Centenário de Nelson Werneck Sodré

02.04.1964 – Arquivo O Globo – PA – Golpe Militar de 1964 – Manifestação – Marcha da família com Deus pela liberdade que partiu da Igreja da Candelária no Centro da Cidade.

Por Lincoln Secco
NO BLOG DA BOITEMPO

Cem anos depois, Nelson Werneck Sodré começa a ser resgatado do esquecimento a que a universidade brasileira o havia condenado. A USP, que tanto dissabor causava ao velho General, recentemente nomeou uma sala do seu Departamento de História com o nome dele, por iniciativa do Professor Marcos Silva, também organizador do Dicionário Crítico Nelson Werneck Sodré.

Para conhecer a trajetória de Sodré nada melhor do que ler o seu melhor livro: Memórias de um Soldado. Por ele observa-se o impacto da Revolução de 1922-1930 sobre a formação de toda uma geração de militares e civis que expressavam a rebeldia das classes médias.

Sodré assistiu à Revolução de 1932, a qual apoiou e depois criticou. Teve a experiência com a fascistização militar pós-1930, revoltou-se contra o racismo imperante no Colégio militar que seria erguido em São Paulo, ascendeu à Escola de Comando Militar por mérito nos anos de 1940, associou-se à chapa nacionalista ao Clube Militar nos anos de 1950 e seria por isso desterrado para Cruz Alta (RS).

Ali deu aulas de História Militar, comandou tropa e conquistou até mesmo a simpatia de um comandante conservador. Calou-se contrariado diante de uma ou outra injustiça do Exército contra pessoas pobres – o Major que já era engolia a seco aquilo que o jovem tenente teria questionado nos anos de rebeldia.

Werneck Sodré tinha simplesmente descoberto a necessidade de amparo político para fazer política, o que faltava aos nacionalistas, comunistas e ao próprio Getúlio Vargas! Ou seja, Vargas demonstrara que tinha radicalizado sua política sem um dispositivo militar correspondente.

Afastado no Governo Jango, passa à reserva como General de Brigada e dedica-se à Escola Nova de História no ISEB. Sofre o Golpe de 1964: o fascismo cotidiano, a humilhação de oficiais nacionalistas, a quebra da hierarquia e da disciplina pelos golpistas, a desonra das Forças Armadas, a submissão aos Estados Unidos e a ruptura com sua tradição supostamente democrática.

Se as Forças Armadas quiserem se reconciliar com a nação, deveriam começar por editar as Memórias do Soldado Nelson Werneck Sodré, um patrimônio da cultura brasileira.

***

Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP. Publicou pela Boitempo a biografia de Caio Prado Júnior (2008), pela Coleção Pauliceia. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Jarbas Martins 13 de outubro de 2011 13:20

    Sobre a poesia brasileira tinha uma visão abrangente, e soube, com um senso de proporção admirável, raro entre os críticos,colocar nossos poetas em seu devido lugar.Ao estudar o Romantismo, colocou Nísia Floresta e Auta de Souza entre os poetas românticos menores.Fez justiça.

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