Cervantes na Cultura Popular

Do Romanceiro ibérico, a literatura de Cordel do NE recebeu forte influência. A literatura de cordel está, inicialmente, ligada a Romances ou Novelas de Cavalaria, histórias de amor, narrativas de guerras, etc. Posteriormente foram incorporados fatos recentes e acontecimentos Sociais.

Na Espanha a literatura de Cordel era chamada de “Pliegos Sueltos” (Folhas volantes). Na França, literatura de Colportage. Das novelas citadas por Cervantes, o Bernardo del Carpio fez muito sucesso no Brasil e vinha como capítulo final do Carlos Magno e os 12 pares de França (Flaviense RJ s/d ). Tenho uma edição em tres pliegos do séc. XIX, da História Verdadera Del Valiente Bernardo Del Carpio (Madrid 1879). Ainda no séc. XIX eram editados em Pliegos Sueltos, o Orlando Furioso, Los siete Dabios de Roma, Bastardo de Castilla, Historia de Oliveros de Castilla, El Cid Campeados,etc). O que mostra a vitalidade e perenidade do gênero de cavalaria na Espanha. No séc. XX foram impressos no Brasil muitos folhetos de cordel com as historias de cavalaria, principalmente O Carlos Magno cuja história alimentava o imaginário das crianças e estimularia futuros escritores, como aconteceu com José Lins do Rego que com Carlos Magno aprendeu a temer mais a Deus do que com o catecismo. “Que grande coisa era ser cristão, filho legítimo de Deus, e brigar com os mouros, turcos, os infiéis”(Rego em Doidinho, 1976).

Dom Quixote cita a princesa Megalona na história de Pierres y la Linda Megalona. No entremez Pedro Urdemallas, esse personagem corresponde ao nosso Pedro Malazarte. O Retábulo das Maravilhas é inspirada num conto folclórico antigo. Um enganador profissional que exibia para diversas pessoas uma pintura capaz de identificar os que fossem bastardos. A propriedade desta pintura era ser invisível apenas para os bastardos. Os personagens simulam o tempo todo dizendo ver o que não vêem.

No ano do quarto centenário do Quixote (2005), saíram dezenas de edições novas, inclusive em cordel. O renomado escritor e ilustrador J. Borges (1935) escreveu uma versão do Quixote, com ilustrações do também pernambucano Jô Oliveira. Começa assim o Quixote de J. Borges:

Existia uma grande aldeia
igual a outras que havia
e lá tinha um fidalgo
magro, mas sempre comia
carnes, fritos e lentilhas
ovos e tudo que existia.

Lia tanto que ficava
delirando a vida inteira
e via em sua frente
bruxos, dragão, feiticeira
combates e desafios
que terminavam em asneira.

Dom Quixote luta com os cangaceiros do nordeste e Dulcinéia (sua amada imaginada) vira Maria Bonita

Lutou com os cangaceiros
perdeu na luta maldita
pensou ser a Dulcinéia
que seu coração palpita
mas quando levantou
era Maria bonita.

Dom Quixote pede para que lhe passasse o ungüento de Ferrabrás, pois tava todo ferido da luta com os cangaceiros. Depois D. Quixote luta com o cavaleiro da Branca Lua, em campina Grande. Nesse episodio, um dos mais comoventes do Quixote, D. Quixote perde a batalha. O cavaleiro da Branca Lua era o seu amigo Sansão Carrasco, que lutou para que o Quixote vencido voltasse para casa, como havia sido o trato que é cumprido rigorosamente pela cavalaria andante. D. Quixote volta para casa e passa ser novamente Alonso Quijano. Logo morre, pois sua vida era o pelejar e lutar contra as injustiças do mundo.

Outra versão cordelizada adaptada do Quixote foi feita pelo Cearense Antônio Klévisson Viana, poeta popular, cartunista e tesoureiro da Academia Brasileira de Cordel.

As aventuras de D. Quixote em versos de cordel,

Espanha belo pais
foi lá que viveu Miguel
De Cervantes, que escreveu
Com nanquim, pena e papel
A história de Dom Quixote
Que eu refiz em cordel.

O Autor pergunta quem foi D. Quixote, para concluir que:
– Quem ler o livro / tira algumas boas lições.

Quem foi esse Dom Quixote?
Foi um louco, um sonhador?
visionário ou lunático
em um mundo enganador?
ou foi alguém que buscava
Pra vida um real valor?

História sem FIM.

No D. Quixote, Sancho Pança conta uma História sem Fim para o Quixote. Era uma vez um Cabreiro que precisava atravessar 300 cabras por um rio. O cabreiro Lopo Ruiz – que se deixou embeiçar pela pastora Torralva – só encontrou uma canoa que cabia uma única cabra. Passou uma cabra, volveu dali a pouco e passou a segunda, tornou a vir, tornou a passar. Vossa mercê vá contando com todo cuidado as cabras que o cabreiro passa, porque se erra não há forma de reatar a história e acabou-se a história….
– Homem parte do princípio que já passou todas, interrompeu D. Q. com impaciência!

– Quantas é que passaram até agora?
– Com o diabo querias tu que as contasse?
[…]
Não contou, assim eu não posso passar adiante. Bendito e louvado, estar meu conto acabado.

Câmara Cascudo registra uma variante dessa história em “Deixe os patos passar”. Chove muito e se formou um rio muito largo. A primeira fila entrou na água, mas havia correnteza e os bichos custavam e custavam e custavam a vencer, andando.

Em Portugal, Teófilo Braga em Contos Tradicionais de Portugal, registrou uma versão parecida. Era uma vez um pastor que andava no mato com duzentos carneiros, veio uma trovoada, e ele quis recolher o rebanho para o curral, chamou o carneiro e pôs – se a caminho. Chegou ao pé de um rio muito fundo, onde havia uma ponte, e de cada vez só podia passar um carneiro.

Paramiologia:

O Dom Quixote é um rico manancial de paramiologia, onde abundam os rifões, provérbios, frases proverbiais, anexins e outros tipos de parêmias.

1- As sentenças ou máximas contém uma sabedoria popular
Mas vale bom nome que muita riqueza (Sancho II, 33)

2- Provérbio
Sempre ouvi dizer: Quem canta seus males espanta (I, 22)

3- ADÁGIO
[…] cumprindo-se o adágio de que às vezes paga o justo pelo pecador (I, 7)
Una golondrina sola não hace verano (I, 13),
Uma andorinha só não faz verão
Uma andorinha só não faz primavera

Conselhos de Dom Quixote a Sancho Pança, antes que seu escudeiro fosse governar a ilha baratária.

-Nunca interpretes arbitrariamente a lei, como costumam fazer os ignorantes que têm presunção de ter grandeza.

-Anda devagar, fala pausadamente, mas não de forma que pareça que te escutas a ti mesmo, porque toda afetação é má.

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