e fisionômicas de uma atriz perfeita no papel da escritora de A Paixão Segundo G. H. Espetáculo que começou morno ganhou em amplidão e a atriz foi aplaudida em cena aberta. No final a consagração agradece a atriz pela troca daquele momento único na cena potiguar. Com as palavras ditas daquela forma não temos palavras. O cenário clean sépia só contrastava com o vermelho escarlate do vestido de Clarice, digo Beth. Muito obrigado. Poucos adereços para tão grande desenvoltura cênica. Joana, umas das Clarices, era impetuosa e Lucrecia seu alter ego. Joana gostava de matemática. Deus devia ser um matemático.

Mesmo com um teatro imenso para um monólogo e um espetáculo intimista a atriz não perde o time e segura a atenção de uma platéia atenta e selecionada. Houve, em minha opinião, um certo exagero na caracterização da atriz com Clarice. Não é preciso incorporar o outros para representá-lo.

O teatro é amplo para um monólogo intimista. A atriz que tinha dificuldade para dormir tomava muito remédio. Casou e separou e ficou com o amor filial que completa a mulher. Nascemos para fazer o bem e servir o outro. O ovo e a galinha se complementam, para lembrar um de seus contos eternos de A legião Estrangeira:

“De manhã na cozinha sobre a mesa vejo o ovo. Olho o ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo. Ver o ovo nunca se mantém no presente: mal vejo um ovo e já se torna ter visto o ovo há três milênios. – No próprio instante de se ver o ovo ele é a lembrança de um ovo. – Só vê o ovo quem já o tiver visto. – Ao ver o ovo é tarde demais: ovo visto, ovo perdido. – Ver o ovo é a promessa de um dia chegar a ver o ovo. – Olhar curto e indivisível; se é que há pensamento; não há; há o ovo. – Olhar é o necessário instrumento que, depois de usado, jogarei fora. Ficarei com o ovo. – O ovo não tem um si-mesmo. Individualmente ele não existe.”

Clarice não gostava de dá entrevista. Era reservada. Mesmo assim na peça e na vida, é nas entrevistas que ela mais se mostra. Ziraldo entrevistando-a, perguntou.

– o que é um amigo. Ela responde: uma pessoa que me veja como eu sou. Que não me mistifique. Que me permita ser humilde

– Te incomoda ser tratada como uma pessoa ilustre, né?

Clarice – muito elogio é como botar água demais na flor. Ela apodrece.

– Assusta?

Clarice – Morre.

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