Certeza sobre a incerteza

Por Maria Clara Paiva

É no suave toque da madrugada, onde todos os corpos se desligam, que o mais altivo se pronuncia. Não há como calar o discurso da alma, não há como permanecer fugitivo de si mesmo. Se é aquilo que mais se cala, aquilo que os ouvidos temem captar – não só por ferino orgulho, mas pela insegurança de desmistificar a si mesmo.

Teme-se a certeza acerca das próprias incertezas, diante o simultâneo esquecimento de que ela pode refletir, no espelho da mente, as saídas mais prudentes para queixas que transtornam noites de repouso – posto que somos dor, mas também alento.

Basta a coragem de reconstruir planos e caminhos para cumpri-los, e acima do tangível, a vontade de reconstruir a si mesmo, ainda que encharcado pelas lágrimas não derramadas, pelas palavras não ditas, pelos amores não vividos, pelas pendências – antes emergenciais – postas tapete abaixo.

Que se saiba, pois, que coragem não é ausência de medo, mas a convivência desafiadora entre ele e a vontade – de não tê-lo. Que a beleza de se ser, é a vivacidade em se reinventar: aceitar-se humano, perecível, efêmero, instável, imperfeito, contraditório, certo de suas incertezas – interminavelmente certas.

É no suave toque da madrugada, que o mais altivo se pronuncia.

Comments

Be the first to comment on this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP