Centenário do “poeta do nosso porvir”

Se a superposição de interpretações de uma obra finda por depurar seus diversos sentidos, então a obra de Franz Kafka, com seus vácuos de sentido, lacunas e incompletudes é mesmo o retrato mais acabado da nossa época, especialmente em seus aspectos mais obscuros e refratários ao dizer. Há quem prefira situá-lo idealmente num amanhã mais abrangente, como se o presente ainda não estivesse maduro para assumi-lo em toda a sua plenitude. É o que se sobressai na capa da revista alemã Spiegel” da semana passada, cuja manchete anuncia, abaixo da foto de Kafka, uma palavra: “O Vedor” (“Der Seher”), e complementa: “há 100 anos Kafka descreve a angústia do homem moderno”. Mas é a informação complementar, que vem dentro da revista, o que chama mais a atenção: “Der Dichter unserer Zukunft” (“o poeta do nosso porvir”), antecipando um futuro kafkiano justo quando já o vivemos no presente, num paradoxo que só poderíamos designar como kafkiano…

A edição é comemorativa do centenário de publicação da novela “O Processo”, de Franz Kafka, cujas primeiras linhas (escritas em 1914) já as colocam entre as mais célebres e citadas da literatura do século passado, quase no mesmo grau de familiaridade alcançado pelas primeiras linhas de “A Metamorfose”, do mesmo autor.

O centenário de Kafka também não passou anônimo pela nossa imprensa cultural, basta lembrar que a revista “Cult” de agosto último trouxe a foto do escritor praguense em sua capa e um dossiê “Kafka” que tem a participação de vários kafkianos contemporâneos, dentre eles, Giorgio Agamben, Judith Butler, Márcio Seligman, Michael Löwy, Modesto Carone e Stéphane Mosès. O tema em discussão? “A literatura como experimentação política e filosófica”.

Mesmo o jornal “Rascunho”, embora não tenha evocado o nome de Kafka em seu último número, evocou seu espírito ao reservar a capa de agosto ao kafkiano Augusto Monterroso, autor hondurenho do famosíssimo miniconto: “Quando acordou, o dragão ainda estava lá”, conto em que, trocando-se o dragão por um inseto indeterminado, recai-se de imediato no mundo de “A Metamorfose”. Monterroso é também autor do não menos conhecido conto “A Ceia”, ambientado numa Paris na qual um certo Franz se extravia tentando chegar ao apartamento onde se reúne um grupo de escritores que o aguardam.

Mas o acontecimento editorial brasileiro mais importante em torno da figura de Franz Kafka nesse agosto próximo passado foi o lançamento de “Kafka: por uma literatura menor”, de Gilles Deleuze e Félix Guattari (Autêntica, 2014), em tradução de Cíntia Vieira da Silva.

Trata-se de um conjunto de ensaios orbitando ao redor da obra de Kafka, mas com uma novidade: confere às numerosas cartas que Kafka escreveu a algumas mulheres com quem se relacionou – especialmente Felice Bauer e Milena Jesesnká – um status de obra literária tão importante quanto seus três romances inacabados, seus contos e seus diários. Não é preciso lembrar que sua “Carta ao Pai” é, como diz, uma missiva que se destaca das demais, para muitos estudiosos, tão somente pela sua extensão, considerando que se alonga por dezenas de páginas.

A propósito das cartas de Kafka, o “dossiê Kafka” da “Cult” informa que Modesto Carone está preparando uma edição dessas cartas, traduzidas por ele, como complemento ao seu trabalho tradutório das obras do tcheco.

Há um frenesi kafkiano no ar que reforça a imagem de intérprete do homem moderno que vem sendo pespegada ao nome de Franz Kafka, processo iniciado ainda nos anos 1930, com a biografia que Max Brod escreveu de seu amigo. As vias que convergiram para a completude desse retrato ajudam a explicar por que é preciso ler Kafka.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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