Cercas de Pedras

Da Coluna de Chico Burra Cega no blog
bardoferreirinha

As nossas velhas cercas de pedra contam-nos a história seridoense dos ciclos do gado e do algodão. Em suma, a história da ocupação rural do território seridoense e da pujança da sua economia, que elevou a região a patamares econômicos, sociais, políticos e culturais tão altos, jamais atingidos em épocas subseqüentes, inclusive a atual.

Demais disso, as cercas de pedra, como os açudes primitivos, são hoje autênticos monumentos à inteligência do seridoense trabalhador rural, vaqueiro, fazendeiro, pecuarista e suas respectivas famílias. Construídos com muito suor e criatividade é crime cultural destruí-los. Monumentos à inteligência?
No caso da cerca de pedra porque ela é exemplo perfeito da utilização sustentável de recursos naturais, hoje em dia na pauta de todas as discussões sobre desenvolvimento; porque a inteligente observação do nosso homem do campo concluiu sabiamente que esse seria o único tipo de cerca permanente. Se porventura vier a cair, o material de reconstrução permanecerá no local. Nenhum outro tipo de cerca oferece essas duas vantagens. Você pode até nunca ter notado, mas uma cerca de pedra bem feita é uma obra de arte! Um livro — como escreveu Dom José Delgado a respeito das obras sociais, um livro que até os analfabetos conseguem ler.
Cada pedra dessas cercas é uma página da história do sertão do Seridó norte-rio-grandense. É um marco de algo que não pode ser esquecido. É um registro indestrutível, legado deixado pelos velhos sertanejos, fundadores de fazendas e cidades, que para nós conquistaram os dias de hoje nessa grande e famosa cidade que responde pelo nome de Caicó.
Foi tal o avanço dessas ancestrais conquistas que os nossos antepassados tiveram de construir cercas de pedra para estabelecer os limites do progresso econômico da região.
Sob a alegação de que as cercas de pedra serviam de abrigo para o mosquito da dengue, isso em 1970, quando a doença começava a penetrar com força no Nordeste, alguém no Ministério da Saúde teve a infeliz ideia de sugerir a destruição dessas cercas como uma das medidas a serem adotadas no combate ao aedes aegypti, mosquito transmissor da doença.
Foi quando sertanejo detentor de alguns poderes locais dirigiu-se ao Ministério da Saúde e perante autoridades federais demonstrou a estupidez da medida contra esse verdadeiro patrimônio histórico da cultura social e econômica do Nordeste, especialmente do chamado polígono das secas.
“Mosquitos, Senhor Ministro — argumentou o seridoense, combate-se com inseticidas e não destruindo tradições. Ademais, a dengue veio para o Seridó originária de regiões onde não existe uma só cerca de pedra!”
As cercas de pedra foram preservadas.
Agora é a vez do DNIT — Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, que alargou a faixa de domínio público das margens das rodovias federais, implantando estacas de concreto e arame farpado nas cercas marginais. Trata-se de medida elogiável e de suma importância na prevenção de acidentes, principalmente pelo afastamento de animais da faixa destinada aos veículos motorizados.
Cercas centenárias ficaram abandonadas, dentro da faixa de domínio federal, expostas ao desmancho para a utilização das suas pedras em alicerces e outras obras da construção civil. Infelizmente está sendo esse o destino da nossa história de pedra, ou das pedras que contam a nossa história.
Sábado, 2 de outubro deste ano, vinha de Natal, quando notei na entrada de Caicó, imediações do Iate Clube, dois caminhões estacionados à margem da estrada e pessoas desmanchando cerca bicentenária (quase 250 anos). Uma carrada de seis metros de história e tradição é vendida por R$ 130,00 em Caicó!
Presenciei, portanto, aqui em Caicó a repetição do crime que há mais de dois milênios a brutalidade humana cometia contra os monumentos que testemunhavam a história daquele tempo. Os vencedores destruíam belíssimas construções e monumentos dos vencidos e com suas pedras edificavam prédios com os quais pretendiam perpetuar as vitórias. Hoje isso se chama vandalismo, dos Vândalos, povo bárbaro que saqueou Roma, destruiu monumentos e obras de arte, muitos dos quais desapareceram para sempre.
No mundo só vi cerca de pedra na Península ibérica e na Palestina. Posso atestar que cercas de pedra tão bem feitas como essas nossas, que agora estão sendo destruídas, não existem em lugar nenhum fora do Seridó.
Mesmo assim há localidades brasileiras que já apresentaram ao Ministério da Cultura estudo detalhado de suas cercas de pedra para que sejam reconhecidas como patrimônio cultural, pois, cerca de pedra, além de expressar a história e a cultura de uma região, também gera turismo.
Por que Caicó é tão ávida em destruir seus prédios e locais de tradição histórica?
Esses espigões, alguns até sem garagem para estacionamento de automóveis, ao invés de tornarem a cidade mais turística, tornam-na mais boçal, porque não é metrópole. Mais quente, porque dificulta a circulação da pouca amenidade climática que em alguns momentos visita a cidade. Mais caótica pela loucura do trânsito. Mais atrasada pela falta de planejamento. Não deixa de ser uma manifestação de boçalidade sustentar que esses espigões denotam desenvolvimento.
Do que aprendi em minhas viagens pelos cinco continentes, especialmente observando a cultura, usos e costumes dos povos e as vantagens que extraem do turismo, asseguro que Caicó, a longo prazo, muito ganharia se desenvolvesse esforços no sentido de reconstruir e restaurar as suas cercas de pedra que margeiam a BR pelo menos das imediações do Iate Clube até o bairro Itans.
O investimento é muito pequeno, mas os resultados culturais e turísticos serão inestimáveis.
Finalmente, é preciso que as autoridades cumpram e façam cumprir a lei. A ninguém é escusável negar que desconhece ser crime o que vem ocorrendo com as pedras das velhas e históricas cerca de Caicó.
Procurador federal e ex-prefeito de Caicó

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Comments

There are 4 comments for this article
  1. João da Mata
    João da Mata 8 de Novembro de 2010 16:04

    Pedras do meu Caicó arCAICO
    pedras que cercam solidões
    e casarões de duas águas.

    Se as pedras dividem – o coração
    ajunta – o que o tempo esconde
    nas dobras da grande civilização.

  2. antonia maria de araujo fernandes 21 de Novembro de 2010 11:56

    Prezado João da Mata, fico feliz em encontrar em sua coluna o artigo do Professor Francisco de Assis, e comprovar que existem pessoas responsáveis e sensatas que se indignam com o que vem ocorrendo na cidadade de Caicó, por meio da total ausencia de inteligencia e responsabilidade na administração daquele município, gerando diariamente serias questões urbanisticas e ambientais naquela que já foi um dia endeusada como a “rainha do Seridó”. Partindo-se de um ex-prefeito como o Sr. Francisco, vulgo burra cega, apelido que não gosto, visto o mesmo ser um respeitavel professor e Procurador Federal e sabedor das obrigatoriedades que devem reger a administração de um município, me dá até um certo ânimo, poís a cada vez que visito aquele lugar, resigno-me a proteger-me na casa da família, visitar cuidadosamente os amigos, e cuidar de não assustar-me com tanta maracatuzagem que poluem a paisagem local por meio de obras de péssimo mau-gosto como a praça “espacial” na outrora linda praça Dr. José Augusto, a destruição dos partidos arquitetônicos do casario a serem substituídos por absurdos edifícios sem observancia minima de código de obras e demais legislaçôes pertinentes urbanas e ambientais. Para que serve o Ministéiro Público naquela cidade é o que me deixa mais supresa, como também a passividade dos feirantes do mercado principal que estão exposto as intempéries de terem sido instalados precariamente no meio de uma ladeira, enquanto esperam por uma reforma sem fim no referido prédio. Cadê a indignação dos pessoas? cadê o Caicó de cabeça erguida? para que serve uma universidade ali existente a mais de 25 anos, inclusive com um curso de Direito, se não consegue sequer questionar os dramas da sociedade local? até quando os interesses da oligarquia dominante combinada com os grupos emergentes econômicos dominarão o direito a dignidade do bem estar daquele lugar? Ou então é ficar como Drummond, quando refere-se a Itabira?
    Caicó, já teve o ouro dos brancos algodoais, hoje é só um retrato na parede…
    ps. o pessoal do blog bardoferreirinha poderia puxar uma discussão sobre os crimes a cultura de caicó, já que os poetas dizem que (…) beber um pouquinho dá para ter argumento(…)

  3. João Henrique Rosa 24 de Abril de 2012 1:34

    Primeiro, Parabéns pelo ótimo desto desta postagem e também pela escolha do tema, tão carente de abordagens como esta.
    Segungo, a fazer coro com João da Mata e Chico Burra Cega, deixo aqui também meu lamento pela política de desvalorização e alteração desses registros arqueológicos levada a cabo seja pela omissão/negligência seja pelo desinteresse da administração local e também do órgão federal responsável por essas questões, o IPHAN.
    Não é de hoje que monumentos como as cercas de pedra – e aqui deixo minha contribuição aos autores e leitores desse sítio, espalhadas pelo Brasil português colonial, notadamente onde houve uma administração formal lusitana, como em Minas Gerais, Goiás, São Paulo e Mato Grosso – são conhecidos às centenas e estão sofrendo uma ação predatória difícil de mensurar.
    Conheci várias cercas de pedra em vários desses estados e todas elas eu as registrei como sítio arqueológico; no entanto, consultando a página do IPHAN não se enxerga nenhum registro explícito que as contemple.
    Uma dessas cercas, por sinal uma das maiores que eu pude visitar, inclusive é tão larga e bem estrutrada que parece mais uma estrada calçada, elevada do solo em coisa de 1,20m a 1,50m por 1m de largura, em média e conta com aproximadamente 4 km de extensão (atualmente descontínuos, infelizmente); construída em relevo extremamente íngrime. há outros trechos nas proximidades com extensões parecidas, deixando crer que faziam parte de uma mesma cerca, da mesma sesmaria.
    Sua estrutura é tão marcante na paisagem que foi possível eu encontrá-la usando uma imagem de satélite; deixo aqui as coordenadas para quem quiser dar uma olhada também: -18.8909847, -46.7725084 (basta colá-las no campo de pesquisa do Google Earth ou mesmo do Google Mapas); alternativamente, basta seguir o atalho para a Wikimapia, onde a cerca aparece já mapeada: http://wikimapia.org#lat=-18.8909847&lon=-46.7725084&z=16&l=9&m=b&v=8
    obrigado pela postagem.
    abraço.
    Saudações da Paraíba.

  4. João Henrique Rosa 24 de Abril de 2012 1:38

    texto*,

    (correção para erro na postagem anterior)

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